Publicação
A comparative two-cohort study about differences across time and influence of gross national income on demographic characteristics, diagnostic delay and clinical outcome of patients with cerebral vein thrombosis
| Resumo: | A trombose venosa cerebral (TVC) é uma condição cérebro vascular rara e multifatorial com causas específicas relacionadas com o género. É uma doença que pode apresentar uma vasta apresentação clínica. Em contraste com o acidente vascular cerebral arterial, TVC é uma doença ainda pouco estudada, com frequência difícil de diagnosticar e com uma variedade de fatores de risco, o que leva a que se converta numa condição que pode apresentar uma panóplia de sinais e sintomas, mimetizando inúmeras patologias neurológicas. Neste contexto, é frequente não só existirem atrasos no diagnóstico como diversos resultados prognósticos. De acordo com estudos anteriores, a trombose venosa cerebral afeta maioritariamente adultos mais jovens, com uma maior incidência entre mulheres em idade fértil. As principais causas de TVC diferem entre países desenvolvidos, caracterizados por um elevado desenvolvimento tecnológico, um peso relativo significativo dos setores secundário e terciário na economia e um rendimento per capita elevado em que a sua distribuição pela população se apresenta relativamente homogénea em comparação com os restantes países (considerados no seguimento deste trabalho como países com um rendimento não elevado). O prognóstico de TVC depende essencialmente de uma deteção precoce e o seu reconhecimento assenta em técnicas específicas de neuroimagem e numa consciencialização clínica adequada e cada vez mais precisa e informada. Ao longo do tempo, os relatos de mortalidade têm apresentado uma tendência decrescente – para a qual não serão alheios o avanço das técnicas de neuroimagiologa e o aumento do conhecimento e sensibilização dos técnicos, o que permite um diagnóstico mais precoce e, consequentemente, a adoção em tempo útil de medidas terapêuticas. O Sul da Ásia é a área com a prevalência mais elevada de tromboses venosas cerebrais, sugerindo que existem algumas especificidades no perfil de fatores de risco nestes pacientes, quando comparados com pacientes europeus. É preciso ter em conta que alguns países asiáticos estão tipificados como subdesenvolvidos ou menos industrializados, apresentando uma dependência financeira e exclusão tecnológica e económica. Estudos com uma participação mais inclusiva e global poderão vir a permitir uma maior compreensão da influência de fatores económicos na trombose venosa cerebral. Desta forma, a presente tese pretende abranger a evolução demográfica dos pacientes com trombose venosa cerebral, e a evolução da situação quer em termos de atrasos no diagnóstico quer nos resultados apurados em termos de dependência e/ou incapacidade após a doença. Pretende-se ainda analisar o impacto dos diferentes níveis de rendimento de cada país nestes fatores. Este estudo foi assim conduzido utilizando dados de dois dos principais estudos internacionais no tema de Tromboses Venosas Cerebrais: The International Study on cerebral vein and dural sinus thrombosis (ISCVT) and The benefit of Extending oral antiCOAgulation treatment (EXCOA-CVT). É de notar que ambos os estudos incluíram participantes recrutados em diferentes períodos (1998- 2001 no estudo ISCVT e 2012-presente no estudo EXCOA-CVT. Para o presente estudo comparativo, incluiu-se um total de 606 pacientes do estudo ISCVT e 998 pacientes do estudo EXCOA-CVT. Os sujeitos com trombose venosa cerebral foram comparados considerando o produto nacional bruto (Gross National Income- GNI) do país onde se localiza o centro médico alvo do estudo, tendo sido recolhidas as seguintes variáveis: características demográficas (idade e género); atraso no diagnóstico (i.e., tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico efetivo); e o grau de incapacidade ou dependência nas atividades de vida diárias – utilizando para isso a Escala Modificada de Rankin (Modified Rankin Scale- mRS). Procedeu-se ainda à análise das alterações resultantes do período temporal, uma vez que os dois estudos contemplam diferentes períodos de tempo. Em comparação com o estudo ISCVT, o mais recente estudo EXCOA-CVT incluiu mais pacientes de países com um nível de rendimento mais baixo (conseguido particularmente devido a um grande número de inclusões de participantes da Índia), garantindo um recrutamento mais equilibrado entre os países com um nível de rendimento mais elevado e os restantes. Os resultados apurados evidenciam diferenças significativas entre ambos os estudos para determinadas variáveis, nomeadamente demográficas, de atraso de diagnóstico e de incapacidade funcional. Em primeiro lugar, o estudo EXCOA-CVT revelou uma maior proporção de trombose venosa cerebral em homens, apesar das mulheres continuarem a ser o grupo mais afetado. É de realçar que esta diferença de género foi apenas evidente nos países em que o nível de rendimento é mais baixo, tendo este resultado sido influenciado pelo padrão específico de género observado no recrutamento efetuado aos pacientes da Índia. Por outro lado, não foram observadas quaisquer diferenças significativas entre o estudo ISCVT e o estudo EXCOA-CVT para a idade global à data do diagnóstico de TVC. Em segundo, entre o estudo ISCVT e o estudo EXCOA-CVT, houve uma redução significativa na duração do tempo do diagnóstico da trombose venosa cerebral. Em média, os pacientes do estudo EXCOA-CVT, demoraram menos dois dias a ser diagnosticados. Este diagnóstico mais precoce no estudo EXCOA-CVT- em que cerca de dois terços dos pacientes foram diagnosticados no período de uma semana - abrangeu indistintamente do nível de rendimento, todos os países alvo do estudo. Por último, ambos os extremos da Escala Modificada de Rankin, isto é, os casos assintomáticos de trombose venosa cerebral e os casos mortais, mostraram uma redução significativa no estudo mais recente EXCOA-CVT, quando comparado com o primeiro estudo ISCVT. A análise aos resultados permite ainda constatar uma diminuição no índice de mortalidade (tendência idênticas para países com diferentes níveis de rendimento) e uma redução do diagnóstico de tromboses venosas cerebrais em pacientes sem sintomas, ainda que neste caso, a redução verificada tenha sido mais acentuada nos países que apresentam um nível de rendimento mais elevado. Numa perspetiva global de comparação entre o estudo ISCVT e o estudo EXCOACVT, pode afirmar-se que houve uma melhoria do diagnóstico, com uma deteção mais precoce da doença, potencialmente devido aos mais recentes procedimentos de neuroimagem, assim como uma maior consciencialização da doença, tanto por parte dos profissionais de saúde, como da população em geral, abrindo assim várias oportunidades para medidas terapêuticas mais precoces. Associado a este maior conhecimento da doença, o facto do EXCOA-CVT apresentar uma amostra mais global e inclusiva (maior representação de países com um nível de rendimento mais baixo), permitiu obter um conhecimento mais rigoroso e detalhado do perfil do paciente com maior risco de trombose venosa cerebral. Foi assim possível constatar que a população com trombose venosa cerebral engloba um número mais elevado de homens do que anteriormente reportado, contrariando literatura prévia, assim como eventualmente uma maior incidência de tromboses venosas cerebrais em populações mais jovens. Esta tese acaba por pôr em evidência a importância da conceção do estudo/desenho da amostra, mostrando a necessidade de alargar o seu âmbito e torná-lo mais inclusivo. É ainda evidente a influência que variáveis demográficas como o género e a idade, assim como fatores relacionados com o estilo de vida podem ter em vários resultados clínicos. |
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| Autores principais: | Leite, Marta Carvalho Vieira |
| Assunto: | Trombose venosa cerebral EXCOA-CVT ISCVT Produto interno bruto Teses de mestrado - 2022 |
| Ano: | 2023 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | inglês |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A trombose venosa cerebral (TVC) é uma condição cérebro vascular rara e multifatorial com causas específicas relacionadas com o género. É uma doença que pode apresentar uma vasta apresentação clínica. Em contraste com o acidente vascular cerebral arterial, TVC é uma doença ainda pouco estudada, com frequência difícil de diagnosticar e com uma variedade de fatores de risco, o que leva a que se converta numa condição que pode apresentar uma panóplia de sinais e sintomas, mimetizando inúmeras patologias neurológicas. Neste contexto, é frequente não só existirem atrasos no diagnóstico como diversos resultados prognósticos. De acordo com estudos anteriores, a trombose venosa cerebral afeta maioritariamente adultos mais jovens, com uma maior incidência entre mulheres em idade fértil. As principais causas de TVC diferem entre países desenvolvidos, caracterizados por um elevado desenvolvimento tecnológico, um peso relativo significativo dos setores secundário e terciário na economia e um rendimento per capita elevado em que a sua distribuição pela população se apresenta relativamente homogénea em comparação com os restantes países (considerados no seguimento deste trabalho como países com um rendimento não elevado). O prognóstico de TVC depende essencialmente de uma deteção precoce e o seu reconhecimento assenta em técnicas específicas de neuroimagem e numa consciencialização clínica adequada e cada vez mais precisa e informada. Ao longo do tempo, os relatos de mortalidade têm apresentado uma tendência decrescente – para a qual não serão alheios o avanço das técnicas de neuroimagiologa e o aumento do conhecimento e sensibilização dos técnicos, o que permite um diagnóstico mais precoce e, consequentemente, a adoção em tempo útil de medidas terapêuticas. O Sul da Ásia é a área com a prevalência mais elevada de tromboses venosas cerebrais, sugerindo que existem algumas especificidades no perfil de fatores de risco nestes pacientes, quando comparados com pacientes europeus. É preciso ter em conta que alguns países asiáticos estão tipificados como subdesenvolvidos ou menos industrializados, apresentando uma dependência financeira e exclusão tecnológica e económica. Estudos com uma participação mais inclusiva e global poderão vir a permitir uma maior compreensão da influência de fatores económicos na trombose venosa cerebral. Desta forma, a presente tese pretende abranger a evolução demográfica dos pacientes com trombose venosa cerebral, e a evolução da situação quer em termos de atrasos no diagnóstico quer nos resultados apurados em termos de dependência e/ou incapacidade após a doença. Pretende-se ainda analisar o impacto dos diferentes níveis de rendimento de cada país nestes fatores. Este estudo foi assim conduzido utilizando dados de dois dos principais estudos internacionais no tema de Tromboses Venosas Cerebrais: The International Study on cerebral vein and dural sinus thrombosis (ISCVT) and The benefit of Extending oral antiCOAgulation treatment (EXCOA-CVT). É de notar que ambos os estudos incluíram participantes recrutados em diferentes períodos (1998- 2001 no estudo ISCVT e 2012-presente no estudo EXCOA-CVT. Para o presente estudo comparativo, incluiu-se um total de 606 pacientes do estudo ISCVT e 998 pacientes do estudo EXCOA-CVT. Os sujeitos com trombose venosa cerebral foram comparados considerando o produto nacional bruto (Gross National Income- GNI) do país onde se localiza o centro médico alvo do estudo, tendo sido recolhidas as seguintes variáveis: características demográficas (idade e género); atraso no diagnóstico (i.e., tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico efetivo); e o grau de incapacidade ou dependência nas atividades de vida diárias – utilizando para isso a Escala Modificada de Rankin (Modified Rankin Scale- mRS). Procedeu-se ainda à análise das alterações resultantes do período temporal, uma vez que os dois estudos contemplam diferentes períodos de tempo. Em comparação com o estudo ISCVT, o mais recente estudo EXCOA-CVT incluiu mais pacientes de países com um nível de rendimento mais baixo (conseguido particularmente devido a um grande número de inclusões de participantes da Índia), garantindo um recrutamento mais equilibrado entre os países com um nível de rendimento mais elevado e os restantes. Os resultados apurados evidenciam diferenças significativas entre ambos os estudos para determinadas variáveis, nomeadamente demográficas, de atraso de diagnóstico e de incapacidade funcional. Em primeiro lugar, o estudo EXCOA-CVT revelou uma maior proporção de trombose venosa cerebral em homens, apesar das mulheres continuarem a ser o grupo mais afetado. É de realçar que esta diferença de género foi apenas evidente nos países em que o nível de rendimento é mais baixo, tendo este resultado sido influenciado pelo padrão específico de género observado no recrutamento efetuado aos pacientes da Índia. Por outro lado, não foram observadas quaisquer diferenças significativas entre o estudo ISCVT e o estudo EXCOA-CVT para a idade global à data do diagnóstico de TVC. Em segundo, entre o estudo ISCVT e o estudo EXCOA-CVT, houve uma redução significativa na duração do tempo do diagnóstico da trombose venosa cerebral. Em média, os pacientes do estudo EXCOA-CVT, demoraram menos dois dias a ser diagnosticados. Este diagnóstico mais precoce no estudo EXCOA-CVT- em que cerca de dois terços dos pacientes foram diagnosticados no período de uma semana - abrangeu indistintamente do nível de rendimento, todos os países alvo do estudo. Por último, ambos os extremos da Escala Modificada de Rankin, isto é, os casos assintomáticos de trombose venosa cerebral e os casos mortais, mostraram uma redução significativa no estudo mais recente EXCOA-CVT, quando comparado com o primeiro estudo ISCVT. A análise aos resultados permite ainda constatar uma diminuição no índice de mortalidade (tendência idênticas para países com diferentes níveis de rendimento) e uma redução do diagnóstico de tromboses venosas cerebrais em pacientes sem sintomas, ainda que neste caso, a redução verificada tenha sido mais acentuada nos países que apresentam um nível de rendimento mais elevado. Numa perspetiva global de comparação entre o estudo ISCVT e o estudo EXCOACVT, pode afirmar-se que houve uma melhoria do diagnóstico, com uma deteção mais precoce da doença, potencialmente devido aos mais recentes procedimentos de neuroimagem, assim como uma maior consciencialização da doença, tanto por parte dos profissionais de saúde, como da população em geral, abrindo assim várias oportunidades para medidas terapêuticas mais precoces. Associado a este maior conhecimento da doença, o facto do EXCOA-CVT apresentar uma amostra mais global e inclusiva (maior representação de países com um nível de rendimento mais baixo), permitiu obter um conhecimento mais rigoroso e detalhado do perfil do paciente com maior risco de trombose venosa cerebral. Foi assim possível constatar que a população com trombose venosa cerebral engloba um número mais elevado de homens do que anteriormente reportado, contrariando literatura prévia, assim como eventualmente uma maior incidência de tromboses venosas cerebrais em populações mais jovens. Esta tese acaba por pôr em evidência a importância da conceção do estudo/desenho da amostra, mostrando a necessidade de alargar o seu âmbito e torná-lo mais inclusivo. É ainda evidente a influência que variáveis demográficas como o género e a idade, assim como fatores relacionados com o estilo de vida podem ter em vários resultados clínicos. |
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