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Role of EGF mediated laminin y2 chain in uterine cervix carcinoma

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Resumo:A carcinogénese é um processo complexo e gradual de transformação pelo qual as células normais originam células com potencial neoplásico. Durante este processo, as células cancerígenas adquirem características de malignidade, que resultam da acumulação de várias mutações genéticas e alterações epigenéticas, levando assim, à ativação de oncogenes e inativação de genes supressores de tumores. Essas caraterísticas são designadas de hallmarks do cancro, sendo que as principais são: autossuficiência em relação aos sinais de crescimento, insensibilidade aos sinais de anti-crescimento, resistência à apoptose, elevado potencial replicativo, aumento do potencial angiogénico, evasão ao controlo imunitário, reprogramação metabólica e capacidade de invasão tecidular e metastização. O microambiente que envolve células cancerígenas também atua neste processo como uma rede funcional, que inclui células normais, fatores mediadores e componentes da matriz extracelular. O carcinoma do colo útero é o quarto tipo de cancro mais comum em mulheres em todo o mundo, sendo diagnosticados anualmente 528 000 novos casos. Em 2012 ocorreram 266 000 mortes relacionadas com este tipo carcinoma. Em Portugal, a taxa de incidência e mortalidade é relativamente alta, sendo a incidência de 10,8 e a mortalidade de 4,9 (taxas por 100.000 indivíduos por ano). Existem vários tipos histológicos de cancro do colo do útero, no entanto, os dois tipos mais comuns são os adenocarcinomas e os carcinomas pavimento-celulares, que compreendem 75-90 e 10-25% de todos os casos, respetivamente. O vírus do papiloma humano (HPV- human papillomavirus) é transmitido sexualmente e está bem estabelecido o seu papel como agente etiológico de vários tipos de cancro na área anogenital, incluindo o cancro de colo do útero. Aproximadamente 70% dos cancros do colo do útero estão diretamente associados aos sorotipos HPV16 e HPV18. Os genes E6 e E7 dos HPV de alto risco são oncogenes que desregulam o controlo do ciclo celular, podendo originar a transformação maligna das células. A matriz extracelular (ECM – extracellular matrix) é um componente chave do microambiente tumoral, sendo que nos últimos anos foi reconhecido o seu papel no processo carcinogénico. A ECM é composta por uma rede complexa de macromoléculas como colagénios, lamininas, fibronectinas e proteoglicanos. A sua principal função é o suporte tecidular, no entanto, também participa no controlo de eventos celulares como proliferação celular, adesão, migração, invasão e apoptose. As lamininas são glicoproteínas extracelulares de elevado peso molecular, sendo um dos principais componentes estruturais dos filamentos de ancoragem presentes nas membranas basais (BM - basement membrane). Todas as lamininas são proteínas heterotriméricas, que contêm três cadeias, denominadas α, β e . Atualmente estão descritas 16 lamininas com diferentes propriedades que resultam da conjugação das diferentes subunidades. A sua expressão é altamente regulada durante o desenvolvimento e a sua distribuição é tecido-específica. A laminina-332 (anteriormente denominada laminina 5) é um subtipo de laminina específica das BM dos epitélios, sendo a sua forma trimérica constituída pelas cadeias α3, β3 e 2. Nos tecidos normais, a laminina-332 interage com as integrinas 31, 61 e 64. Esta interceção é muito importante na adesão celular e por essa razão também está envolvida na migração e a invasão celular. Atualmente, a importância da laminina-332 é um assunto de destaque em diversas revisões bibliográficas, onde foram descritas novas funções estruturais e reguladoras desta macromolécula em vários carcinomas. Os tumores epiteliais (carcinomas) muitas vezes secretam grandes quantidades de laminina-332 e frequentemente expressam o seu ligando, a integrina 64. O aumento da expressão da laminina-332 tem sido observado em vários tipos de cancro, tendo sido considerado um fator de mau prognóstico. Foi também relacionado com a capacidade invasiva de vários tumores, como o carcinoma do colo do útero. De facto, sabe-se que a laminina-332 pode ativar vias de sinalização, uma vez que, níveis elevados desta proteína podem estimular a ativação da proteína cinase ativada por mitogénio (MAPK -mitogen activated protein kinases) e da fosfatidilinositol 3-cinase (PI3K –phosphatidylinositide 3-kinase), levando assim a um aumento da capacidade proliferativa e invasiva das células e à estimulação do crescimento tumoral. A laminina γ2 humana (LAMC2) é produto da expressão do gene LAMC2 e, como as outras cadeias, possui duas variantes transcricionais, resultantes do splicing alternativo do exão terminal 3'. No entanto, esta é a cadeia que confere especificidade ao trímero da laminin-332. Vários estudos mostraram o aumento da expressão da LAMC2 em cancros humanos, incluindo adenocarcinomas de estômago, pâncreas, tiroide, língua, colo-retal, pulmão, colo do útero, esófago, cabeça e pescoço, pele e pulmão. Observou-se que a acumulação citoplasmática da LAMC2 ocorre frequentemente na frente invasiva dos tumores e está associada a uma diminuição da sobrevivência dos doentes, à recidiva e formação de metástases. Relativamente ao cancro do colo do útero, alguns estudos mostraram que existe uma elevada expressão da cadeia LAMC2 em lesões microinvasivas e invasivas. Apesar da expressão da cadeia LAMC2 ter sido descrita em adenocarcinoma e em carcinomas pavimento-celulares do colo do útero, a sua acumulação ocorre predominantemente nos carcinomas pavimento-celulares. A formação e remodelação da ECM são ativamente reguladas por proteólise, que contribui para a homeostase dos tecidos. Contudo, no contexto tumoral, podem ocorrer desequilíbrios na proteólise, levando assim, a um crescimento tumoral desregulado, remodelação do tecido, inflamação, invasão e metastização. As MMPs (matrix metalloproteinases) são a família de protéases mais relevante associada à carcinogénese. Estas enzimas estão descritas como moduladoras do microambiente tumoral, uma vez que tem um papel crucial na regulação da matriz extracelular e na regulação de vias de sinalização relevantes para a progressão tumoral. As gelatinases MMP2 e MMP9 são as MMPs mais proeminentemente envolvidas na degradação da BM e, consequentemente, estão envolvidas no desenvolvimento tumoral e na formação de metástases. A hidrólise da cadeia γ2 por MMPs parece estar relacionada com o aumento da migração e invasão celular em carcinomas, uma vez que o processamento da cadeia LAMC2 afeta a dinâmica da adesão celular. A hidrólise da cadeia LAMC2 tem sido associada à atividade da MMP2 em cancros da mama e do colo do útero. O fator de crescimento epidérmico (EGF-epidermal growth factor) compreende onze polipéptidos, que compartilham um domínio EGF conservado, sendo esta uma das famílias de fatores de crescimento mais relevantes na progressão tumoral. Os vários ligandos podem ser produzidos quer por células cancerígenas quer por células do estroma, e a sua ligação a recetores de cinase de tirosina, conhecidos como recetores do EGF (EGFRs), estimulam vias de sinalização intracelulares específicas. A ativação dos recetores cinase tirosina culminam na ativação as cascatas enzimáticas envolvidas no crescimento e na sobrevivência das células, sendo que as vias MAPK e PI3K são as mais ativadas. Em cancro, a maioria das mutações que afetam o EGFR são mutações nonsense que promovem a sua ativação constitutiva, tornando a sua ativação independente da presença do ligando-EGF. Contudo, os recetores EGFR e HER2 estão frequentemente sobre-expressos, podendo funcionar como oncogenes. No cancro do colo do útero, o EGFR parece ser o recetor do EGF mais relevante. O domínio III da laminina γ2 apresenta segmentos EGF-like, que podem interagir com os recetores de EGF, nomeadamente o EGFR, levado assim à ativação das cinases da via das MAPK. O principal objetivo deste trabalho foi esclarecer o papel da LAMC2 de laminina-332 na progressão mediada por EGF de carcinomas do colo uterino, utilizando modelos in vitro de carcinoma pavimento-celular (SiHa) e adenocarcinoma (HeLa). Para atingir este objetivo foram delineados 5 objetivos específicos no sentido de verificar: i) o efeito do EGF no ciclo celular e na proliferação; (ii) a relevância da estimulação pelo EGF na expressão da LAMA3, LAMB3, LAMC2, LAMC1 e da LAMC3; (iii) a importância da LAMC2 no efeito do EGF no ciclo celular, proliferação e migração/invasão; (iv) o efeito do knockdown da LAMC2 na expressão da LAMC1 e da LAMC3, e (v) os fatores de transcrição envolvidos na regulação da expressão da LAMC2 e da LAMC1, dependente de EGF. Para a primeira abordagem, foram usadas bases de dados com amostras de doentes, que confirmaram, como já tinha sido descrito por outros autores, que a LAMC2 é sobre-expressa em vários tipos de cancro, incluindo o cancro do colo do útero. De forma a validar o efeito do EGF nos modelos in vitro, foram feitos ensaios de ciclo celular. Estes resultados mostraram que ambas as linhas celulares são responsivas ao EGF, uma vez que proliferam mais após o estímulo. Além disso, os nossos resultados mostraram ainda que a estimulação com EGF resulta num encurtamento da duração da primeira fase do ciclo celular, G0/G1, levando ao aumento do número de células nas fases S+G2/M. Este facto é acompanhado pelo aumento concomitante dos níveis da ciclina D1. Verificou-se ainda, que o EGF também regula a expressão de LAMC2 nas duas linhas celulares (SiHa-carcinoma pavimento-celular e HeLa-adenocarcinoma). Os ensaios de imunoprecipitação da cromatina, deram-nos bons indícios de que o FOXM1 (em SiHa) e o STAT3 (em HeLa) são fundamentais na regulação de LAMC2 pelo EGF. De forma a compreender melhor o papel da LAMC2 no cancro do colo do útero, a expressão da LAMC2 foi silenciada com shRNA. Os ensaios de proliferação após o knockdown da LAMC2 mostraram que o EGF estimula a proliferação independentemente da LAMC2 nas células SiHa, mas curiosamente nas células HeLa, o efeito proliferativo do EGF é mais eficiente na ausência de LAMC2. Além disso, o silenciamento LAMC2 suprime a capacidade migratória e invasiva das células SiHa, mas não parece afetar a migração das células HeLa. Relativamente à atividade das MMPs, ambas MMP2 e 9 são reguladas pelo EGF e os níveis de atividade de MMP9 estão relacionados com os níveis de LAMC2, em ambas as linhas celulares. A atividade da MMP2 também é afetada pelos níveis da LAMC2, contudo, é afetada de forma oposta comparando ambas as linhas celulares. Nas células SiHa, o knockdown da LAMC2 diminui a atividade de MMP2, enquanto que nas células HeLa a atividade desta enzima é aumentada. Assim, parece que o fenótipo maligno dos carcinomas pavimento-celulares é mais depende da expressão da LAMC2 do que os adenocarcinomas. Além disso, o knockdown da LAMC2 resultou no aumento da transcrição da LAMC1 nas células SiHa. Em condições controlo, o mesmo resultado foi observado para a LAMC3, contudo, este efeito desaparecia após o estímulo com EGF. Portanto, devia às alterações mais significativas ocorrerem na regulação da LAMC1 esta foi a cadeia que apresentou mais interesse ao nível da carcinogénese. No entanto, nas linhas celulares wild type (WT) sob a influência de EGF os níveis da LAMC1 apenas aumentaram nas células HeLa. Isto sugere que esta cadeia pode desempenhar um papel no fenótipo maligno moderado em adenocarcinoma (perfil de baixa invasão) em microambientes ricos em EGF. Novamente, o EGF também desempenha um papel na expressão de LAMC1 em ambas as linhas celulares, que parece estar associado aos fatores de transcrição FOXM1 e STAT3. O real significado desta regulação há que ser estudado mais em pormenor. De forma a tentar entender o papel da LAMC1 em contexto tumoral analisámos as mesmas bases de dados. Observámos, contudo, que a associação entre a expressão de LAMC1 e cancro do colo do útero é muito controversa. Assim, esta tese fornece informações relevantes sobre o papel da dinâmica regulatória da expressão da cadeia LAMC2 pelo EGF, podendo explicar o fenótipo mais agressivo do carcinoma pavimento-celular do cancro do colo do útero. Além disso, também sugere que a expressão da LAMC1 pode ser um elemento chave na progressão do cancro do colo do útero. Portanto, novas perspetivas de investigação podem ser delineadas a partir dos nossos resultados, de forma a compreendermos melhor os mecanismos moleculares subjacentes às várias formas de progressão inerentes aos diferentes tipos histológicos do cancro.
Autores principais:Ramos, Cristiano Manuel Colaço
Assunto:Cancro do colo do útero Microambiente tumoral Fator de crescimento epidérmico (EGF) Laminina y2 (LAMC2) Proliferação e migração/invasão tumoral Teses de mestrado - 2017
Ano:2017
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:inglês
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A carcinogénese é um processo complexo e gradual de transformação pelo qual as células normais originam células com potencial neoplásico. Durante este processo, as células cancerígenas adquirem características de malignidade, que resultam da acumulação de várias mutações genéticas e alterações epigenéticas, levando assim, à ativação de oncogenes e inativação de genes supressores de tumores. Essas caraterísticas são designadas de hallmarks do cancro, sendo que as principais são: autossuficiência em relação aos sinais de crescimento, insensibilidade aos sinais de anti-crescimento, resistência à apoptose, elevado potencial replicativo, aumento do potencial angiogénico, evasão ao controlo imunitário, reprogramação metabólica e capacidade de invasão tecidular e metastização. O microambiente que envolve células cancerígenas também atua neste processo como uma rede funcional, que inclui células normais, fatores mediadores e componentes da matriz extracelular. O carcinoma do colo útero é o quarto tipo de cancro mais comum em mulheres em todo o mundo, sendo diagnosticados anualmente 528 000 novos casos. Em 2012 ocorreram 266 000 mortes relacionadas com este tipo carcinoma. Em Portugal, a taxa de incidência e mortalidade é relativamente alta, sendo a incidência de 10,8 e a mortalidade de 4,9 (taxas por 100.000 indivíduos por ano). Existem vários tipos histológicos de cancro do colo do útero, no entanto, os dois tipos mais comuns são os adenocarcinomas e os carcinomas pavimento-celulares, que compreendem 75-90 e 10-25% de todos os casos, respetivamente. O vírus do papiloma humano (HPV- human papillomavirus) é transmitido sexualmente e está bem estabelecido o seu papel como agente etiológico de vários tipos de cancro na área anogenital, incluindo o cancro de colo do útero. Aproximadamente 70% dos cancros do colo do útero estão diretamente associados aos sorotipos HPV16 e HPV18. Os genes E6 e E7 dos HPV de alto risco são oncogenes que desregulam o controlo do ciclo celular, podendo originar a transformação maligna das células. A matriz extracelular (ECM – extracellular matrix) é um componente chave do microambiente tumoral, sendo que nos últimos anos foi reconhecido o seu papel no processo carcinogénico. A ECM é composta por uma rede complexa de macromoléculas como colagénios, lamininas, fibronectinas e proteoglicanos. A sua principal função é o suporte tecidular, no entanto, também participa no controlo de eventos celulares como proliferação celular, adesão, migração, invasão e apoptose. As lamininas são glicoproteínas extracelulares de elevado peso molecular, sendo um dos principais componentes estruturais dos filamentos de ancoragem presentes nas membranas basais (BM - basement membrane). Todas as lamininas são proteínas heterotriméricas, que contêm três cadeias, denominadas α, β e . Atualmente estão descritas 16 lamininas com diferentes propriedades que resultam da conjugação das diferentes subunidades. A sua expressão é altamente regulada durante o desenvolvimento e a sua distribuição é tecido-específica. A laminina-332 (anteriormente denominada laminina 5) é um subtipo de laminina específica das BM dos epitélios, sendo a sua forma trimérica constituída pelas cadeias α3, β3 e 2. Nos tecidos normais, a laminina-332 interage com as integrinas 31, 61 e 64. Esta interceção é muito importante na adesão celular e por essa razão também está envolvida na migração e a invasão celular. Atualmente, a importância da laminina-332 é um assunto de destaque em diversas revisões bibliográficas, onde foram descritas novas funções estruturais e reguladoras desta macromolécula em vários carcinomas. Os tumores epiteliais (carcinomas) muitas vezes secretam grandes quantidades de laminina-332 e frequentemente expressam o seu ligando, a integrina 64. O aumento da expressão da laminina-332 tem sido observado em vários tipos de cancro, tendo sido considerado um fator de mau prognóstico. Foi também relacionado com a capacidade invasiva de vários tumores, como o carcinoma do colo do útero. De facto, sabe-se que a laminina-332 pode ativar vias de sinalização, uma vez que, níveis elevados desta proteína podem estimular a ativação da proteína cinase ativada por mitogénio (MAPK -mitogen activated protein kinases) e da fosfatidilinositol 3-cinase (PI3K –phosphatidylinositide 3-kinase), levando assim a um aumento da capacidade proliferativa e invasiva das células e à estimulação do crescimento tumoral. A laminina γ2 humana (LAMC2) é produto da expressão do gene LAMC2 e, como as outras cadeias, possui duas variantes transcricionais, resultantes do splicing alternativo do exão terminal 3'. No entanto, esta é a cadeia que confere especificidade ao trímero da laminin-332. Vários estudos mostraram o aumento da expressão da LAMC2 em cancros humanos, incluindo adenocarcinomas de estômago, pâncreas, tiroide, língua, colo-retal, pulmão, colo do útero, esófago, cabeça e pescoço, pele e pulmão. Observou-se que a acumulação citoplasmática da LAMC2 ocorre frequentemente na frente invasiva dos tumores e está associada a uma diminuição da sobrevivência dos doentes, à recidiva e formação de metástases. Relativamente ao cancro do colo do útero, alguns estudos mostraram que existe uma elevada expressão da cadeia LAMC2 em lesões microinvasivas e invasivas. Apesar da expressão da cadeia LAMC2 ter sido descrita em adenocarcinoma e em carcinomas pavimento-celulares do colo do útero, a sua acumulação ocorre predominantemente nos carcinomas pavimento-celulares. A formação e remodelação da ECM são ativamente reguladas por proteólise, que contribui para a homeostase dos tecidos. Contudo, no contexto tumoral, podem ocorrer desequilíbrios na proteólise, levando assim, a um crescimento tumoral desregulado, remodelação do tecido, inflamação, invasão e metastização. As MMPs (matrix metalloproteinases) são a família de protéases mais relevante associada à carcinogénese. Estas enzimas estão descritas como moduladoras do microambiente tumoral, uma vez que tem um papel crucial na regulação da matriz extracelular e na regulação de vias de sinalização relevantes para a progressão tumoral. As gelatinases MMP2 e MMP9 são as MMPs mais proeminentemente envolvidas na degradação da BM e, consequentemente, estão envolvidas no desenvolvimento tumoral e na formação de metástases. A hidrólise da cadeia γ2 por MMPs parece estar relacionada com o aumento da migração e invasão celular em carcinomas, uma vez que o processamento da cadeia LAMC2 afeta a dinâmica da adesão celular. A hidrólise da cadeia LAMC2 tem sido associada à atividade da MMP2 em cancros da mama e do colo do útero. O fator de crescimento epidérmico (EGF-epidermal growth factor) compreende onze polipéptidos, que compartilham um domínio EGF conservado, sendo esta uma das famílias de fatores de crescimento mais relevantes na progressão tumoral. Os vários ligandos podem ser produzidos quer por células cancerígenas quer por células do estroma, e a sua ligação a recetores de cinase de tirosina, conhecidos como recetores do EGF (EGFRs), estimulam vias de sinalização intracelulares específicas. A ativação dos recetores cinase tirosina culminam na ativação as cascatas enzimáticas envolvidas no crescimento e na sobrevivência das células, sendo que as vias MAPK e PI3K são as mais ativadas. Em cancro, a maioria das mutações que afetam o EGFR são mutações nonsense que promovem a sua ativação constitutiva, tornando a sua ativação independente da presença do ligando-EGF. Contudo, os recetores EGFR e HER2 estão frequentemente sobre-expressos, podendo funcionar como oncogenes. No cancro do colo do útero, o EGFR parece ser o recetor do EGF mais relevante. O domínio III da laminina γ2 apresenta segmentos EGF-like, que podem interagir com os recetores de EGF, nomeadamente o EGFR, levado assim à ativação das cinases da via das MAPK. O principal objetivo deste trabalho foi esclarecer o papel da LAMC2 de laminina-332 na progressão mediada por EGF de carcinomas do colo uterino, utilizando modelos in vitro de carcinoma pavimento-celular (SiHa) e adenocarcinoma (HeLa). Para atingir este objetivo foram delineados 5 objetivos específicos no sentido de verificar: i) o efeito do EGF no ciclo celular e na proliferação; (ii) a relevância da estimulação pelo EGF na expressão da LAMA3, LAMB3, LAMC2, LAMC1 e da LAMC3; (iii) a importância da LAMC2 no efeito do EGF no ciclo celular, proliferação e migração/invasão; (iv) o efeito do knockdown da LAMC2 na expressão da LAMC1 e da LAMC3, e (v) os fatores de transcrição envolvidos na regulação da expressão da LAMC2 e da LAMC1, dependente de EGF. Para a primeira abordagem, foram usadas bases de dados com amostras de doentes, que confirmaram, como já tinha sido descrito por outros autores, que a LAMC2 é sobre-expressa em vários tipos de cancro, incluindo o cancro do colo do útero. De forma a validar o efeito do EGF nos modelos in vitro, foram feitos ensaios de ciclo celular. Estes resultados mostraram que ambas as linhas celulares são responsivas ao EGF, uma vez que proliferam mais após o estímulo. Além disso, os nossos resultados mostraram ainda que a estimulação com EGF resulta num encurtamento da duração da primeira fase do ciclo celular, G0/G1, levando ao aumento do número de células nas fases S+G2/M. Este facto é acompanhado pelo aumento concomitante dos níveis da ciclina D1. Verificou-se ainda, que o EGF também regula a expressão de LAMC2 nas duas linhas celulares (SiHa-carcinoma pavimento-celular e HeLa-adenocarcinoma). Os ensaios de imunoprecipitação da cromatina, deram-nos bons indícios de que o FOXM1 (em SiHa) e o STAT3 (em HeLa) são fundamentais na regulação de LAMC2 pelo EGF. De forma a compreender melhor o papel da LAMC2 no cancro do colo do útero, a expressão da LAMC2 foi silenciada com shRNA. Os ensaios de proliferação após o knockdown da LAMC2 mostraram que o EGF estimula a proliferação independentemente da LAMC2 nas células SiHa, mas curiosamente nas células HeLa, o efeito proliferativo do EGF é mais eficiente na ausência de LAMC2. Além disso, o silenciamento LAMC2 suprime a capacidade migratória e invasiva das células SiHa, mas não parece afetar a migração das células HeLa. Relativamente à atividade das MMPs, ambas MMP2 e 9 são reguladas pelo EGF e os níveis de atividade de MMP9 estão relacionados com os níveis de LAMC2, em ambas as linhas celulares. A atividade da MMP2 também é afetada pelos níveis da LAMC2, contudo, é afetada de forma oposta comparando ambas as linhas celulares. Nas células SiHa, o knockdown da LAMC2 diminui a atividade de MMP2, enquanto que nas células HeLa a atividade desta enzima é aumentada. Assim, parece que o fenótipo maligno dos carcinomas pavimento-celulares é mais depende da expressão da LAMC2 do que os adenocarcinomas. Além disso, o knockdown da LAMC2 resultou no aumento da transcrição da LAMC1 nas células SiHa. Em condições controlo, o mesmo resultado foi observado para a LAMC3, contudo, este efeito desaparecia após o estímulo com EGF. Portanto, devia às alterações mais significativas ocorrerem na regulação da LAMC1 esta foi a cadeia que apresentou mais interesse ao nível da carcinogénese. No entanto, nas linhas celulares wild type (WT) sob a influência de EGF os níveis da LAMC1 apenas aumentaram nas células HeLa. Isto sugere que esta cadeia pode desempenhar um papel no fenótipo maligno moderado em adenocarcinoma (perfil de baixa invasão) em microambientes ricos em EGF. Novamente, o EGF também desempenha um papel na expressão de LAMC1 em ambas as linhas celulares, que parece estar associado aos fatores de transcrição FOXM1 e STAT3. O real significado desta regulação há que ser estudado mais em pormenor. De forma a tentar entender o papel da LAMC1 em contexto tumoral analisámos as mesmas bases de dados. Observámos, contudo, que a associação entre a expressão de LAMC1 e cancro do colo do útero é muito controversa. Assim, esta tese fornece informações relevantes sobre o papel da dinâmica regulatória da expressão da cadeia LAMC2 pelo EGF, podendo explicar o fenótipo mais agressivo do carcinoma pavimento-celular do cancro do colo do útero. Além disso, também sugere que a expressão da LAMC1 pode ser um elemento chave na progressão do cancro do colo do útero. Portanto, novas perspetivas de investigação podem ser delineadas a partir dos nossos resultados, de forma a compreendermos melhor os mecanismos moleculares subjacentes às várias formas de progressão inerentes aos diferentes tipos histológicos do cancro.