Publicação
Long live the queen : biological and contemporary cultural fears in the Alien Quadrilogy
| Resumo: | Esta dissertação tem como objectivo principal a identificação dos medos biológicos e culturais que estão representados na Quadrilogia Alien através da análise de cada filme que a integra: Alien (1979), Aliens (1986), Alien3 (1992) e Alien: Resurrection (1997). Com este propósito foi necessário estabelecer uma base teórica sobre os conceitos necessários para a análise dos filmes. Começou por ser feita uma análise sobre o conceito de monstro. Delineando numa primeira parte a questão da atracção por parte dos seres humanos por vivenciar o medo enquanto emoção, e explorando brevemente a noção de Unheimlichen de Freud, segue-se uma análise da concepção medieval do monstro por Santo Isidoro de Sevilha que criou uma taxonomia para identificar os mesmos e as suas inúmeras variações. Procede-se, então, a uma análise sobre como os monstros, sendo seres corporalmente transgressivos e disformes, permitem, por comparação, que os seres humanos melhor se definam a eles próprios. Foi também explorado o conceito de “Monstrous Feminine”, criado por Barbara Creed a partir das teorias de abjecção de Julia Kristeva, e que explora os tipos de monstros femininos representados nos filmes – uma ideia central para a análise da personagem da Rainha Alien no filme Aliens e de Ripley 8 em Alien: Resurrection. Seguiu-se uma breve análise sobre o filme de terror, começando por delinear os seus primórdios, o que constitui o género de terror, e o que atrai as audiências para este género de filme. Sendo necessário confirmar se os medos culturais estão, efectivamente, representados nos filmes de terror ao longo da sua história. foi feita uma análise de alguns dos filmes de terror de maior sucesso desde a década de 1920 até à década de 2020. Os resultados foram reveladores, já que este padrão de representação de medos culturais foi comprovado em todos os filmes analisados. Tendo estabelecido que os filmes de terror têm, desde os seus primórdios, reflectido as ansiedades culturais das suas audiências, este trabalho procede com a análise de cada filme da Quadrilogia Alien deste ponto de vista, identificando as ansiedades e medos biológicos e culturais que estes filmes representam. Como muitos filmes de terror de sucesso, os filmes da Quadrilogia Alien não dependem apenas dos medos culturais da sua época para assustar o público, os medos biológicos estão também presentes ao longo de toda a série. Em primeiro lugar o medo da morte é evidente nestes filmes, mas o medo de uma maternidade corrupta e profana segue-o de perto e intrinsecamente. O ciclo de vida do Alien depende da violação oral e não discrimina por sexo ao fazê-lo. A partir desta violação as vítimas tornam-se as mães do monstro, independentemente do seu género, e o Alien emerge dos seus peitos num espectáculo sangrento que provoca a morte da vítima. Este medo de uma gravidez parasítica, na verdade, supera o medo da morte na Quadrilogia, pois as personagens mostram uma enorme determinação em pôr fim à própria vida antes de sucumbir a tal destino. As ansiedades reprodutivas são o cerne dos filmes Alien e são abordadas não apenas através do ciclo de vida do Alien, mas também através das suas características físicas: o ovo assemelha-se a um útero putrefacto e a sua abertura é claramente vulvar, o Facehugger combina uma aparência vaginal com um apêndice semelhante a um pénis que usa para violar oralmente e engravidar as suas vítimas, o Chestburster é distintamente evocativo dos genitais masculinos, assim como o é o Alien adulto com a sua cabeça fálica. No que toca aos medos e ansiedades culturais, o primeiro filme da Quadrilogia, Alien (1979) aborda abertamente dois medos culturais: a ameaça que o capitalismo desenfreado coloca à sobrevivência humana e a perda da autonomia corporal, claramente inspirada pelo Movimento Feminista. O horror do capitalismo desenfreado é representado pela Companhia Weyland-Yutani, uma megacorporação que ao longo de toda a Quadrilogia sempre considerou o capital como mais importante do que as próprias vidas dos seus funcionários. À medida que o Movimento Feminista foi trazendo à liça o quão fulcral é a necessidade de uma mulher ter controlo sobre o seu próprio corpo, a gravidez foi-se tornando cada vez mais medicalizada, e as mulheres começaram a ser vistas cada vez mais como meros recipientes para o protagonista da gravidez: o feto. O feto hostil da Quadrilogia Alien é uma criatura tão ameaçadora quanto o Alien adulto e a sua natureza parasítica e mortífera reflecte a ansiedade cultural que o público sentia em relação aos direitos reprodutivos. Em Aliens (1986), o segundo filme da Quadrilogia, as duas principais ansiedades culturais que se revelaram na análise foram a tentativa de uma interpretação positiva do conservadorismo da época e a forma como a nação tentou processar as consequências do pós-guerra do Vietname. Com a eleição de Reagan e numa época em que os valores conservadores eram extremamente vigentes, Cameron retratou Ripley como uma mãe que escolheu a sua carreira em vez da sua maternidade e que, por ir contra as convenções tradicionais, foi severamente punida ao perder tanto a sua filha como a sua carreira. Weyland-Yutani, até agora a vilã, é absolvida de culpa neste filme, sendo Burke, um yuppie ganancioso, o novo vilão, encarnando este os inegáveis aspectos nefastos do capitalismo que mesmo um conservador como Cameron não conseguiu interpretar positivamente. Sob uma análise atenta, Aliens também se revela como sendo um filme inspirado pela guerra do Vietname. Ripley tem todas as características de um veterano traumatizado pela guerra, e as interacções e diálogos entre os fuzileiros foram inspirados naqueles de veteranos reais. Os fuzileiros também surgem como um grupo explorado, atirado para um conflito para o qual não estavam apropriadamente treinados ou equipados, lutando contra um inimigo que conhecia o terreno e lutava com tácticas de guerrilha, tal como os vietcongues. Alien3, o terceiro filme da Quadrilogia, revelou ser um filme fortemente influenciado por temas cristãos apocalípticos. O cristianismo, particularmente o protestantismo, é um componente central da cultura americana, estando estes temas profundamente embutidos na consciência colectiva do público americano. Desde o culto fundamentalista apocalíptico cristão que os presos seguem, até à chegada de Ripley como portadora da sua destruição, à constante referência ao Alien como “a Besta”, o Livro do Apocalipse exerce uma influência marcante ao longo de todo o filme. E no que deve ter parecido para o público da época como um presságio do fim dos tempos, a epidemia da SIDA estava no seu auge na altura em que Alien3 foi filmado. E esta mostrou os seus sinais nas mortes insensatas de Hicks e Newt, no isolamento dos prisioneiros exilados da sociedade, na gravidez de Ripley que equivalia a uma infecção mortal, e na exortação de Dillon para os prisioneiros lutarem contra o Alien. Na análise de Alien: Resurrection, o quarto filme da Quadrilogia, dois medos culturais saltaram à tona: a clonagem humana e a possível criação de uma inteligência artificial. Com a clonagem da ovelha Dolly e a conclusão do Projecto do Genoma Humano, as ansiedades referentes à clonagem humana estavam bem presentes na mente do público. Alien: Resurrection leva essas ansiedades ainda mais além, pois Ripley 8 é um clone monstruoso – uma mistura de humana e Alien. Os avanços tecnológicos do final da década de 1990 também despertaram o temor da criação de uma inteligência artificial. A ascensão das máquinas não era um tema novo no terror, com filmes de sucesso como a série do Exterminador Implacável tendo já explorado o conceito até à sua terrível conclusão. Call representa este novo tipo de vida hipotético e, por meio dela, o filme analisa questões como o que torna alguém humano e que direitos devem ser concedidos a um andróide. Através deste trabalho será comprovado que os filmes de terror possuem uma notável capacidade de mutação para continuamente se reconectararem com o seu público e, como tal, cada filme de terror pode ser analisado como uma representação de um momento cultural. Os filmes da Quadrilogia Alien alcançam um equilíbrio entre os medos biológicos e culturais da sua época, levando ao seu sucesso e subsequente passagem para a cultura popular. Os filmes da Quadrilogia Alien são um terreno fértil a partir do qual se pode examinar a cultura à qual reagiram: os seus medos, as suas ansiedades e até as suas aspirações, podendo ser vistos também como um importante espaço cultural no qual o público teve a oportunidade de processar esses mesmos medos e ansiedades e finalmente aceitá-los. |
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| Autores principais: | Vidigal, Isa Lavínia Arôcha |
| Assunto: | Alien - (Filme) Filmes de ficção científica - Temas, motivos Filmes de terror - Temas, motivos Medo - No cinema Monstros - No cinema Monstros - Na televisão Teses de mestrado - 2023 |
| Ano: | 2023 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | inglês |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Esta dissertação tem como objectivo principal a identificação dos medos biológicos e culturais que estão representados na Quadrilogia Alien através da análise de cada filme que a integra: Alien (1979), Aliens (1986), Alien3 (1992) e Alien: Resurrection (1997). Com este propósito foi necessário estabelecer uma base teórica sobre os conceitos necessários para a análise dos filmes. Começou por ser feita uma análise sobre o conceito de monstro. Delineando numa primeira parte a questão da atracção por parte dos seres humanos por vivenciar o medo enquanto emoção, e explorando brevemente a noção de Unheimlichen de Freud, segue-se uma análise da concepção medieval do monstro por Santo Isidoro de Sevilha que criou uma taxonomia para identificar os mesmos e as suas inúmeras variações. Procede-se, então, a uma análise sobre como os monstros, sendo seres corporalmente transgressivos e disformes, permitem, por comparação, que os seres humanos melhor se definam a eles próprios. Foi também explorado o conceito de “Monstrous Feminine”, criado por Barbara Creed a partir das teorias de abjecção de Julia Kristeva, e que explora os tipos de monstros femininos representados nos filmes – uma ideia central para a análise da personagem da Rainha Alien no filme Aliens e de Ripley 8 em Alien: Resurrection. Seguiu-se uma breve análise sobre o filme de terror, começando por delinear os seus primórdios, o que constitui o género de terror, e o que atrai as audiências para este género de filme. Sendo necessário confirmar se os medos culturais estão, efectivamente, representados nos filmes de terror ao longo da sua história. foi feita uma análise de alguns dos filmes de terror de maior sucesso desde a década de 1920 até à década de 2020. Os resultados foram reveladores, já que este padrão de representação de medos culturais foi comprovado em todos os filmes analisados. Tendo estabelecido que os filmes de terror têm, desde os seus primórdios, reflectido as ansiedades culturais das suas audiências, este trabalho procede com a análise de cada filme da Quadrilogia Alien deste ponto de vista, identificando as ansiedades e medos biológicos e culturais que estes filmes representam. Como muitos filmes de terror de sucesso, os filmes da Quadrilogia Alien não dependem apenas dos medos culturais da sua época para assustar o público, os medos biológicos estão também presentes ao longo de toda a série. Em primeiro lugar o medo da morte é evidente nestes filmes, mas o medo de uma maternidade corrupta e profana segue-o de perto e intrinsecamente. O ciclo de vida do Alien depende da violação oral e não discrimina por sexo ao fazê-lo. A partir desta violação as vítimas tornam-se as mães do monstro, independentemente do seu género, e o Alien emerge dos seus peitos num espectáculo sangrento que provoca a morte da vítima. Este medo de uma gravidez parasítica, na verdade, supera o medo da morte na Quadrilogia, pois as personagens mostram uma enorme determinação em pôr fim à própria vida antes de sucumbir a tal destino. As ansiedades reprodutivas são o cerne dos filmes Alien e são abordadas não apenas através do ciclo de vida do Alien, mas também através das suas características físicas: o ovo assemelha-se a um útero putrefacto e a sua abertura é claramente vulvar, o Facehugger combina uma aparência vaginal com um apêndice semelhante a um pénis que usa para violar oralmente e engravidar as suas vítimas, o Chestburster é distintamente evocativo dos genitais masculinos, assim como o é o Alien adulto com a sua cabeça fálica. No que toca aos medos e ansiedades culturais, o primeiro filme da Quadrilogia, Alien (1979) aborda abertamente dois medos culturais: a ameaça que o capitalismo desenfreado coloca à sobrevivência humana e a perda da autonomia corporal, claramente inspirada pelo Movimento Feminista. O horror do capitalismo desenfreado é representado pela Companhia Weyland-Yutani, uma megacorporação que ao longo de toda a Quadrilogia sempre considerou o capital como mais importante do que as próprias vidas dos seus funcionários. À medida que o Movimento Feminista foi trazendo à liça o quão fulcral é a necessidade de uma mulher ter controlo sobre o seu próprio corpo, a gravidez foi-se tornando cada vez mais medicalizada, e as mulheres começaram a ser vistas cada vez mais como meros recipientes para o protagonista da gravidez: o feto. O feto hostil da Quadrilogia Alien é uma criatura tão ameaçadora quanto o Alien adulto e a sua natureza parasítica e mortífera reflecte a ansiedade cultural que o público sentia em relação aos direitos reprodutivos. Em Aliens (1986), o segundo filme da Quadrilogia, as duas principais ansiedades culturais que se revelaram na análise foram a tentativa de uma interpretação positiva do conservadorismo da época e a forma como a nação tentou processar as consequências do pós-guerra do Vietname. Com a eleição de Reagan e numa época em que os valores conservadores eram extremamente vigentes, Cameron retratou Ripley como uma mãe que escolheu a sua carreira em vez da sua maternidade e que, por ir contra as convenções tradicionais, foi severamente punida ao perder tanto a sua filha como a sua carreira. Weyland-Yutani, até agora a vilã, é absolvida de culpa neste filme, sendo Burke, um yuppie ganancioso, o novo vilão, encarnando este os inegáveis aspectos nefastos do capitalismo que mesmo um conservador como Cameron não conseguiu interpretar positivamente. Sob uma análise atenta, Aliens também se revela como sendo um filme inspirado pela guerra do Vietname. Ripley tem todas as características de um veterano traumatizado pela guerra, e as interacções e diálogos entre os fuzileiros foram inspirados naqueles de veteranos reais. Os fuzileiros também surgem como um grupo explorado, atirado para um conflito para o qual não estavam apropriadamente treinados ou equipados, lutando contra um inimigo que conhecia o terreno e lutava com tácticas de guerrilha, tal como os vietcongues. Alien3, o terceiro filme da Quadrilogia, revelou ser um filme fortemente influenciado por temas cristãos apocalípticos. O cristianismo, particularmente o protestantismo, é um componente central da cultura americana, estando estes temas profundamente embutidos na consciência colectiva do público americano. Desde o culto fundamentalista apocalíptico cristão que os presos seguem, até à chegada de Ripley como portadora da sua destruição, à constante referência ao Alien como “a Besta”, o Livro do Apocalipse exerce uma influência marcante ao longo de todo o filme. E no que deve ter parecido para o público da época como um presságio do fim dos tempos, a epidemia da SIDA estava no seu auge na altura em que Alien3 foi filmado. E esta mostrou os seus sinais nas mortes insensatas de Hicks e Newt, no isolamento dos prisioneiros exilados da sociedade, na gravidez de Ripley que equivalia a uma infecção mortal, e na exortação de Dillon para os prisioneiros lutarem contra o Alien. Na análise de Alien: Resurrection, o quarto filme da Quadrilogia, dois medos culturais saltaram à tona: a clonagem humana e a possível criação de uma inteligência artificial. Com a clonagem da ovelha Dolly e a conclusão do Projecto do Genoma Humano, as ansiedades referentes à clonagem humana estavam bem presentes na mente do público. Alien: Resurrection leva essas ansiedades ainda mais além, pois Ripley 8 é um clone monstruoso – uma mistura de humana e Alien. Os avanços tecnológicos do final da década de 1990 também despertaram o temor da criação de uma inteligência artificial. A ascensão das máquinas não era um tema novo no terror, com filmes de sucesso como a série do Exterminador Implacável tendo já explorado o conceito até à sua terrível conclusão. Call representa este novo tipo de vida hipotético e, por meio dela, o filme analisa questões como o que torna alguém humano e que direitos devem ser concedidos a um andróide. Através deste trabalho será comprovado que os filmes de terror possuem uma notável capacidade de mutação para continuamente se reconectararem com o seu público e, como tal, cada filme de terror pode ser analisado como uma representação de um momento cultural. Os filmes da Quadrilogia Alien alcançam um equilíbrio entre os medos biológicos e culturais da sua época, levando ao seu sucesso e subsequente passagem para a cultura popular. Os filmes da Quadrilogia Alien são um terreno fértil a partir do qual se pode examinar a cultura à qual reagiram: os seus medos, as suas ansiedades e até as suas aspirações, podendo ser vistos também como um importante espaço cultural no qual o público teve a oportunidade de processar esses mesmos medos e ansiedades e finalmente aceitá-los. |
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