Publicação
Malnutrição e sintomatologia depressiva em idosos residentes em lares portugueses
| Resumo: | Introdução: A população portuguesa está envelhecida. Sabe-se que nestas idades, os indivíduos são mais suscetíveis, e vulneráveis a estados de estados de malnutrição (desnutrição e excesso de peso), e a sintomas depressivos. Estas condições de saúde são evitáveis, mas estão associadas a complicações de doenças preexistentes e ao aumento de mortalidade evitável. Apostar na prevenção, nomeadamente nos idosos que residem em lares, para além de melhorar a sua qualidade de vida, reduz os gastos em saúde. Para tal, importa caracterizar a prevalência destas condições de saúde bem como a forma como as mesmas se associam. Objetivo geral: Caracterizar a associação entre malnutrição e sintomatologia depressiva em pessoas com 65 ou mais anos de idade, residentes em lares portugueses. Material e Métodos: Inserido no Projeto PEN-3S (Portuguese Elderly Nutritional Status Surveillance System), o projeto de investigação desta dissertação segue um desenho observacional, transversal e analítico. A população em estudo consiste em idosos com 65 ou mais anos de idade a residir em lares portugueses. Foi feita uma amostragem polietápica, por clusters amostrais estratificadas por área geográfica (incluindo as sete regiões NUTS II de Portugal). Os clusters amostrais são constituídos por lares de idosos registados no Instituto de Segurança Social. Em cada lar, foram inquiridos todos os idosos que correspondessem aos critérios de inclusão (principais: mais de 64 anos, residentes no lar e dominar a língua portuguesa) e exclusão (principais: idosos acamados, hospitalizados e com capacidade cognitiva comprometida) e que aceitassem participar de forma voluntária. A recolha dos dados esteve a cargo de uma equipa de entrevistadores que recolheram informações relativas às variáveis em estudo para a dissertação (questionário estruturado, administrado face-a-face): informação sociodemográfica, medições antropométricas, sintomas de depressão (Geriatric Depression Scale, GDS-15) e estado nutricional (Mini Nutritional Assessment® - MNA®). Os dados foram ponderados em função dos tamanhos amostrais por região, de forma a otimizar a representatividade da amostra relativamente à população de idosos residentes em lares. Foi adotado o procedimento do Complex Sample Analysis (IBM-SPSS®) para correção do design effect. Para o estudo de associações entre variáveis nominais, utilizou-se o teste de independência do Qui-Quadrado, com estimação do effect size através do coeficiente de Cramer’s V. Para o estudo das correlações, utilizaram-se os coeficientes de Pearson ou Spearman (em função da normalidade das distribuições). Recorreu-se a modelos de regressão logística para estudar o efeito moderador das variáveis “sexo” e “idade” na associação entre malnutrição e sintomatologia depressiva. Resultados: Foi recolhida informação relativa a 1186 idosos. Contudo, 605 idosos foram considerados não elegíveis por apresentarem comprometimento da função cognitiva (avaliada através do Mini Mental State Examination - MMSE). Os 581 idosos considerados como amostra elegível distribuem-se pelos 77 lares que aceitaram participar no estudo. Do total desta amostra elegível, verificou-se que 33,9% estavam sobre risco de desnutrição ou desnutridos e 72,0% dos idosos tinham excesso de peso (pré-obesidade e obesidade). Mais de metade da amostra elegível, 52,8%, apresentou sintomatologia depressiva clinicamente relevante. A prevalência de sintomatologia depressiva clinicamente relevante foi superior entre indivíduos em risco de desnutrição (75,6%) ou desnutridos (79,3%). Nos idosos com sintomatologia depressiva clinicamente relevante, 48,7% estavam sob risco de desnutrição ou desnutridos. Não foi encontrada associação significativa entre estados de excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade) e sintomatologia depressiva clinicamente relevante. Verificou-se que ter sintomatologia depressiva clinicamente relevante está significativamente associado a estados de desnutrição ou a estados de risco de desnutrição (OR: 4,033 [IC95%: 2,572-6,323]). Já as condições associadas a maior risco de ter sintomatologia depressiva são estar desnutrido ou em risco de desnutrição (OR: 4,018 [IC95%: 2,563- 6,300]) e ser mulher (OR: 2,207; [IC95%: 1,387-3,521]). Discussão de resultados: Trata-se de um estudo pioneiro a nível nacional, envolvendo uma amostra representativa de idosos a residir em lares portugueses, pelo que, até à data, não existem dados que possam ser diretamente comparados com os resultados aqui apresentados. Os dados relativos à prevalência de desnutrição e risco de desnutrição foram mais baixos do que os encontrados em estudos feitos noutros países. Este facto resultará em muito de diferenças metodológicas bem como dos critérios de seleção da amostra. A opção de não considerar, no presente estudo, idosos acamados, garantindo maior qualidade dos dados obtidos (nomeadamente, dados antropométricos) torna complicada a comparação dos dados provenientes de outros estudos. Relativamente à presença de sintomatologia depressiva clinicamente relevante, os valores encontrados na amostra em estudo vão de encontro aos resultados apresentados noutros trabalhos. Alguns estudos realizados a nível internacional concluíram existir uma associação estatisticamente significativa entre o estado nutricional (MNA®) e sintomas de depressão avaliados através da GDS, corroborando os resultados da amostra aqui estudada. Existem trabalhos que mostram associação entre o índice de massa corporal (IMC) e sintomatologia depressiva clinicamente relevante, enquanto que noutros essa associação não foi corroborada, tal como no caso da nossa amostra. Conclusões: Os problemas de malnutrição e a presença de sintomatologia depressiva clinicamente relevante são, cada vez mais, prevalentes entre a população mais envelhecida. Ambas as situações são passíveis de serem evitadas, pelo que apostar em medidas de prevenção pode contribuir para uma melhoria da qualidade de vida do idoso. Torna-se imperativo que os lares incluam nos seus serviços equipas multidisciplinares que garantam um seguimento adequado do estado nutricional e de saúde mental dos idosos residentes. |
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| Autores principais: | Cunha, Luciana Maria Brandão Brito e |
| Assunto: | Desnutrição Excesso de peso Sintomatologia depressiva Idosos Lares Teses de mestrado - 2018 |
| Ano: | 2018 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Introdução: A população portuguesa está envelhecida. Sabe-se que nestas idades, os indivíduos são mais suscetíveis, e vulneráveis a estados de estados de malnutrição (desnutrição e excesso de peso), e a sintomas depressivos. Estas condições de saúde são evitáveis, mas estão associadas a complicações de doenças preexistentes e ao aumento de mortalidade evitável. Apostar na prevenção, nomeadamente nos idosos que residem em lares, para além de melhorar a sua qualidade de vida, reduz os gastos em saúde. Para tal, importa caracterizar a prevalência destas condições de saúde bem como a forma como as mesmas se associam. Objetivo geral: Caracterizar a associação entre malnutrição e sintomatologia depressiva em pessoas com 65 ou mais anos de idade, residentes em lares portugueses. Material e Métodos: Inserido no Projeto PEN-3S (Portuguese Elderly Nutritional Status Surveillance System), o projeto de investigação desta dissertação segue um desenho observacional, transversal e analítico. A população em estudo consiste em idosos com 65 ou mais anos de idade a residir em lares portugueses. Foi feita uma amostragem polietápica, por clusters amostrais estratificadas por área geográfica (incluindo as sete regiões NUTS II de Portugal). Os clusters amostrais são constituídos por lares de idosos registados no Instituto de Segurança Social. Em cada lar, foram inquiridos todos os idosos que correspondessem aos critérios de inclusão (principais: mais de 64 anos, residentes no lar e dominar a língua portuguesa) e exclusão (principais: idosos acamados, hospitalizados e com capacidade cognitiva comprometida) e que aceitassem participar de forma voluntária. A recolha dos dados esteve a cargo de uma equipa de entrevistadores que recolheram informações relativas às variáveis em estudo para a dissertação (questionário estruturado, administrado face-a-face): informação sociodemográfica, medições antropométricas, sintomas de depressão (Geriatric Depression Scale, GDS-15) e estado nutricional (Mini Nutritional Assessment® - MNA®). Os dados foram ponderados em função dos tamanhos amostrais por região, de forma a otimizar a representatividade da amostra relativamente à população de idosos residentes em lares. Foi adotado o procedimento do Complex Sample Analysis (IBM-SPSS®) para correção do design effect. Para o estudo de associações entre variáveis nominais, utilizou-se o teste de independência do Qui-Quadrado, com estimação do effect size através do coeficiente de Cramer’s V. Para o estudo das correlações, utilizaram-se os coeficientes de Pearson ou Spearman (em função da normalidade das distribuições). Recorreu-se a modelos de regressão logística para estudar o efeito moderador das variáveis “sexo” e “idade” na associação entre malnutrição e sintomatologia depressiva. Resultados: Foi recolhida informação relativa a 1186 idosos. Contudo, 605 idosos foram considerados não elegíveis por apresentarem comprometimento da função cognitiva (avaliada através do Mini Mental State Examination - MMSE). Os 581 idosos considerados como amostra elegível distribuem-se pelos 77 lares que aceitaram participar no estudo. Do total desta amostra elegível, verificou-se que 33,9% estavam sobre risco de desnutrição ou desnutridos e 72,0% dos idosos tinham excesso de peso (pré-obesidade e obesidade). Mais de metade da amostra elegível, 52,8%, apresentou sintomatologia depressiva clinicamente relevante. A prevalência de sintomatologia depressiva clinicamente relevante foi superior entre indivíduos em risco de desnutrição (75,6%) ou desnutridos (79,3%). Nos idosos com sintomatologia depressiva clinicamente relevante, 48,7% estavam sob risco de desnutrição ou desnutridos. Não foi encontrada associação significativa entre estados de excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade) e sintomatologia depressiva clinicamente relevante. Verificou-se que ter sintomatologia depressiva clinicamente relevante está significativamente associado a estados de desnutrição ou a estados de risco de desnutrição (OR: 4,033 [IC95%: 2,572-6,323]). Já as condições associadas a maior risco de ter sintomatologia depressiva são estar desnutrido ou em risco de desnutrição (OR: 4,018 [IC95%: 2,563- 6,300]) e ser mulher (OR: 2,207; [IC95%: 1,387-3,521]). Discussão de resultados: Trata-se de um estudo pioneiro a nível nacional, envolvendo uma amostra representativa de idosos a residir em lares portugueses, pelo que, até à data, não existem dados que possam ser diretamente comparados com os resultados aqui apresentados. Os dados relativos à prevalência de desnutrição e risco de desnutrição foram mais baixos do que os encontrados em estudos feitos noutros países. Este facto resultará em muito de diferenças metodológicas bem como dos critérios de seleção da amostra. A opção de não considerar, no presente estudo, idosos acamados, garantindo maior qualidade dos dados obtidos (nomeadamente, dados antropométricos) torna complicada a comparação dos dados provenientes de outros estudos. Relativamente à presença de sintomatologia depressiva clinicamente relevante, os valores encontrados na amostra em estudo vão de encontro aos resultados apresentados noutros trabalhos. Alguns estudos realizados a nível internacional concluíram existir uma associação estatisticamente significativa entre o estado nutricional (MNA®) e sintomas de depressão avaliados através da GDS, corroborando os resultados da amostra aqui estudada. Existem trabalhos que mostram associação entre o índice de massa corporal (IMC) e sintomatologia depressiva clinicamente relevante, enquanto que noutros essa associação não foi corroborada, tal como no caso da nossa amostra. Conclusões: Os problemas de malnutrição e a presença de sintomatologia depressiva clinicamente relevante são, cada vez mais, prevalentes entre a população mais envelhecida. Ambas as situações são passíveis de serem evitadas, pelo que apostar em medidas de prevenção pode contribuir para uma melhoria da qualidade de vida do idoso. Torna-se imperativo que os lares incluam nos seus serviços equipas multidisciplinares que garantam um seguimento adequado do estado nutricional e de saúde mental dos idosos residentes. |
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