Publicação
A profissão docente : ética e deontologia profissional : contributo para o estudo da deontologia dos professores do 2º e 3º ciclos do ensino básico
| Resumo: | Sou professora há vinte e um anos. Neste tempo houve momentos em que me interroguei profundamente e em que duvidei sinceramente do acerto de decisões que tomei. Dei comigo a reagir de forma diferente perante a mesma situação. Digo melhor: não reagi de forma diferente - tomei uma atitude idêntica. Com uma diferença: duma vez, nada me pesou na consciência. Soube e senti que os meus alunos apreciavam a forma como procedi, considerando que eu tinha sido justa. Da outra vez tive a sensação clara que eles acharam que eu tinha sido injusta. Eu mesma fiquei com essa dúvida a inquietar-me. Se calhar até diria antes que essa inquietação me expôs perante uma situação de dúvida. Porquê? Talvez valha a pena tentar descrever o que aconteceu. Estava definido como regra que a aula não devia ser interrompida pelo que, uma vez.começada, ninguém mais entrava. Os alunos deviam entrar todos na mesma ocasião. E, em geral, era isto que se verificava. Houve uma vez três rapazes (alunos que considerávamos indisciplinados) que ficaram a acabar o jogo da bola e chegaram à porta da aula depois desta já ter começado. Bateram à porta e junto das janelas faziam gestos pedindo para os deixar entrar. Não os deixei entrar e continuei a aula fazendo de conta que ninguém tinha batido à porta, que ninguém tinha pedido para entrar. Estou em crer que a turma achou bem. Isto porque não me apercebi de qualquer movimentação ou ruído do tipo daqueles que nós, professores, interpretamos como sendo de censura à nossa atitude e de apoio ou solidariedade para com os colegas. Passadas semanas, duas ou três semanas, quatro alunas, (boas alunas e bem comportadas) tinham aproveitado o intervalo que antecedeu a minha aula para irem ao bufete comprar a senha para o almoço. Aconteceu qualquer coisa com a máquina registadora (como depois vim a saber), e elas atrasaram-se. Chegaram à porta depois de a aula já ter começado. Adoptei exactamente o mesmo comportamento que tinha tido quando foram os rapazes a chegar atrasados: também não as deixei entrar. Ficaram no pátio, sentadas junto à sala e, pelas janelas, vi que choravam. A turma, embora pense que percebeu que ali a regra valia mais, teve pena delas e senti, pelos tais movimentos, olhares, ruídos quase imperceptíveis, que ficou dividida entre dois sentimentos - o de justiça e o de não aceitação da minha intransigência. E eu também fiquei dividida. Mas não vacilei. Todavia fiquei incomodada. Interiormente incomodada. Teria gostado de as ter deixado entrar. Mas ao mesmo tempo sabia que não podia ter actuado de forma diferente. Se o tivesse feito, a minha autoridade, a imagem que pretendia transmitir de professora justa, ficariam abaladas. Eu não estaria a educar. Foram situações como esta que me levaram a eleger a ética e a deontologia como área de estudo. Também fui durante muitos anos dirigente sindical. A imagem do professor junto da opinião pública, os comentários que ouvia acerca do comportamento dos professores, afiguravam-se-me como a expressão de obstáculos à afirmação dos professores como classe profissional merecedora do respeito e da consideração da população. E também como barreiras à aceitação e compreensão das lutas e dos motivos que levavam os professores a encetar acções de contestação. Experimentei o sentimento de que estas acções eram insuficientes e sofri com a percepção de que a atitude dos professores de se queixarem da mediocridade do seu estatuto mas de pouco fazerem para se prestigiarem como profissão era paralisante e frustrante. E reflecti sobre o que sentia. Foi esta reflexão que me levou também a empreender uma incursão no domínio da deontologia dos professores. (...) |
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| Autores principais: | Silva, Maria de Lurdes de Sousa da |
| Assunto: | Teses de mestrado - 1994 Processos e estruturas educativas Professores Deontologia profissional Ensino básico |
| Ano: | 1994 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso restrito |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Sou professora há vinte e um anos. Neste tempo houve momentos em que me interroguei profundamente e em que duvidei sinceramente do acerto de decisões que tomei. Dei comigo a reagir de forma diferente perante a mesma situação. Digo melhor: não reagi de forma diferente - tomei uma atitude idêntica. Com uma diferença: duma vez, nada me pesou na consciência. Soube e senti que os meus alunos apreciavam a forma como procedi, considerando que eu tinha sido justa. Da outra vez tive a sensação clara que eles acharam que eu tinha sido injusta. Eu mesma fiquei com essa dúvida a inquietar-me. Se calhar até diria antes que essa inquietação me expôs perante uma situação de dúvida. Porquê? Talvez valha a pena tentar descrever o que aconteceu. Estava definido como regra que a aula não devia ser interrompida pelo que, uma vez.começada, ninguém mais entrava. Os alunos deviam entrar todos na mesma ocasião. E, em geral, era isto que se verificava. Houve uma vez três rapazes (alunos que considerávamos indisciplinados) que ficaram a acabar o jogo da bola e chegaram à porta da aula depois desta já ter começado. Bateram à porta e junto das janelas faziam gestos pedindo para os deixar entrar. Não os deixei entrar e continuei a aula fazendo de conta que ninguém tinha batido à porta, que ninguém tinha pedido para entrar. Estou em crer que a turma achou bem. Isto porque não me apercebi de qualquer movimentação ou ruído do tipo daqueles que nós, professores, interpretamos como sendo de censura à nossa atitude e de apoio ou solidariedade para com os colegas. Passadas semanas, duas ou três semanas, quatro alunas, (boas alunas e bem comportadas) tinham aproveitado o intervalo que antecedeu a minha aula para irem ao bufete comprar a senha para o almoço. Aconteceu qualquer coisa com a máquina registadora (como depois vim a saber), e elas atrasaram-se. Chegaram à porta depois de a aula já ter começado. Adoptei exactamente o mesmo comportamento que tinha tido quando foram os rapazes a chegar atrasados: também não as deixei entrar. Ficaram no pátio, sentadas junto à sala e, pelas janelas, vi que choravam. A turma, embora pense que percebeu que ali a regra valia mais, teve pena delas e senti, pelos tais movimentos, olhares, ruídos quase imperceptíveis, que ficou dividida entre dois sentimentos - o de justiça e o de não aceitação da minha intransigência. E eu também fiquei dividida. Mas não vacilei. Todavia fiquei incomodada. Interiormente incomodada. Teria gostado de as ter deixado entrar. Mas ao mesmo tempo sabia que não podia ter actuado de forma diferente. Se o tivesse feito, a minha autoridade, a imagem que pretendia transmitir de professora justa, ficariam abaladas. Eu não estaria a educar. Foram situações como esta que me levaram a eleger a ética e a deontologia como área de estudo. Também fui durante muitos anos dirigente sindical. A imagem do professor junto da opinião pública, os comentários que ouvia acerca do comportamento dos professores, afiguravam-se-me como a expressão de obstáculos à afirmação dos professores como classe profissional merecedora do respeito e da consideração da população. E também como barreiras à aceitação e compreensão das lutas e dos motivos que levavam os professores a encetar acções de contestação. Experimentei o sentimento de que estas acções eram insuficientes e sofri com a percepção de que a atitude dos professores de se queixarem da mediocridade do seu estatuto mas de pouco fazerem para se prestigiarem como profissão era paralisante e frustrante. E reflecti sobre o que sentia. Foi esta reflexão que me levou também a empreender uma incursão no domínio da deontologia dos professores. (...) |
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