Publicação
Desenhar o tempo (apontamentos sobre o ritmo)
| Resumo: | O ritmo despe o tempo. Despe também os paradoxos aparentes do valor experiencial e conceptual que estabelecemos com a temporalidade: estar dentro do tempo, estar fora do tempo, perder o tempo, fazer tempo, suspender o tempo... Mas, precisamente, talvez seja no íntimo laço entre a experiência e a conceptualização do tempo que poderemos repensar a sua plasticidade, se este é transversal a qualquer conteúdo, a qualquer objecto, se este é — como procurou enunciar Kant — a condição, a possibilidade da experiência. A partir das investigações etimológicas em torno da raiz grega do ritmo (rhythmós) abordaremos o conceito de «forma» pro- curando a sua essência temporal, questionando igualmente outros modos de a entender (eidos, morphé, skéma). O ritmo pode oferecer uma leitura da forma que preserva e expõe, como nenhuma outra, o seu carácter temporal. Este carácter pode ser entendido como força formadora (como physis): a «forma-movimento» proposta por Bernand Sève retoma um pensamento em torno da forma explicitamente a partir da música. Esta força que a música expõe, constitui também gesto da pintura: o ritmo, o tempo, a formação, serão o pretexto para alcançar a figura de Frenhofer, na novela de Balzac (Le Chef-d’Œuvre Inconnu, 1931): dar forma a uma imagem, dar vida a uma forma, animar um corpo, repetir a physis, exigem um gesto paradoxal, exigem fazer ritmo. Aquilo em que Frenhofer falha: não por não conseguir alcançar a força formadora, mas por não conseguir separar-se dela — diferenciar-se, fazendo obra. Enfim, a noção de forma rítmica poderá deixar-nos em condições de retomar um certo pensamento sobre o conceito de sublime, sobre a sua natureza enquanto limite que se mantém, paradoxalmente, em aberto. |
|---|---|
| Autores principais: | Teresa Projecto, Maria |
| Assunto: | Tempo Ritmo Forma Música Pintura Sublime |
| Ano: | 2019 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | artigo |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | O ritmo despe o tempo. Despe também os paradoxos aparentes do valor experiencial e conceptual que estabelecemos com a temporalidade: estar dentro do tempo, estar fora do tempo, perder o tempo, fazer tempo, suspender o tempo... Mas, precisamente, talvez seja no íntimo laço entre a experiência e a conceptualização do tempo que poderemos repensar a sua plasticidade, se este é transversal a qualquer conteúdo, a qualquer objecto, se este é — como procurou enunciar Kant — a condição, a possibilidade da experiência. A partir das investigações etimológicas em torno da raiz grega do ritmo (rhythmós) abordaremos o conceito de «forma» pro- curando a sua essência temporal, questionando igualmente outros modos de a entender (eidos, morphé, skéma). O ritmo pode oferecer uma leitura da forma que preserva e expõe, como nenhuma outra, o seu carácter temporal. Este carácter pode ser entendido como força formadora (como physis): a «forma-movimento» proposta por Bernand Sève retoma um pensamento em torno da forma explicitamente a partir da música. Esta força que a música expõe, constitui também gesto da pintura: o ritmo, o tempo, a formação, serão o pretexto para alcançar a figura de Frenhofer, na novela de Balzac (Le Chef-d’Œuvre Inconnu, 1931): dar forma a uma imagem, dar vida a uma forma, animar um corpo, repetir a physis, exigem um gesto paradoxal, exigem fazer ritmo. Aquilo em que Frenhofer falha: não por não conseguir alcançar a força formadora, mas por não conseguir separar-se dela — diferenciar-se, fazendo obra. Enfim, a noção de forma rítmica poderá deixar-nos em condições de retomar um certo pensamento sobre o conceito de sublime, sobre a sua natureza enquanto limite que se mantém, paradoxalmente, em aberto. |
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