Publicação

Interactions between spatial location and emotion in voice perception : an ERP study

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:A voz humana é um dos sons mais salientes no nosso ambiente. Através da voz, é transmitida não só informação de cariz linguístico (e.g., discurso), como informação para linguística, que nos permite inferir diversas características sobre o seu falante (e.g., identidade, idade, sexo e estado emocional). Contudo, à semelhança de outros sons, a voz também contém informação de cariz espacial que nos informa, por exemplo, da localização do falante. Estudos de neuroimagem sugerem que o processamento de características espaciais e não-espaciais do som é sustentado por diferentes mecanismos neurais, levando à postulação de modelos de dupla via. De acordo com estes modelos, a perceção do som envolve duas vias de processamento paralelas e parcialmente independentes: informação não-espacial (e.g., identidade ou emoção) recruta áreas mais rostrais do córtex auditivo, formando a via ventral; enquanto informação espacial (e.g., localização espacial) é processada por áreas caudais, formando a via dorsal. Apesar do processamento de características emocionais e espaciais ser assegurado por mecanismos neurais distintos, a extensão das interações entre as duas vias, durante a perceção do som, é ainda debatida. Adicionalmente, estudos comportamentais apoiam interações entre o processamento emocional e espacial durante a perceção do som. Por exemplo, comparativamente a sons apresentados à frente do participante, sons vindos de trás não só são mais rápida e corretamente localizados, como tendem a induzir emoções negativas mais fortes, sugerindo um viés atencional para o espaço atrás. Recentemente, Pinheiro e colaboradores (2019) investigaram estas interações durante a perceção da voz, manipulando o foco atencional através das instruções da tarefa. Vocalizações não-verbais espacializadas, transmitindo alegria, raiva ou um estado emocional neutro, foram apresentadas em diferentes localizações à volta do participante. As mesmas vocalizações foram utilizadas em duas tarefas distintas: tarefa de discriminação da localização espacial (Tarefa 1) e tarefa de reconhecimento emocional (Tarefa 2). Quando os participantes atendiam à localização da voz, encontrou-se uma interação entre emoção e espaço, revelando maior precisão para vozes emocionais (i.e., divertimento e raiva) quando apresentadas à direita (vs. esquerda) ou atrás (vs. frente). Quando os participantes atendiam à qualidade emocional da voz, a acurácia no reconhecimento emocional foi elevada, independentemente da emoção expressa e da sua localização espacial. Estes resultados sugerem que a discriminação espacial é influenciada pela qualidade emocional da voz, mesmo quando pistas emocionais são irrelevantes para a tarefa. No entanto, a categorização emocional não é afetada por manipulações espaciais. Os autores concluíram que as interações entre emoção e espaço, durante a perceção da voz, são moduladas pelas instruções da tarefa. Assim, a nível comportamental, o processamento implícito de propriedades emocionais da voz é afetado por manipulações espaciais. No entanto, os mecanismos neurais subjacentes as estas interações ainda não são conhecidos. Por outro lado, a nível neural, o impacto das instruções da tarefa sobre estas interações é, também, desconhecido. A técnica de potenciais evocados (ERP) do eletroencefalograma (EEG) permite examinar os diferentes estádios da perceção da voz, desde a apresentação do estímulo até ao momento em que uma resposta comportamental é dada. Os componentes ERP iniciais, como N1 e P2, são sensíveis às propriedades físicas da voz, enquanto os componentes mais tardios, como o Late Positive Potential (LPP), refletem fases posteriores do processamento, onde ocorrem operações a nível cognitivo. O componente N1 auditivo surge por volta dos 100ms após a apresentação do estímulo e reflete uma análise sensorial inicial das propriedades acústicas da voz. O componente P2, observado por volta dos 200ms, reflete a deteção automática de saliência emocional da voz. O LPP, tipicamente observado por volta dos 400ms pós estímulo, reflete a avaliação explícita do significado emocional da voz. Assim, a excelente resolução temporal da técnica de ERP é ideal para explorar o decurso das interações entre o processamento emocional e espacial durante a perceção da voz, assim como o impacto das instruções da tarefa sobre estes processos. O presente estudo teve como objetivo averiguar as interações entre o processamento de pistas emocionais e espaciais transmitidas pela voz, através da análise de potenciais evocados (ERP). Pretendia-se, também, determinar o impacto da manipulação do foco atencional sobre diferentes características da voz (i.e., emoção ou localização espacial) nas interações entre o processamento emocional e espacial. Para esse efeito, vocalizações não-verbais espacializadas, expressando diferentes categorias emocionais (neutro, alegria ou raiva), foram apresentadas em várias localizações à volta do participante (frente vs. atrás; direta vs. esquerda). A manipulação do foco atencional foi conseguida através das instruções da tarefa. Assim, cada sujeito participou numa de duas tarefas: discriminação da localização espacial da voz (Tarefa 1) ou reconhecimento emocional (Tarefa 2). No total, analisaram-se os dados de 42 participantes, dos quais 20 realizaram a tarefa de discriminação espacial (10 homens), enquanto 22 completaram a tarefa de reconhecimento emocional (11 homens). Com base em estudos prévios, esperava-se um efeito modulatório da emocionalidade da voz na amplitude dos componentes N1, P2 e LPP. Assim, vozes emocionais resultariam na redução da amplitude de N1 e no aumento da amplitude de P2 e LPP, comparativamente a vozes neutras. Por outro lado, esperava-se um efeito de interação entre emoção e localização espacial da voz nos componentes mais tardios (i.e., P2 e LPP), resultando num aumento da amplitude de P2 e LPP em resposta a vozes emocionais apresentadas atrás (vs. frente). Esta hipótese é sustentada por estudos comportamentais que reportam interações entre o processamento emocional e espacial durante a perceção de voz, e sugerem um viés atencional para o espaço atrás. Por fim, a manipulação do foco atencional, conseguida através das instruções da tarefa, deveria promover a alocação de recursos atencionais para diferentes pistas vocais, levando à implementação de estratégias de avaliação do estímulo distintas, tanto a nível percetivo como cognitivo. Assim, seriam de esperar diferenças nas amplitudes dos componentes N1, P2 e LPP, em resposta às mesmas vocalizações, em função do foco atencional (i.e., foco na localização espacial vs. foco no conteúdo emocional). Em conformidade com a primeira hipótese, vozes emocionais (vs. neutras) resultaram numa redução da amplitude de N1, ainda que apenas no eixo direita-esquerda, e num aumento da amplitude de P2 e LPP. Por outro lado, ao contrário do esperado, não foram observados efeitos de interação entre emoção e espaço na amplitude de P2 e LPP, nem efeitos principais de tarefa sobre a amplitude de nenhum dos três componentes estudados. No entanto, obteve-se um efeito principal de espaço no componente P2, uma vez que a amplitude foi maior para vozes apresentadas à direita vs. esquerda. Adicionalmente, observou-se uma interação entre espaço e tarefa, também no componente P2, revelando uma maior amplitude em resposta a vocalizações apresentadas à frente (vs. atrás) na tarefa de reconhecimento emocional. Na tarefa de localização espacial não foram observadas diferenças entre os dois espaços. Os resultados do presente estudo sustentam a automaticidade do processamento emocional, uma vez que os efeitos emocionais foram robustos a manipulações espaciais e surgiram mesmo quando a emocionalidade da voz não era relevante para a tarefa, nem alvo de atenção (i.e., tarefa de localização espacial). Por outro lado, a nível eletrofisiológico, os efeitos espaciais encontrados parecem resultar da saliência conferida pela localização da voz, e são sensíveis à manipulação do foco atencional. Por último, estes resultados revelam uma dissociação entre os estádios do processamento vocal onde são observados efeitos emocionais e espaciais, uma vez que os efeitos da emocionalidade da voz surgem mais cedo (i.e., componente N1) que os efeitos da localização espacial (i.e., componente P2). Assim, os resultados do presente estudo reforçam a automaticidade do processamento emocional, e sugerem uma dissociação entre o timing dos efeitos emocionais e espaciais durante a perceção da voz.
Autores principais:Emara, Sara Temudo
Assunto:Emoção Localização espacial Foco atencional Perceção de voz Potenciais evocados Teses de mestrado - 2021
Ano:2022
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:inglês
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A voz humana é um dos sons mais salientes no nosso ambiente. Através da voz, é transmitida não só informação de cariz linguístico (e.g., discurso), como informação para linguística, que nos permite inferir diversas características sobre o seu falante (e.g., identidade, idade, sexo e estado emocional). Contudo, à semelhança de outros sons, a voz também contém informação de cariz espacial que nos informa, por exemplo, da localização do falante. Estudos de neuroimagem sugerem que o processamento de características espaciais e não-espaciais do som é sustentado por diferentes mecanismos neurais, levando à postulação de modelos de dupla via. De acordo com estes modelos, a perceção do som envolve duas vias de processamento paralelas e parcialmente independentes: informação não-espacial (e.g., identidade ou emoção) recruta áreas mais rostrais do córtex auditivo, formando a via ventral; enquanto informação espacial (e.g., localização espacial) é processada por áreas caudais, formando a via dorsal. Apesar do processamento de características emocionais e espaciais ser assegurado por mecanismos neurais distintos, a extensão das interações entre as duas vias, durante a perceção do som, é ainda debatida. Adicionalmente, estudos comportamentais apoiam interações entre o processamento emocional e espacial durante a perceção do som. Por exemplo, comparativamente a sons apresentados à frente do participante, sons vindos de trás não só são mais rápida e corretamente localizados, como tendem a induzir emoções negativas mais fortes, sugerindo um viés atencional para o espaço atrás. Recentemente, Pinheiro e colaboradores (2019) investigaram estas interações durante a perceção da voz, manipulando o foco atencional através das instruções da tarefa. Vocalizações não-verbais espacializadas, transmitindo alegria, raiva ou um estado emocional neutro, foram apresentadas em diferentes localizações à volta do participante. As mesmas vocalizações foram utilizadas em duas tarefas distintas: tarefa de discriminação da localização espacial (Tarefa 1) e tarefa de reconhecimento emocional (Tarefa 2). Quando os participantes atendiam à localização da voz, encontrou-se uma interação entre emoção e espaço, revelando maior precisão para vozes emocionais (i.e., divertimento e raiva) quando apresentadas à direita (vs. esquerda) ou atrás (vs. frente). Quando os participantes atendiam à qualidade emocional da voz, a acurácia no reconhecimento emocional foi elevada, independentemente da emoção expressa e da sua localização espacial. Estes resultados sugerem que a discriminação espacial é influenciada pela qualidade emocional da voz, mesmo quando pistas emocionais são irrelevantes para a tarefa. No entanto, a categorização emocional não é afetada por manipulações espaciais. Os autores concluíram que as interações entre emoção e espaço, durante a perceção da voz, são moduladas pelas instruções da tarefa. Assim, a nível comportamental, o processamento implícito de propriedades emocionais da voz é afetado por manipulações espaciais. No entanto, os mecanismos neurais subjacentes as estas interações ainda não são conhecidos. Por outro lado, a nível neural, o impacto das instruções da tarefa sobre estas interações é, também, desconhecido. A técnica de potenciais evocados (ERP) do eletroencefalograma (EEG) permite examinar os diferentes estádios da perceção da voz, desde a apresentação do estímulo até ao momento em que uma resposta comportamental é dada. Os componentes ERP iniciais, como N1 e P2, são sensíveis às propriedades físicas da voz, enquanto os componentes mais tardios, como o Late Positive Potential (LPP), refletem fases posteriores do processamento, onde ocorrem operações a nível cognitivo. O componente N1 auditivo surge por volta dos 100ms após a apresentação do estímulo e reflete uma análise sensorial inicial das propriedades acústicas da voz. O componente P2, observado por volta dos 200ms, reflete a deteção automática de saliência emocional da voz. O LPP, tipicamente observado por volta dos 400ms pós estímulo, reflete a avaliação explícita do significado emocional da voz. Assim, a excelente resolução temporal da técnica de ERP é ideal para explorar o decurso das interações entre o processamento emocional e espacial durante a perceção da voz, assim como o impacto das instruções da tarefa sobre estes processos. O presente estudo teve como objetivo averiguar as interações entre o processamento de pistas emocionais e espaciais transmitidas pela voz, através da análise de potenciais evocados (ERP). Pretendia-se, também, determinar o impacto da manipulação do foco atencional sobre diferentes características da voz (i.e., emoção ou localização espacial) nas interações entre o processamento emocional e espacial. Para esse efeito, vocalizações não-verbais espacializadas, expressando diferentes categorias emocionais (neutro, alegria ou raiva), foram apresentadas em várias localizações à volta do participante (frente vs. atrás; direta vs. esquerda). A manipulação do foco atencional foi conseguida através das instruções da tarefa. Assim, cada sujeito participou numa de duas tarefas: discriminação da localização espacial da voz (Tarefa 1) ou reconhecimento emocional (Tarefa 2). No total, analisaram-se os dados de 42 participantes, dos quais 20 realizaram a tarefa de discriminação espacial (10 homens), enquanto 22 completaram a tarefa de reconhecimento emocional (11 homens). Com base em estudos prévios, esperava-se um efeito modulatório da emocionalidade da voz na amplitude dos componentes N1, P2 e LPP. Assim, vozes emocionais resultariam na redução da amplitude de N1 e no aumento da amplitude de P2 e LPP, comparativamente a vozes neutras. Por outro lado, esperava-se um efeito de interação entre emoção e localização espacial da voz nos componentes mais tardios (i.e., P2 e LPP), resultando num aumento da amplitude de P2 e LPP em resposta a vozes emocionais apresentadas atrás (vs. frente). Esta hipótese é sustentada por estudos comportamentais que reportam interações entre o processamento emocional e espacial durante a perceção de voz, e sugerem um viés atencional para o espaço atrás. Por fim, a manipulação do foco atencional, conseguida através das instruções da tarefa, deveria promover a alocação de recursos atencionais para diferentes pistas vocais, levando à implementação de estratégias de avaliação do estímulo distintas, tanto a nível percetivo como cognitivo. Assim, seriam de esperar diferenças nas amplitudes dos componentes N1, P2 e LPP, em resposta às mesmas vocalizações, em função do foco atencional (i.e., foco na localização espacial vs. foco no conteúdo emocional). Em conformidade com a primeira hipótese, vozes emocionais (vs. neutras) resultaram numa redução da amplitude de N1, ainda que apenas no eixo direita-esquerda, e num aumento da amplitude de P2 e LPP. Por outro lado, ao contrário do esperado, não foram observados efeitos de interação entre emoção e espaço na amplitude de P2 e LPP, nem efeitos principais de tarefa sobre a amplitude de nenhum dos três componentes estudados. No entanto, obteve-se um efeito principal de espaço no componente P2, uma vez que a amplitude foi maior para vozes apresentadas à direita vs. esquerda. Adicionalmente, observou-se uma interação entre espaço e tarefa, também no componente P2, revelando uma maior amplitude em resposta a vocalizações apresentadas à frente (vs. atrás) na tarefa de reconhecimento emocional. Na tarefa de localização espacial não foram observadas diferenças entre os dois espaços. Os resultados do presente estudo sustentam a automaticidade do processamento emocional, uma vez que os efeitos emocionais foram robustos a manipulações espaciais e surgiram mesmo quando a emocionalidade da voz não era relevante para a tarefa, nem alvo de atenção (i.e., tarefa de localização espacial). Por outro lado, a nível eletrofisiológico, os efeitos espaciais encontrados parecem resultar da saliência conferida pela localização da voz, e são sensíveis à manipulação do foco atencional. Por último, estes resultados revelam uma dissociação entre os estádios do processamento vocal onde são observados efeitos emocionais e espaciais, uma vez que os efeitos da emocionalidade da voz surgem mais cedo (i.e., componente N1) que os efeitos da localização espacial (i.e., componente P2). Assim, os resultados do presente estudo reforçam a automaticidade do processamento emocional, e sugerem uma dissociação entre o timing dos efeitos emocionais e espaciais durante a perceção da voz.