Publicação
A dimensão atlântica da Lusitânia: periferia ou charneira no Império Romano?
| Resumo: | Ao longo do tempo, a literatura greco-latina foi construindo uma imagem estereotipada do extremo ocidente, onde se identificam recorrentemente alguns tópicos: “fim do mundo”, “terra ignota”, “lugar de prodígios” e “sítio de barbárie”. Estas imagens, primeiramente forjadas em âmbito helenístico, persistiram como lugares-comuns da literatura até à Antiguidade Tardia. Acrescente-se, porém, que não faltam nessa mesma literatura registos mais objectivos do crescente conhecimento das costas atlânticas, que se tornaram espaços perfeitamente familiares e frequentados durante a época romana. Há, pois, distintas tradições literárias que devem ser devidamente contextualizadas e não tomadas literalmente. A investigação portuguesa sobre a Antiguidade assumiu de um modo cândido esta imagem de finisterra, à beira do terrífico mar Oceano, e interiorizou a noção de uma Lusitania ultra-periférica no contexto do Império Romano, mesclando acriticamente as distintas tradições literárias, com especial destaque para as primeiras. A condição francamente interior dos principais centros políticos da provincia constituía um outro argumento a favor de uma depreciação do litoral. Paralelamente, o desenvolvimento das pesquisas em outras paragens, valorizou a importância de algumas rotas de circulação norte-sul, designadamente o istmo gaulês e as rotas do Ródano e Reno, no abastecimento à Britannia ou à Germania Inferior, sublinhando a suposta condição periférica hispânica e desvalorizando assim a rota atlântica que, apesar de algumas dificuldades de navegação, constituía a melhor escolha, atendendo à razão distância / custo. Nos últimos anos, um crescente interesse pela orla litoral lusitana conduziu a algumas verificações importantes: em primeiro lugar, a existência de uma significativa actividade de exploração de recursos marinhos, com uma não menos importante componente de exportação; em segundo lugar, o reconhecimento de interessantes fenómenos de oscilação nas dinâmicas do povoamento, com uma evidente valorização das zonas de estuário, particularmente notória nos casos dos rios Sado e Tejo; a multiplicação de registos arqueológicos relacionados com o transporte e circulação de mercadorias por via marítima ao longo da faixa atlântica (designadamente, o padrão de distribuição de algumas ânforas e cerâmicas finas); finalmente, com a identificação de elementos concretos sobre a navegação antiga (cepos de âncoras, naufrágios e elementos de sinalização naval). A conjugação destes dados constitui um interessante tema de reflexão, que permite reequacionar o papel da Lusitania no contexto do Império Romano. Não tanto como remota e distante periferia, mas como verdadeira charneira entre espaços provinciais. Não se pretende, naturalmente, depreciar as já conhecidas rotas de circulação norte-sul, de há muito reconhecidas, nem defender que a Lusitania poderia ter sido o que de facto não foi, mas sim trazer para o debate científico a relevância da rota atlântica no âmbito do Império Romano e a consequente reavaliação da mais ocidental das províncias, neste contexto. |
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| Autores principais: | Fabião, Carlos |
| Assunto: | Arqueologia Roma Lusitania Atlântico |
| Ano: | 2009 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | capítulo de livro |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Ao longo do tempo, a literatura greco-latina foi construindo uma imagem estereotipada do extremo ocidente, onde se identificam recorrentemente alguns tópicos: “fim do mundo”, “terra ignota”, “lugar de prodígios” e “sítio de barbárie”. Estas imagens, primeiramente forjadas em âmbito helenístico, persistiram como lugares-comuns da literatura até à Antiguidade Tardia. Acrescente-se, porém, que não faltam nessa mesma literatura registos mais objectivos do crescente conhecimento das costas atlânticas, que se tornaram espaços perfeitamente familiares e frequentados durante a época romana. Há, pois, distintas tradições literárias que devem ser devidamente contextualizadas e não tomadas literalmente. A investigação portuguesa sobre a Antiguidade assumiu de um modo cândido esta imagem de finisterra, à beira do terrífico mar Oceano, e interiorizou a noção de uma Lusitania ultra-periférica no contexto do Império Romano, mesclando acriticamente as distintas tradições literárias, com especial destaque para as primeiras. A condição francamente interior dos principais centros políticos da provincia constituía um outro argumento a favor de uma depreciação do litoral. Paralelamente, o desenvolvimento das pesquisas em outras paragens, valorizou a importância de algumas rotas de circulação norte-sul, designadamente o istmo gaulês e as rotas do Ródano e Reno, no abastecimento à Britannia ou à Germania Inferior, sublinhando a suposta condição periférica hispânica e desvalorizando assim a rota atlântica que, apesar de algumas dificuldades de navegação, constituía a melhor escolha, atendendo à razão distância / custo. Nos últimos anos, um crescente interesse pela orla litoral lusitana conduziu a algumas verificações importantes: em primeiro lugar, a existência de uma significativa actividade de exploração de recursos marinhos, com uma não menos importante componente de exportação; em segundo lugar, o reconhecimento de interessantes fenómenos de oscilação nas dinâmicas do povoamento, com uma evidente valorização das zonas de estuário, particularmente notória nos casos dos rios Sado e Tejo; a multiplicação de registos arqueológicos relacionados com o transporte e circulação de mercadorias por via marítima ao longo da faixa atlântica (designadamente, o padrão de distribuição de algumas ânforas e cerâmicas finas); finalmente, com a identificação de elementos concretos sobre a navegação antiga (cepos de âncoras, naufrágios e elementos de sinalização naval). A conjugação destes dados constitui um interessante tema de reflexão, que permite reequacionar o papel da Lusitania no contexto do Império Romano. Não tanto como remota e distante periferia, mas como verdadeira charneira entre espaços provinciais. Não se pretende, naturalmente, depreciar as já conhecidas rotas de circulação norte-sul, de há muito reconhecidas, nem defender que a Lusitania poderia ter sido o que de facto não foi, mas sim trazer para o debate científico a relevância da rota atlântica no âmbito do Império Romano e a consequente reavaliação da mais ocidental das províncias, neste contexto. |
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