Publicação
Death comes to Pemberley or Pride and prejudice revisited
| Resumo: | P. D. James é uma autora do cânone literário inglês com uma extensa carreira dedicada aos romances policiais. A obra Death Comes to Pemberley combina a longa carreira da escritora com a sua admiração pela obra de Jane Austen. Esta tese estuda a obra de James, que se apropria do mundo e das personagens de Austen, seis anos após os acontecimentos narrados em Pride and Prejudice. O primeiro capítulo da dissertação centra-se nas caraterísticas da literatura policial, de modo a compreender que elementos foram utilizados por James e que convenções são abertamente rejeitadas pela autora. Assim, é possível compreender como James adapta um romance do século XIX, abalando a estabilidade de Elizabeth e Darcy com a descoberta de um crime na sua propriedade, Pemberley. Os termos detective, herói, vilão, assassino e vítima surgem associados às personagens masculinas, procedendo-se também à caracterização de Darcy, Wickham e Bidwell no contexto da literatura policial. A escolha de Pemberley enquanto cenário do crime revela-se crucial para a análise da obra. De acordo com as convenções da literatura policial, o cenário rural permite observar o impacto de um crime na vida quotidiana de uma pequena comunidade. James mostra-se particularmente interessada neste elemento. Pemberley representa a ordem social e a estabilidade familiar. James apresenta apenas um suspeito para o crime, Wickham. Austen caracteriza a personagem como um vilão, mas nunca como um assassino. Por isso, Wickham não é o assassino em Death Comes to Pemberley, mantendo apenas o rótulo de vilão. James brinca com as expectativas dos leitores, expostas através da perspectiva de Darcy, que se questiona continuamente se Wickham será ou não o criminoso. Por sua vez, Darcy não pode ser considerado um detective. A sua presença em Death Comes to Pemberley encontra-se relacionada com o assassínio, embora Darcy não possa estar envolvido na investigação oficial devido à sua relação familiar com o acusado. Assim, James utiliza a focalização interna de modo a exibir as dúvidas de Darcy em relação a Wickham. Darcy, destituído dos seus poderes enquanto membro da comunidade, considera os factos mas não os investiga. Uma das dimensões mais importantes da ficção policial é precisamente o castigo do assassino e a restauração da ordem na comunidade afectada. Em Death Comes to Pemberley, o assassino não é punido pelo crime. Bidwell morre vítima de uma doença grave que já o afligia. A sua confissão, que salva a vida de Wickham, surge no leito de morte, pois o assassino desejava morrer de consciência tranquila. Apesar da morte de Bidwell, a ordem apenas é restaurada em Pemberley com a partida de Lydia e Wickham. Para além disso, o capítulo refere as recepções de ambos os livros nas respectivas épocas, equiparando as expectativas dos leitores da obra de cada uma das autoras. O conceito de intertextualidade é bastante vasto e esta tese não pretende defini-lo. Jane Austen encontra-se entre os autores mais adaptados da actualidade. As adaptações de Pride and Prejudice apresentam-se como trabalhos distintos que frequentemente revisitam a relação amorosa de Darcy e Elizabeth. Contudo, James não interfere na história original, situando a acção da sua obra seis anos após o casamento do casal. Deste modo, o capítulo analisa a liberdade criativa de James na sua apropriação das personagens Elizabeth e Darcy. A obra de James apresenta-se como uma homenagem a Austen. James interpreta o enredo de Pride and Prejudice, assim como as motivações das personagens, transpondo esses elementos para Death Comes to Pemberley, que se torna o produto de uma reinterpretação. É possível observar quais as características de que James se apropria de modo a homenagear Austen. O enredo secundário do livro aborda a vida amorosa de Georgiana, que deverá escolher entre dois pretendentes. Elizabeth guia os leitores pelas aventuras românticas da cunhada, enquanto observadora e conselheira. O segundo capítulo caracteriza Elizabeth focando-se particularmente nas informações contidas no prólogo e no comportamento da personagem no primeiro capítulo do Book One. A Elizabeth de James já não se apresenta como uma figura que desafia as normas sociais. Em vez disso, a personagem compara o ambiente social de Meryton e Pemberley, criando uma ligação entre Death Comes to Pemberley e Pride and Prejudice. James utiliza a dupla perspectiva, estabelecendo uma clara divisão de papéis entre as personagens. Darcy é impedido de cumprir o seu papel enquanto representante legal, pelo que é apresentado como um homem poderoso numa situação sem poder. Assim, visita Wickham na prisão e mostra-se incapaz de entender se o cunhado será culpado ou inocente. A autora explora os limites da autoridade de Darcy, colocando continuamente a personagem em situações desconfortáveis. O crime provoca o cruzamento da esfera doméstica e da esfera privada, uma vez que Wickham e Darcy pertencem à mesma família. Deste modo, o protagonista masculino mostra-se incapaz de evitar os escândalos. Durante o julgamento do cunhado, Pemberley é visto por Darcy como o seu refúgio. James dá ênfase à vertente social de Darcy, explorando as suas fraquezas em relação ao mundo exterior. Por outro lado, Elizabeth favorece a esfera privada, dedicando-se à sua irmã Lydia e à cunhada Georgiana. A obra Death Comes to Pemberley permite muitos níveis de leitura. Apresenta um enredo original a partir de um cenário e de personagens criadas por Austen. Torna-se possível ler Death Comes to Pemberley sem ter lido Pride and Prejudice pois a autora age como moderadora, utilizando o prólogo para recordar o enredo de Pride and Prejudice e caracterizar as suas personagens. As preocupações sociais de James diferem das abordadas por Austen no século XIX, e o mesmo sucede com os seus leitores. James escreve para leitores do século XXI, abordando assim temas que Austen deliberadamente não menciona. Assim, a obra de James valoriza o contexto social e político da época. A leitura de Pride and Prejudice permite aos leitores compreender as escolhas de James na abordagem e tratamento das personagens e do cenário. A autora apropria-se das personagens principais, de personagens secundárias menores, como Mrs Reynolds e Captain Denny, e cria também personagens originais, como a família Bidwell. James exerce a sua liberdade criativa essencialmente no que diz respeito às personagens que inventa. Wickham é apenas um vilão, tal como caracterizado por Austen, e não um assassino. James explora a personagem de acordo com o comportamento que Wickham apresenta do longo de Pride and Prejudice. Bidwell, uma personagem criada por James, é o assassino, mas não é um vilão. Para além disso, as personagens criadas por James não pertencem ao mesmo círculo social da família Darcy. Vivemos imersos numa cultura de adaptação e Death Comes to Pemberley surge como um produto do seu tempo. A obra combina o mundo de Austen com os códigos sociais e expectativas dos leitores de James. O terceiro capítulo da dissertação analisa a estrutura dos cinco capítulos do Book One e tem como objectivo estudar o dia-a-dia em Pemberley. Ao longo dos capítulos é possível observar a construção da atmosfera adequada à ocorrência de um crime. Pemberley é o principal elemento de ligação entre as três famílias: os Darcy, os Wickham e os Bidwell. A hierarquia social é também um elemento crucial nesta análise, uma vez que a organização em Pemberley espelha a estrutura rígida da sociedade. Os cargos, tal como o estatuto social, são herdados. A relação entre Lydia e Wickham é também alvo de estudo. A presença das personagens em Pemberley gera o caos, pois o casal transgride todas as regras de conduta social ao forçar a sua entrada na propriedade de Darcy e Elizabeth. Uma vez que Lydia e Wickham raremente interagem um com o outro, a relação é abordada a partir do ponto de vista de Elizabeth, Darcy ou da sociedade. Finalmente, o capítulo aborda também os destinos de cada personagem. A paz é reinstaurada em Pemberley com a partida de Lydia e Wickham. O exílio do casal apresenta-se como um elemento que contribui para a felicidade de Darcy e Elizabeth. A dissertação defende que é atribuído um final feliz a cada personagem, como forma de homenagem a Jane Austen. |
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| Autores principais: | Pedroso, Ana Filipa Rodrigues de Sá |
| Assunto: | James, Phyllis Dorothy, 1920-2014. Death comes to Pemberley Austen, Jane, 1775-1817. Pride and prejudice Romance policial inglês - séc.20-21 - História e crítica Romance inglês - séc.18-19 - História e crítica Teses de mestrado - 2017 |
| Ano: | 2017 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | inglês |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | P. D. James é uma autora do cânone literário inglês com uma extensa carreira dedicada aos romances policiais. A obra Death Comes to Pemberley combina a longa carreira da escritora com a sua admiração pela obra de Jane Austen. Esta tese estuda a obra de James, que se apropria do mundo e das personagens de Austen, seis anos após os acontecimentos narrados em Pride and Prejudice. O primeiro capítulo da dissertação centra-se nas caraterísticas da literatura policial, de modo a compreender que elementos foram utilizados por James e que convenções são abertamente rejeitadas pela autora. Assim, é possível compreender como James adapta um romance do século XIX, abalando a estabilidade de Elizabeth e Darcy com a descoberta de um crime na sua propriedade, Pemberley. Os termos detective, herói, vilão, assassino e vítima surgem associados às personagens masculinas, procedendo-se também à caracterização de Darcy, Wickham e Bidwell no contexto da literatura policial. A escolha de Pemberley enquanto cenário do crime revela-se crucial para a análise da obra. De acordo com as convenções da literatura policial, o cenário rural permite observar o impacto de um crime na vida quotidiana de uma pequena comunidade. James mostra-se particularmente interessada neste elemento. Pemberley representa a ordem social e a estabilidade familiar. James apresenta apenas um suspeito para o crime, Wickham. Austen caracteriza a personagem como um vilão, mas nunca como um assassino. Por isso, Wickham não é o assassino em Death Comes to Pemberley, mantendo apenas o rótulo de vilão. James brinca com as expectativas dos leitores, expostas através da perspectiva de Darcy, que se questiona continuamente se Wickham será ou não o criminoso. Por sua vez, Darcy não pode ser considerado um detective. A sua presença em Death Comes to Pemberley encontra-se relacionada com o assassínio, embora Darcy não possa estar envolvido na investigação oficial devido à sua relação familiar com o acusado. Assim, James utiliza a focalização interna de modo a exibir as dúvidas de Darcy em relação a Wickham. Darcy, destituído dos seus poderes enquanto membro da comunidade, considera os factos mas não os investiga. Uma das dimensões mais importantes da ficção policial é precisamente o castigo do assassino e a restauração da ordem na comunidade afectada. Em Death Comes to Pemberley, o assassino não é punido pelo crime. Bidwell morre vítima de uma doença grave que já o afligia. A sua confissão, que salva a vida de Wickham, surge no leito de morte, pois o assassino desejava morrer de consciência tranquila. Apesar da morte de Bidwell, a ordem apenas é restaurada em Pemberley com a partida de Lydia e Wickham. Para além disso, o capítulo refere as recepções de ambos os livros nas respectivas épocas, equiparando as expectativas dos leitores da obra de cada uma das autoras. O conceito de intertextualidade é bastante vasto e esta tese não pretende defini-lo. Jane Austen encontra-se entre os autores mais adaptados da actualidade. As adaptações de Pride and Prejudice apresentam-se como trabalhos distintos que frequentemente revisitam a relação amorosa de Darcy e Elizabeth. Contudo, James não interfere na história original, situando a acção da sua obra seis anos após o casamento do casal. Deste modo, o capítulo analisa a liberdade criativa de James na sua apropriação das personagens Elizabeth e Darcy. A obra de James apresenta-se como uma homenagem a Austen. James interpreta o enredo de Pride and Prejudice, assim como as motivações das personagens, transpondo esses elementos para Death Comes to Pemberley, que se torna o produto de uma reinterpretação. É possível observar quais as características de que James se apropria de modo a homenagear Austen. O enredo secundário do livro aborda a vida amorosa de Georgiana, que deverá escolher entre dois pretendentes. Elizabeth guia os leitores pelas aventuras românticas da cunhada, enquanto observadora e conselheira. O segundo capítulo caracteriza Elizabeth focando-se particularmente nas informações contidas no prólogo e no comportamento da personagem no primeiro capítulo do Book One. A Elizabeth de James já não se apresenta como uma figura que desafia as normas sociais. Em vez disso, a personagem compara o ambiente social de Meryton e Pemberley, criando uma ligação entre Death Comes to Pemberley e Pride and Prejudice. James utiliza a dupla perspectiva, estabelecendo uma clara divisão de papéis entre as personagens. Darcy é impedido de cumprir o seu papel enquanto representante legal, pelo que é apresentado como um homem poderoso numa situação sem poder. Assim, visita Wickham na prisão e mostra-se incapaz de entender se o cunhado será culpado ou inocente. A autora explora os limites da autoridade de Darcy, colocando continuamente a personagem em situações desconfortáveis. O crime provoca o cruzamento da esfera doméstica e da esfera privada, uma vez que Wickham e Darcy pertencem à mesma família. Deste modo, o protagonista masculino mostra-se incapaz de evitar os escândalos. Durante o julgamento do cunhado, Pemberley é visto por Darcy como o seu refúgio. James dá ênfase à vertente social de Darcy, explorando as suas fraquezas em relação ao mundo exterior. Por outro lado, Elizabeth favorece a esfera privada, dedicando-se à sua irmã Lydia e à cunhada Georgiana. A obra Death Comes to Pemberley permite muitos níveis de leitura. Apresenta um enredo original a partir de um cenário e de personagens criadas por Austen. Torna-se possível ler Death Comes to Pemberley sem ter lido Pride and Prejudice pois a autora age como moderadora, utilizando o prólogo para recordar o enredo de Pride and Prejudice e caracterizar as suas personagens. As preocupações sociais de James diferem das abordadas por Austen no século XIX, e o mesmo sucede com os seus leitores. James escreve para leitores do século XXI, abordando assim temas que Austen deliberadamente não menciona. Assim, a obra de James valoriza o contexto social e político da época. A leitura de Pride and Prejudice permite aos leitores compreender as escolhas de James na abordagem e tratamento das personagens e do cenário. A autora apropria-se das personagens principais, de personagens secundárias menores, como Mrs Reynolds e Captain Denny, e cria também personagens originais, como a família Bidwell. James exerce a sua liberdade criativa essencialmente no que diz respeito às personagens que inventa. Wickham é apenas um vilão, tal como caracterizado por Austen, e não um assassino. James explora a personagem de acordo com o comportamento que Wickham apresenta do longo de Pride and Prejudice. Bidwell, uma personagem criada por James, é o assassino, mas não é um vilão. Para além disso, as personagens criadas por James não pertencem ao mesmo círculo social da família Darcy. Vivemos imersos numa cultura de adaptação e Death Comes to Pemberley surge como um produto do seu tempo. A obra combina o mundo de Austen com os códigos sociais e expectativas dos leitores de James. O terceiro capítulo da dissertação analisa a estrutura dos cinco capítulos do Book One e tem como objectivo estudar o dia-a-dia em Pemberley. Ao longo dos capítulos é possível observar a construção da atmosfera adequada à ocorrência de um crime. Pemberley é o principal elemento de ligação entre as três famílias: os Darcy, os Wickham e os Bidwell. A hierarquia social é também um elemento crucial nesta análise, uma vez que a organização em Pemberley espelha a estrutura rígida da sociedade. Os cargos, tal como o estatuto social, são herdados. A relação entre Lydia e Wickham é também alvo de estudo. A presença das personagens em Pemberley gera o caos, pois o casal transgride todas as regras de conduta social ao forçar a sua entrada na propriedade de Darcy e Elizabeth. Uma vez que Lydia e Wickham raremente interagem um com o outro, a relação é abordada a partir do ponto de vista de Elizabeth, Darcy ou da sociedade. Finalmente, o capítulo aborda também os destinos de cada personagem. A paz é reinstaurada em Pemberley com a partida de Lydia e Wickham. O exílio do casal apresenta-se como um elemento que contribui para a felicidade de Darcy e Elizabeth. A dissertação defende que é atribuído um final feliz a cada personagem, como forma de homenagem a Jane Austen. |
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