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Perturbação articulatória em crianças de 4 e 5 anos : frequência e caracterização

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Resumo:Introdução: A perturbação articulatória, enquanto subtipo de uma perturbação dos sons da fala, é globalmente entendida pelos terapeutas da fala como uma dificuldade de produção dos sons da fala, sendo o desempenho da criança percetualmente inaceitável, abaixo ou diferente do expectável para a sua idade. Objetivos: Analisar o estado da arte sobre a perturbação articulatória em Portugal na perspetiva do terapeuta da fala, considerando como objetivos secundários: (i) identificar a forma como os terapeutas da fala portugueses atuam no âmbito da perturbação articulatória com crianças em idade pré-escolar; (ii) determinar as propriedades métricas da segunda versão do Protocolo de Avaliação Orofacial (PAOF-2) em crianças de 4 e 5 anos, especificamente a sua aplicabilidade, fidedignidade e validade; (iii) caracterizar crianças com perturbação dos sons da fala em função das variáveis que contribuem para a elaboração do diagnóstico (desempenho articulatório, discriminação auditiva, motricidade orofacial), verificando se existem diferenças de acordo com a idade, o sexo e a ausência de perturbação dos sons da fala. Métodos: Após a revisão crítica da literatura foram organizados três estudos transversais. O primeiro, de natureza metodológica, constituído pela criação e validação de um questionário, seguido de um estudo exploratório de natureza transversal que se traduziu num inquérito a terapeutas da fala portugueses, desenvolvido com base na revisão da literatura. A validade de conteúdo foi obtida com um painel de Delphi constituído por três terapeutas da fala e um préteste, aplicado a 10 terapeutas da fala. A distribuição do questionário ocorreu entre 15 de outubro e 30 de dezembro de 2019. No segundo estudo, metodológico de natureza observacional e transversal, observaram-se 107 crianças com desenvolvimento típico, 55 com perturbação dos sons da fala e 52 sem perturbação dos sons da fala, emparceirados por idade. Cada criança foi examinada individualmente por um terapeuta da fala e 12 foram avaliadas por dois terapeutas da fala. Analisaram-se as propriedades métricas de aplicabilidade (dados omissos, efeitos de chão e de teto e tempo de aplicação do PAOF-2), fidedignidade (consistência interna, intra e inter-examinadores) e validade discriminante. O terceiro estudo, de natureza exploratória, examina o inventário fonético, a capacidade de discriminação auditiva de pares mínimos e o desempenho oromotor em 106 crianças dos 4;0 aos 5;11 meses de idade, 54 delas com diagnóstico de perturbação dos sons da fala. Resultados: Com o primeiro estudo validou-se o conteúdo e a forma de mensuração do questionário. O número de respostas obtidas nas diferentes perguntas varia entre 66 e 229 e os resultados mostram que os terapeutas da fala: i) atuam num elevado número de casos com perturbação articulatória; ii) a implementação de ações de rastreio ocorre predominantemente na faixa etária dos 4 aos 6 anos de idade; iii) os terapeutas da fala conceptualizam adequadamente o termo perturbação dos sons da fala, acompanhando a evolução do conceito; iv) os terapeutas da fala fazem um bom uso do seu tempo nas atividades de pré-avaliação e avaliação. O segundo estudo permitiu verificar que o PAOF-2 tem dados omissos (<5%) e efeitos de chão (<15%) abaixo do limite aceitável e o tempo de aplicação é curto (média=10,7 minutos). Quanto à fidedignidade, o PAOF-2 mostrou boa consistência interna (α de Cronbach = 0,805) e excelente acordo intra e inter-examinadores (ICC = 0,918 e 0,912, respetivamente). Relativamente ao domínio da mobilidade orofacial, foi identificado o efeito idade (as crianças de 4 anos têm valores inferiores às crianças de 5 anos) e sexo (os elementos do sexo masculino apresentam desempenho inferior comparativamente aos seus pares do sexo feminino). Quando aplicado às 54 crianças identificadas com perturbação dos sons da fala, o terceiro estudo permitiu diagnosticar 68,5% com presumível perturbação articulatória e 31,5% com variabilidade da produção articulatória. As 37 crianças com presumível perturbação articulatória têm significativamente pior desempenho na: (i) discriminação auditiva, quando comparadas com as 17 crianças com variabilidade da produção articulatória e com as 52 crianças sem perturbação dos sons da fala; (ii) diadococinésia oral, quando comparadas com as crianças sem perturbação dos sons da fala. Existe efeito de idade no desempenho articulatório, na discriminação auditiva e na motricidade orofacial. Considerações finais: Os resultados do primeiro estudo apoiam tendências totais positivas para a experiência, a qualidade e as práticas de avaliação dos terapeutas da fala portugueses na avaliação de crianças com perturbação da articulação, seguindo as melhores evidências e utilizando os recursos disponíveis. Contudo, será necessário refletir de uma forma aprofundada sobre o pouco tempo despendido nas atividades de análise dos resultados obtidos (pósavaliação). O desenvolvimento de testes adaptados culturalmente e linguisticamente ao português europeu e o desenvolvimento da análise instrumental seriam benéficos para apoiar o diagnóstico feito pelos terapeutas da fala. Nesta linha, o PAOF-2 demostrou ser um instrumento aplicável, fidedigno e válido para as crianças do presente estudo, sendo que a sua aplicação em clínica e em investigação está dependente de estudos futuros em amostras com maior representatividade das crianças dos 4 aos 5 anos de idade. No terceiro estudo, as crianças com presumível perturbação articulatória apresentam pior desempenho na discriminação auditiva e na diadococinésia oral comparativamente às crianças com variabilidade na produção articulatória e crianças sem perturbação dos sons da fala.
Autores principais:Pós de Mina, Sónia
Assunto:Distúrbios de articulação da fala - Na criança Terapia da fala para crianças Teses de doutoramento - 2022
Ano:2022
País:Portugal
Tipo de documento:tese de doutoramento
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Introdução: A perturbação articulatória, enquanto subtipo de uma perturbação dos sons da fala, é globalmente entendida pelos terapeutas da fala como uma dificuldade de produção dos sons da fala, sendo o desempenho da criança percetualmente inaceitável, abaixo ou diferente do expectável para a sua idade. Objetivos: Analisar o estado da arte sobre a perturbação articulatória em Portugal na perspetiva do terapeuta da fala, considerando como objetivos secundários: (i) identificar a forma como os terapeutas da fala portugueses atuam no âmbito da perturbação articulatória com crianças em idade pré-escolar; (ii) determinar as propriedades métricas da segunda versão do Protocolo de Avaliação Orofacial (PAOF-2) em crianças de 4 e 5 anos, especificamente a sua aplicabilidade, fidedignidade e validade; (iii) caracterizar crianças com perturbação dos sons da fala em função das variáveis que contribuem para a elaboração do diagnóstico (desempenho articulatório, discriminação auditiva, motricidade orofacial), verificando se existem diferenças de acordo com a idade, o sexo e a ausência de perturbação dos sons da fala. Métodos: Após a revisão crítica da literatura foram organizados três estudos transversais. O primeiro, de natureza metodológica, constituído pela criação e validação de um questionário, seguido de um estudo exploratório de natureza transversal que se traduziu num inquérito a terapeutas da fala portugueses, desenvolvido com base na revisão da literatura. A validade de conteúdo foi obtida com um painel de Delphi constituído por três terapeutas da fala e um préteste, aplicado a 10 terapeutas da fala. A distribuição do questionário ocorreu entre 15 de outubro e 30 de dezembro de 2019. No segundo estudo, metodológico de natureza observacional e transversal, observaram-se 107 crianças com desenvolvimento típico, 55 com perturbação dos sons da fala e 52 sem perturbação dos sons da fala, emparceirados por idade. Cada criança foi examinada individualmente por um terapeuta da fala e 12 foram avaliadas por dois terapeutas da fala. Analisaram-se as propriedades métricas de aplicabilidade (dados omissos, efeitos de chão e de teto e tempo de aplicação do PAOF-2), fidedignidade (consistência interna, intra e inter-examinadores) e validade discriminante. O terceiro estudo, de natureza exploratória, examina o inventário fonético, a capacidade de discriminação auditiva de pares mínimos e o desempenho oromotor em 106 crianças dos 4;0 aos 5;11 meses de idade, 54 delas com diagnóstico de perturbação dos sons da fala. Resultados: Com o primeiro estudo validou-se o conteúdo e a forma de mensuração do questionário. O número de respostas obtidas nas diferentes perguntas varia entre 66 e 229 e os resultados mostram que os terapeutas da fala: i) atuam num elevado número de casos com perturbação articulatória; ii) a implementação de ações de rastreio ocorre predominantemente na faixa etária dos 4 aos 6 anos de idade; iii) os terapeutas da fala conceptualizam adequadamente o termo perturbação dos sons da fala, acompanhando a evolução do conceito; iv) os terapeutas da fala fazem um bom uso do seu tempo nas atividades de pré-avaliação e avaliação. O segundo estudo permitiu verificar que o PAOF-2 tem dados omissos (<5%) e efeitos de chão (<15%) abaixo do limite aceitável e o tempo de aplicação é curto (média=10,7 minutos). Quanto à fidedignidade, o PAOF-2 mostrou boa consistência interna (α de Cronbach = 0,805) e excelente acordo intra e inter-examinadores (ICC = 0,918 e 0,912, respetivamente). Relativamente ao domínio da mobilidade orofacial, foi identificado o efeito idade (as crianças de 4 anos têm valores inferiores às crianças de 5 anos) e sexo (os elementos do sexo masculino apresentam desempenho inferior comparativamente aos seus pares do sexo feminino). Quando aplicado às 54 crianças identificadas com perturbação dos sons da fala, o terceiro estudo permitiu diagnosticar 68,5% com presumível perturbação articulatória e 31,5% com variabilidade da produção articulatória. As 37 crianças com presumível perturbação articulatória têm significativamente pior desempenho na: (i) discriminação auditiva, quando comparadas com as 17 crianças com variabilidade da produção articulatória e com as 52 crianças sem perturbação dos sons da fala; (ii) diadococinésia oral, quando comparadas com as crianças sem perturbação dos sons da fala. Existe efeito de idade no desempenho articulatório, na discriminação auditiva e na motricidade orofacial. Considerações finais: Os resultados do primeiro estudo apoiam tendências totais positivas para a experiência, a qualidade e as práticas de avaliação dos terapeutas da fala portugueses na avaliação de crianças com perturbação da articulação, seguindo as melhores evidências e utilizando os recursos disponíveis. Contudo, será necessário refletir de uma forma aprofundada sobre o pouco tempo despendido nas atividades de análise dos resultados obtidos (pósavaliação). O desenvolvimento de testes adaptados culturalmente e linguisticamente ao português europeu e o desenvolvimento da análise instrumental seriam benéficos para apoiar o diagnóstico feito pelos terapeutas da fala. Nesta linha, o PAOF-2 demostrou ser um instrumento aplicável, fidedigno e válido para as crianças do presente estudo, sendo que a sua aplicação em clínica e em investigação está dependente de estudos futuros em amostras com maior representatividade das crianças dos 4 aos 5 anos de idade. No terceiro estudo, as crianças com presumível perturbação articulatória apresentam pior desempenho na discriminação auditiva e na diadococinésia oral comparativamente às crianças com variabilidade na produção articulatória e crianças sem perturbação dos sons da fala.