Publicação
Captura-recaptura como método epidemiológico a aplicarà esclerose múltipla
| Resumo: | A esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória crónica do sistema nervoso central de etiologia desconhecida. A grande variabilidade da frequência da doença foi reconhecida desde Charcot. Foi contudo John Kurtzke quem, em 1975, postulou que a prevalência da doença aumentava nos dois hemisférios com a latitude, sendo praticamente inexistente nas regiões equatoriais. Estes conceitos perduraram como verdades científicas indiscutíveis durante mais de duas décadas, classificando os países da Europa do sul, entre os quais Portugal, como regiões da baixa prevalência da doença. Nos países do sul da Europa e nas ilhas do Mediterrâneo foram realizados nos anos oitenta e noventa elevado número de estudos epidemiológicos para aí determinar a prevalência da EM. Adoptaram estes estudos uma metodologia desenvolvida por Geoffrey Dean, que consiste em escrutinar uma região circunscrita, com uma população reduzida, durante um período de tempo considerável (quatro a cinco anos), utilizando todas as fontes de informação aí disponíveis. As taxas brutas de prevalência de EM, assim apuradas foram muito superiores às estimadas por Kurtzke, tendo sido refutada a existência duma variação linear da prevalência da doença com a latitude nesta região do hemisfério Norte. Verificou-se contudo existir aqui grande variabilidade na prevalência da doença, com diferenças importantes e inexplicadas entre regiões geográficas vizinhas. Desta forma é importante continuar a realizar estudos epidemiológicos para estimar localmente a prevalência da EM. Para tal é contudo necessário adoptar novos métodos que possibilitem produzir resultados de forma mais rápida e económica. Duas hipóteses estão subjacentes a esta dissertação: a primeira é que a prevalência da EM em Portugal é muito superior à anteriormente estimada por Kurtzke nos anos setenta e oitenta, situando-se actualmente em níveis de média e alta prevalência (superiores a 50/100.000); a segunda é que a metodologia de captura-recaptura, importada das ciências biológicas, uma vez aplicada à epidemiologia da esclerose múltipla, pode produzir, de forma muita mais rápida e exequível, resultados fidedignos, substituindo assim, com vantagens óbvias, os morosos métodos clássicos até aqui adoptados nos estudos de base populacional realizados. O trabalho conduzido no Concelho de Santarém entre 1994 e 1999 foi o primeiro estudo de base populacional realizado no país. Neste trabalho foi adoptada a metodologia clássica genericamente utilizada pelos investigadores do sul da Europa nos estudos de epidemiologia da EM aqui realizados. Apurou-se uma taxa bruta de prevalência de EM de 46,9 / 100.000 habitantes, número este classificável num intervalo de média-alta prevalência da doença. Ulteriormente, em 2009, utilizando a metodologia de captura-recaptura, realizei um estudo epidemiológico inovador para estimar a prevalência da EM em 3 centros de saúde da Unidade A da Região Setentrional da ARS de Lisboa (Odivelas, Benfica e Pontinha), apurando-se respectivamente taxas brutas de prevalência de 53, 62,4 e 57,5 por 100.000 habitantes, valores estes que não diferem significativamente da prevalência estimada previamente no Concelho de Santarém. Foi possível ainda estabelecer comparações entre variáveis demográficas e clínicas das populações de doentes identificadas nos dois estudos, que se revelaram muito semelhantes. Pode-se concluir que Portugal é um país em que a prevalência da EM é actualmente muito superior ao que era anteriormente admitido, não diferindo substancialmente dos valores relatados no grande maioria dos países da Europa do sul e que a metodologia de captura-recaptura aplicada à epidemiologia da EM, em estudos de base populacional em pequenas populações, pode ser utilizada com grandes vantagens face aos estudos clássicos muito exigentes em tempo e dedicação. |
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| Autores principais: | Sá, João Carlos Correia de, 1959- |
| Assunto: | Esclerose múltipla Epidemiologia Prevalência Neurologia Portugal Tese de Doutoramento - 2014 |
| Ano: | 2014 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória crónica do sistema nervoso central de etiologia desconhecida. A grande variabilidade da frequência da doença foi reconhecida desde Charcot. Foi contudo John Kurtzke quem, em 1975, postulou que a prevalência da doença aumentava nos dois hemisférios com a latitude, sendo praticamente inexistente nas regiões equatoriais. Estes conceitos perduraram como verdades científicas indiscutíveis durante mais de duas décadas, classificando os países da Europa do sul, entre os quais Portugal, como regiões da baixa prevalência da doença. Nos países do sul da Europa e nas ilhas do Mediterrâneo foram realizados nos anos oitenta e noventa elevado número de estudos epidemiológicos para aí determinar a prevalência da EM. Adoptaram estes estudos uma metodologia desenvolvida por Geoffrey Dean, que consiste em escrutinar uma região circunscrita, com uma população reduzida, durante um período de tempo considerável (quatro a cinco anos), utilizando todas as fontes de informação aí disponíveis. As taxas brutas de prevalência de EM, assim apuradas foram muito superiores às estimadas por Kurtzke, tendo sido refutada a existência duma variação linear da prevalência da doença com a latitude nesta região do hemisfério Norte. Verificou-se contudo existir aqui grande variabilidade na prevalência da doença, com diferenças importantes e inexplicadas entre regiões geográficas vizinhas. Desta forma é importante continuar a realizar estudos epidemiológicos para estimar localmente a prevalência da EM. Para tal é contudo necessário adoptar novos métodos que possibilitem produzir resultados de forma mais rápida e económica. Duas hipóteses estão subjacentes a esta dissertação: a primeira é que a prevalência da EM em Portugal é muito superior à anteriormente estimada por Kurtzke nos anos setenta e oitenta, situando-se actualmente em níveis de média e alta prevalência (superiores a 50/100.000); a segunda é que a metodologia de captura-recaptura, importada das ciências biológicas, uma vez aplicada à epidemiologia da esclerose múltipla, pode produzir, de forma muita mais rápida e exequível, resultados fidedignos, substituindo assim, com vantagens óbvias, os morosos métodos clássicos até aqui adoptados nos estudos de base populacional realizados. O trabalho conduzido no Concelho de Santarém entre 1994 e 1999 foi o primeiro estudo de base populacional realizado no país. Neste trabalho foi adoptada a metodologia clássica genericamente utilizada pelos investigadores do sul da Europa nos estudos de epidemiologia da EM aqui realizados. Apurou-se uma taxa bruta de prevalência de EM de 46,9 / 100.000 habitantes, número este classificável num intervalo de média-alta prevalência da doença. Ulteriormente, em 2009, utilizando a metodologia de captura-recaptura, realizei um estudo epidemiológico inovador para estimar a prevalência da EM em 3 centros de saúde da Unidade A da Região Setentrional da ARS de Lisboa (Odivelas, Benfica e Pontinha), apurando-se respectivamente taxas brutas de prevalência de 53, 62,4 e 57,5 por 100.000 habitantes, valores estes que não diferem significativamente da prevalência estimada previamente no Concelho de Santarém. Foi possível ainda estabelecer comparações entre variáveis demográficas e clínicas das populações de doentes identificadas nos dois estudos, que se revelaram muito semelhantes. Pode-se concluir que Portugal é um país em que a prevalência da EM é actualmente muito superior ao que era anteriormente admitido, não diferindo substancialmente dos valores relatados no grande maioria dos países da Europa do sul e que a metodologia de captura-recaptura aplicada à epidemiologia da EM, em estudos de base populacional em pequenas populações, pode ser utilizada com grandes vantagens face aos estudos clássicos muito exigentes em tempo e dedicação. |
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