Publicação
Impacto da hipoacusia ligeira na aprendizagem da leitura : estudo longitudinal
| Resumo: | OBJECTIVO: A presente investigação teve como objectivo verificar em dois grupos de crianças - normo-ouvintes e com hipoacusia ligeira - a qualidade das suas representações fonológicas e o seu impacto em capacidades envolvidas na fase inicial da aprendizagem da leitura. METODOLOGIA: De modo a responder ao objectivo referido, realizou-se um estudo longitudinal ao longo de trinta meses. A amostra final, extraída de um grupo inicial de 106 crianças, ficou constituída por dois grupos de 24 crianças: o grupo de crianças com hipoacusia ligeira, cuja média dos limiares auditivos a 500, 1000, 2000 e 4000 Hz se situava entre 16 e 40 dB, e o grupo de crianças normo-ouvintes, cujos limiares auditivos a 500, 1000, 2000 e 4000 Hz estavam compreendidos entre -10 e 15 dB. As crianças de cada grupo foram emparelhadas, na turma a que pertenciam, em relação à idade, ao sexo, à inteligência não verbal, à língua materna e, sempre que possível, em relação a outras questões do questionário realizado aos pais. Com base em materiais existentes ou noutros especialmente elaborados para o estudo, as crianças foram avaliadas entre a pré-primária e o 2º ano de escolaridade, no que respeita à memória fonológica, ao vocabulário, à discriminação auditiva, ao conhecimento das letras, à consciência fonológica, à descodificação de palavras e de pseudopalavras e à compreensão de leitura de frases. Formularam-se quatro hipóteses de trabalho que conduziram à avaliação experimental de conhecimentos e capacidades envolvidas na descodificação e compreensão (H1), à avaliação do impacto das condições acústicas, análogas às de sala de aula, na memória fonológica (H2), à identificação dos preditores de uma leitura eficiente nas duas condições de audição presentes na amostra (H3 e H4). RESULTADOS: Os resultados obtidos indicam que existe um pior desempenho das crianças com hipoacusia ligeira em relação aos seus pares normo-ouvintes sempre que as tarefas realizadas recrutavam representações ou conhecimentos fonológicos sem suporte de informação lexical. As crianças com hipoacusia ligeira utilizam recursos cognitivos que implicam um maior esforço para conseguirem os resultados obtidos, especialmente na descodificação de pseudopalavras, no 2º ano de escolaridade. As crianças com hipoacusia ligeira têm como preditor da descodificação o conhecimento de letras, tanto no 1º como no 2º ano de escolaridade, enquanto as crianças normo-ouvintes têm como preditor a consciência fonológica e apenas no 1º ano de escolaridade. As crianças normo-ouvintes dependem da eficiência da descodificação para um melhor desempenho na compreensão na leitura, enquanto as crianças com hipoacusia parecem apoiar-se no vocabulário receptivo para compreender. As condições acústicas de ruído têm impacto na aprendizagem da leitura de todas as crianças participantes no estudo, tenham ou não hipoacusia ligeira. CONCLUSÃO: A hipoacusia ligeira influencia a aprendizagem da leitura na sua fase inicial. As crianças com esse défice adquirem capacidades relacionadas com a leitura de um modo mais lento do que as crianças normo-ouvintes, nomeadamente as capacidades que de algum modo assentam na dimensão fonológica da língua. A audição não se vê, mas é uma das pedras basilares do início da aprendizagem da leitura. |
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| Autores principais: | Serrano, Margarida Maria Fernandes |
| Assunto: | Leitura - Estudo e ensino (Pré-escolar) Leitura - Estudo e ensino (Primário) Consciência linguística - Na criança Consciência fonológica Hipoacusia Distúrbios de audição Teses de doutoramento - 2018 |
| Ano: | 2018 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | OBJECTIVO: A presente investigação teve como objectivo verificar em dois grupos de crianças - normo-ouvintes e com hipoacusia ligeira - a qualidade das suas representações fonológicas e o seu impacto em capacidades envolvidas na fase inicial da aprendizagem da leitura. METODOLOGIA: De modo a responder ao objectivo referido, realizou-se um estudo longitudinal ao longo de trinta meses. A amostra final, extraída de um grupo inicial de 106 crianças, ficou constituída por dois grupos de 24 crianças: o grupo de crianças com hipoacusia ligeira, cuja média dos limiares auditivos a 500, 1000, 2000 e 4000 Hz se situava entre 16 e 40 dB, e o grupo de crianças normo-ouvintes, cujos limiares auditivos a 500, 1000, 2000 e 4000 Hz estavam compreendidos entre -10 e 15 dB. As crianças de cada grupo foram emparelhadas, na turma a que pertenciam, em relação à idade, ao sexo, à inteligência não verbal, à língua materna e, sempre que possível, em relação a outras questões do questionário realizado aos pais. Com base em materiais existentes ou noutros especialmente elaborados para o estudo, as crianças foram avaliadas entre a pré-primária e o 2º ano de escolaridade, no que respeita à memória fonológica, ao vocabulário, à discriminação auditiva, ao conhecimento das letras, à consciência fonológica, à descodificação de palavras e de pseudopalavras e à compreensão de leitura de frases. Formularam-se quatro hipóteses de trabalho que conduziram à avaliação experimental de conhecimentos e capacidades envolvidas na descodificação e compreensão (H1), à avaliação do impacto das condições acústicas, análogas às de sala de aula, na memória fonológica (H2), à identificação dos preditores de uma leitura eficiente nas duas condições de audição presentes na amostra (H3 e H4). RESULTADOS: Os resultados obtidos indicam que existe um pior desempenho das crianças com hipoacusia ligeira em relação aos seus pares normo-ouvintes sempre que as tarefas realizadas recrutavam representações ou conhecimentos fonológicos sem suporte de informação lexical. As crianças com hipoacusia ligeira utilizam recursos cognitivos que implicam um maior esforço para conseguirem os resultados obtidos, especialmente na descodificação de pseudopalavras, no 2º ano de escolaridade. As crianças com hipoacusia ligeira têm como preditor da descodificação o conhecimento de letras, tanto no 1º como no 2º ano de escolaridade, enquanto as crianças normo-ouvintes têm como preditor a consciência fonológica e apenas no 1º ano de escolaridade. As crianças normo-ouvintes dependem da eficiência da descodificação para um melhor desempenho na compreensão na leitura, enquanto as crianças com hipoacusia parecem apoiar-se no vocabulário receptivo para compreender. As condições acústicas de ruído têm impacto na aprendizagem da leitura de todas as crianças participantes no estudo, tenham ou não hipoacusia ligeira. CONCLUSÃO: A hipoacusia ligeira influencia a aprendizagem da leitura na sua fase inicial. As crianças com esse défice adquirem capacidades relacionadas com a leitura de um modo mais lento do que as crianças normo-ouvintes, nomeadamente as capacidades que de algum modo assentam na dimensão fonológica da língua. A audição não se vê, mas é uma das pedras basilares do início da aprendizagem da leitura. |
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