Publicação

Impacto potencial do javali na recuperação da população de coelho-bravo na Companhia das Lezírias

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:O coelho-bravo é nativo da Península Ibérica, sendo presa base para cerca de 40 espécies de predadores, muitos dos quais ameaçados e/ou especializados no seu consumo. Atua também como “engenheiro do ecossistema”, pois por via da herbivoria e enquanto agente dispersor de sementes, altera a composição das comunidades vegetais e promove a manutenção de matos abertos, aumentando a complexidade e heterogeneidade do habitat. Como tal, é considerada uma espécie-chave na manutenção da estrutura e funcionamento dos ecossistemas ibéricos. Atualmente, o coelho-bravo constitui uma espécie de interesse para a conservação, beneficiando do estatuto de “Quase Ameaçado” em Portugal, onde a sua tendência populacional continua a ser de declínio. A principal causa de ameaça apontada é o surto de duas patologias virais: a mixomatose e a febre hemorrágica, a partir dos anos 50. Porém, o declínio já estaria a decorrer desde o início do século XX, consequência da perda e fragmentação do habitat, sendo depois acelerado com o surgimento das referidas patologias. Hoje em dia, outras ameaças são também apontadas, como a caça excessiva e mal gerida, a pressão de predação e a competição interespecífica. Nomeadamente, o aumento significativo de ungulados silvestres que se tem registado nas últimas décadas, na Península Ibérica, e que pode constituir uma nova ameaça para coelho-bravo. Estudos anteriores já sugerem um efeito potencialmente negativo por parte de herbívoros de grande porte, incluindo o javali, no entanto, essa interação tem sido pouco explorada. O javali é o ungulado de distribuição mais extensa na Península Ibérica, sendo descrito como um omnívoro oportunista que utiliza o comportamento de fossar na procura de alimento. As fossadas são responsáveis por alterar a composição e pH do solo, os processos de decomposição e o recrutamento de várias plantas. A interação entre coelho-bravo e javali decorre deste comportamento, que afeta a disponibilidade de alimento, a qualidade do habitat e a estabilidade do refúgio subterrâneo (tocas) para o coelho. Coloca-se assim a hipótese de o javali impactar negativamente o padrão de ocupação por coelho-bravo. Para testar esta hipótese selecionou-se uma área de montado (Charneca do Infantado, Companhia das Lezírias), onde o coelho se encontra em declínio e o javali em expansão e recorreu-se à procura de indícios de presença de ambas as espécies, em 73 pontos de amostragem (buffer de 25m de raio) distribuídos regularmente pela área de estudo. Em cada ponto foram realizados três eventos de amostragem, de forma a obter um registo de deteção em formato binário, o que permitiu modelar a ocupação das duas espécies e avaliar a interação entre ambas. Adicionalmente, estimou-se a população de javali na área de estudo, recorrendo a uma amostragem combinada (faroladas para observação direta e animais abatidos em montaria). Como esperado, os resultados confirmaram a reduzida ocupação por coelho-bravo (~36%), com núcleos populacionais associados principalmente às áreas agrícolas. Já o javali mostrou ocupar praticamente toda a área (~80%) e com um elevado efetivo populacional (6,07 ± 1,96 ind/km2). Na área de estudo, as duas espécies aparentam ocorrer independentemente, sendo este o cenário com maior suporte estatístico. Porém, alguns dos resultados sugerem um potencial efeito de exclusão do coelho-bravo quando o javali se encontra presente, relação que poderá ser menos evidente devido à situação de declínio populacional em que o coelho-bravo se encontra. A confirmar-se esta situação, o javali pode estar a constituir uma ameaça à recuperação desta espécie, que já se encontra fragilizada. Assim, as principais recomendações de gestão para a área de estudo são o melhoramento do habitat para coelho-bravo, e a necessidade de se manter o controlo populacional do javali.
Autores principais:Barros, Ana Luísa Rodrigues de
Assunto:Oryctolagus cuniculus Sus scrofa Interação interespecífica Modelos de ocupação Gestão populacional Teses de mestrado - 2016
Ano:2016
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:O coelho-bravo é nativo da Península Ibérica, sendo presa base para cerca de 40 espécies de predadores, muitos dos quais ameaçados e/ou especializados no seu consumo. Atua também como “engenheiro do ecossistema”, pois por via da herbivoria e enquanto agente dispersor de sementes, altera a composição das comunidades vegetais e promove a manutenção de matos abertos, aumentando a complexidade e heterogeneidade do habitat. Como tal, é considerada uma espécie-chave na manutenção da estrutura e funcionamento dos ecossistemas ibéricos. Atualmente, o coelho-bravo constitui uma espécie de interesse para a conservação, beneficiando do estatuto de “Quase Ameaçado” em Portugal, onde a sua tendência populacional continua a ser de declínio. A principal causa de ameaça apontada é o surto de duas patologias virais: a mixomatose e a febre hemorrágica, a partir dos anos 50. Porém, o declínio já estaria a decorrer desde o início do século XX, consequência da perda e fragmentação do habitat, sendo depois acelerado com o surgimento das referidas patologias. Hoje em dia, outras ameaças são também apontadas, como a caça excessiva e mal gerida, a pressão de predação e a competição interespecífica. Nomeadamente, o aumento significativo de ungulados silvestres que se tem registado nas últimas décadas, na Península Ibérica, e que pode constituir uma nova ameaça para coelho-bravo. Estudos anteriores já sugerem um efeito potencialmente negativo por parte de herbívoros de grande porte, incluindo o javali, no entanto, essa interação tem sido pouco explorada. O javali é o ungulado de distribuição mais extensa na Península Ibérica, sendo descrito como um omnívoro oportunista que utiliza o comportamento de fossar na procura de alimento. As fossadas são responsáveis por alterar a composição e pH do solo, os processos de decomposição e o recrutamento de várias plantas. A interação entre coelho-bravo e javali decorre deste comportamento, que afeta a disponibilidade de alimento, a qualidade do habitat e a estabilidade do refúgio subterrâneo (tocas) para o coelho. Coloca-se assim a hipótese de o javali impactar negativamente o padrão de ocupação por coelho-bravo. Para testar esta hipótese selecionou-se uma área de montado (Charneca do Infantado, Companhia das Lezírias), onde o coelho se encontra em declínio e o javali em expansão e recorreu-se à procura de indícios de presença de ambas as espécies, em 73 pontos de amostragem (buffer de 25m de raio) distribuídos regularmente pela área de estudo. Em cada ponto foram realizados três eventos de amostragem, de forma a obter um registo de deteção em formato binário, o que permitiu modelar a ocupação das duas espécies e avaliar a interação entre ambas. Adicionalmente, estimou-se a população de javali na área de estudo, recorrendo a uma amostragem combinada (faroladas para observação direta e animais abatidos em montaria). Como esperado, os resultados confirmaram a reduzida ocupação por coelho-bravo (~36%), com núcleos populacionais associados principalmente às áreas agrícolas. Já o javali mostrou ocupar praticamente toda a área (~80%) e com um elevado efetivo populacional (6,07 ± 1,96 ind/km2). Na área de estudo, as duas espécies aparentam ocorrer independentemente, sendo este o cenário com maior suporte estatístico. Porém, alguns dos resultados sugerem um potencial efeito de exclusão do coelho-bravo quando o javali se encontra presente, relação que poderá ser menos evidente devido à situação de declínio populacional em que o coelho-bravo se encontra. A confirmar-se esta situação, o javali pode estar a constituir uma ameaça à recuperação desta espécie, que já se encontra fragilizada. Assim, as principais recomendações de gestão para a área de estudo são o melhoramento do habitat para coelho-bravo, e a necessidade de se manter o controlo populacional do javali.