Publicação
Assimetrias sociais e acesso ao ensino superior ProUni e FIES no Maranhão
| Resumo: | Nos processos de criação, estruturação e reestruturação do ensino superior no Brasil, as famílias detentoras do poder econômico local e representantes dos habitus dominantes (descendentes de europeus, primeiro invasores, depois imigrantes), as quais politicamente construíram o Brasil, mobilizaram-se de diversas formas para garantirem a formação dos seus filhos para assumirem os lugares de liderança nas instituições públicas e no governo das empresas privadas e profissões altamente especializadas. Somente a estes herdeiros a educação foi garantida, projetada especificamente para cumprimento de seus objetivos, para reproduzir seus capitais herdados e aculturados ao ambiente social, reproduzindo e acumulando desta forma seus capitais, articulada com a detenção cargos e posições simbólicas decisivas ligadas às decisões de poder do Estado. Com o passar do tempo, o habitus tornou-se pele, roupa, símbolo, música, expressão, alimentação, educação, formação, lugares, ambientes, informação, rendimento, etnia e lazer e etc. A formação do individuo passou a seguir os modelos Europeu e Americano, a seleção resultava de exames rigorosos e o acesso só se dava através de um bom ensino fundamental e médio em boas escolas privadas com “estilo” jesuítico. Com o crescimento econômico nos últimos anos, a organização da informatização e o poder de compra aliado com o mercado capitalista dos países como a China, EUA e Europa, o governo brasileiro, através de sua política pública social de acesso ao ensino superior e de qualificação da mão de obra especializada, rompe com a hegemonia dos habitus que até então dominava o setor educacional e também na sociedade brasileira, no acesso ao trabalho, cargos e empregos. Justifica-se pois que se coloquem algumas questões de pesquisa, relativas a estas transformações recentes, ainda ocorrentes, mas recentemente sofrendo recuo político, e nomeadamente se questione: 1) Em que medida é que a intervenção do Estado e suas políticas públicas sociais na facilitação e encaminhamento do acesso ao ensino superior por cidadãos de classes desfavorecidas (Prouni, FIES para IESs privadas, Cotas para públicas e ENEM para todas), altera as suas perspetivas de acesso ao emprego e profissão, intermediadas por mudanças em seus capitais cultural e social e, mais amplamente, seus habitus? 2) Em que medida essas políticas alteram de fato o papel das IESs na reprodução social, agora que, por um lado, o ensino superior privado passou a beneficiar de apoios ao ingresso de estudantes carentes, através dos Programas Sociais Prouni e FIES, e, por outro lado, o ensino superior publico, gratuito, que antes era quase exclusivamente acedido por herdeiros das camadas sociais dominantes através de exame vestibular, para o qual eram e são especificamente educados em colégios secundários privados e corporativos, passou a dar também acesso a um número já significativo de estudantes mais pobres, provindos de escolas secundárias “públicas”, através do sistema de cotas para estudantes afrodescendentes (pardos, negros e índios) e através do ENEM para todos? Após um cuidadoso trabalho de pesquisa e revisão bibliográfica, dadas as questões de pesquisa, adotamos, por ter parecido a mais adequada aos objetivos da pesquisa, a ontologia de Pierre Bourdieu, a qual revimos e ao mesmo tempo usamos para analisar e entender a reprodução social brasileira, com base em estatísticas mundiais e nacionais, estudos de sociologia da educação brasileiros e variadas fontes de dados secundários, além, naturalmente, do conhecimento pessoal que o autor já tinha do campo acadêmico brasileiro, primeiro como discente e, depois, durante curtos períodos, em funções administrativas e docentes. Revimos também, em detalhe, o limitado número trabalhos de autores anteriores que já se tinham debruçado sobre o assunto, relativamente a estudantes e a IESs localizados em regiões mais desenvolvidas do país. O trabalho de pesquisa de campo, desenvolveu-se durante 6 meses com estudantes dos últimos períodos de cada curso nas IES públicas e privadas, na capital do Estado do Maranhão, São Luis-Brasil, foram aplicados 1.400 inquéritos, em 43 cursos de formação superior, entre a faixa etária superior aos 40 anos e inferior aos 28 anos, efetuado com várias etnias, familiares com rendimento entre os 253 euros e superior aos 7.590 euros. Os procedimentos foram realizados em sala de aula, algumas IES participantes autorizaram-nos a presença em sala inclusive nos horários dos professores, outras não foram possíveis, optamos por realizar a pesquisa nos horários antecedentes e subsequentes aos horários de aula, corredores, ambientes de lazer e restaurantes universitários. Utilizamos uma metodologia mista de um trabalho empírico, com recolha e análise de dados, auxiliado pelo programa de análise estatística IBM SPSS versão 24.0, elaboramos um questionário visando caracterizar o habitus dos estudantes e sua “herança” familiar, através de perguntas sobre manifestações dos seus capitais social, econômico, cultural, simbólico e linguístico. As revisões de literatura e os resultados obtidos em estudo de campo permitiram-nos entender e descrever melhor as estruturais sociais de reprodução do habitus por meio das predisposições do sistema educacional, a valorização dos capitais, de forma explícita e implícita, na aprendizagem e a aquisição de competências para o mercado de trabalho, bem como as trincheiras enfrentadas pelos estudantes e as famílias oriundos dos meios populares e carentes na busca do sucesso escolar, o empoderamento feminino no pleiteamento, aquisição e continuação dos estudos e carreira, a idade avançada por parte de muitos estudantes da rede privada na procura de uma formação superior que lhes possa render benefícios e, finalmente, o rompimento tão somente parcial do ciclo natural educacional do Brasil decorrente das políticas públicas de acesso ao ensino superior através dos programas sociais, como Prouni, FIES, Cotas e Enem. |
|---|---|
| Autores principais: | Neto, José Maria Franco Teixeira |
| Assunto: | Programa Universidade para Todos Habitus Capital social Capital cultural Brasil Prouni program FIES program University for All Social capital Cultural capital |
| Ano: | 2018 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Nos processos de criação, estruturação e reestruturação do ensino superior no Brasil, as famílias detentoras do poder econômico local e representantes dos habitus dominantes (descendentes de europeus, primeiro invasores, depois imigrantes), as quais politicamente construíram o Brasil, mobilizaram-se de diversas formas para garantirem a formação dos seus filhos para assumirem os lugares de liderança nas instituições públicas e no governo das empresas privadas e profissões altamente especializadas. Somente a estes herdeiros a educação foi garantida, projetada especificamente para cumprimento de seus objetivos, para reproduzir seus capitais herdados e aculturados ao ambiente social, reproduzindo e acumulando desta forma seus capitais, articulada com a detenção cargos e posições simbólicas decisivas ligadas às decisões de poder do Estado. Com o passar do tempo, o habitus tornou-se pele, roupa, símbolo, música, expressão, alimentação, educação, formação, lugares, ambientes, informação, rendimento, etnia e lazer e etc. A formação do individuo passou a seguir os modelos Europeu e Americano, a seleção resultava de exames rigorosos e o acesso só se dava através de um bom ensino fundamental e médio em boas escolas privadas com “estilo” jesuítico. Com o crescimento econômico nos últimos anos, a organização da informatização e o poder de compra aliado com o mercado capitalista dos países como a China, EUA e Europa, o governo brasileiro, através de sua política pública social de acesso ao ensino superior e de qualificação da mão de obra especializada, rompe com a hegemonia dos habitus que até então dominava o setor educacional e também na sociedade brasileira, no acesso ao trabalho, cargos e empregos. Justifica-se pois que se coloquem algumas questões de pesquisa, relativas a estas transformações recentes, ainda ocorrentes, mas recentemente sofrendo recuo político, e nomeadamente se questione: 1) Em que medida é que a intervenção do Estado e suas políticas públicas sociais na facilitação e encaminhamento do acesso ao ensino superior por cidadãos de classes desfavorecidas (Prouni, FIES para IESs privadas, Cotas para públicas e ENEM para todas), altera as suas perspetivas de acesso ao emprego e profissão, intermediadas por mudanças em seus capitais cultural e social e, mais amplamente, seus habitus? 2) Em que medida essas políticas alteram de fato o papel das IESs na reprodução social, agora que, por um lado, o ensino superior privado passou a beneficiar de apoios ao ingresso de estudantes carentes, através dos Programas Sociais Prouni e FIES, e, por outro lado, o ensino superior publico, gratuito, que antes era quase exclusivamente acedido por herdeiros das camadas sociais dominantes através de exame vestibular, para o qual eram e são especificamente educados em colégios secundários privados e corporativos, passou a dar também acesso a um número já significativo de estudantes mais pobres, provindos de escolas secundárias “públicas”, através do sistema de cotas para estudantes afrodescendentes (pardos, negros e índios) e através do ENEM para todos? Após um cuidadoso trabalho de pesquisa e revisão bibliográfica, dadas as questões de pesquisa, adotamos, por ter parecido a mais adequada aos objetivos da pesquisa, a ontologia de Pierre Bourdieu, a qual revimos e ao mesmo tempo usamos para analisar e entender a reprodução social brasileira, com base em estatísticas mundiais e nacionais, estudos de sociologia da educação brasileiros e variadas fontes de dados secundários, além, naturalmente, do conhecimento pessoal que o autor já tinha do campo acadêmico brasileiro, primeiro como discente e, depois, durante curtos períodos, em funções administrativas e docentes. Revimos também, em detalhe, o limitado número trabalhos de autores anteriores que já se tinham debruçado sobre o assunto, relativamente a estudantes e a IESs localizados em regiões mais desenvolvidas do país. O trabalho de pesquisa de campo, desenvolveu-se durante 6 meses com estudantes dos últimos períodos de cada curso nas IES públicas e privadas, na capital do Estado do Maranhão, São Luis-Brasil, foram aplicados 1.400 inquéritos, em 43 cursos de formação superior, entre a faixa etária superior aos 40 anos e inferior aos 28 anos, efetuado com várias etnias, familiares com rendimento entre os 253 euros e superior aos 7.590 euros. Os procedimentos foram realizados em sala de aula, algumas IES participantes autorizaram-nos a presença em sala inclusive nos horários dos professores, outras não foram possíveis, optamos por realizar a pesquisa nos horários antecedentes e subsequentes aos horários de aula, corredores, ambientes de lazer e restaurantes universitários. Utilizamos uma metodologia mista de um trabalho empírico, com recolha e análise de dados, auxiliado pelo programa de análise estatística IBM SPSS versão 24.0, elaboramos um questionário visando caracterizar o habitus dos estudantes e sua “herança” familiar, através de perguntas sobre manifestações dos seus capitais social, econômico, cultural, simbólico e linguístico. As revisões de literatura e os resultados obtidos em estudo de campo permitiram-nos entender e descrever melhor as estruturais sociais de reprodução do habitus por meio das predisposições do sistema educacional, a valorização dos capitais, de forma explícita e implícita, na aprendizagem e a aquisição de competências para o mercado de trabalho, bem como as trincheiras enfrentadas pelos estudantes e as famílias oriundos dos meios populares e carentes na busca do sucesso escolar, o empoderamento feminino no pleiteamento, aquisição e continuação dos estudos e carreira, a idade avançada por parte de muitos estudantes da rede privada na procura de uma formação superior que lhes possa render benefícios e, finalmente, o rompimento tão somente parcial do ciclo natural educacional do Brasil decorrente das políticas públicas de acesso ao ensino superior através dos programas sociais, como Prouni, FIES, Cotas e Enem. |
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