Publicação
Caracterização e avaliação da gestão da terapêutica da dor em doentes com osteoartrose do joelho em Portugal
| Resumo: | Introdução: O estudo epidemiológico de doenças reumáticas em Portugal (EpiReumaPt) teve como principal objectivo a determinação da prevalência das principais doenças reumáticas no país. Permitiu, também, a identificação de factores sociodemográficos, socioeconómicos e clínicos associados ao diagnóstico de doenças reumáticas, bem como a determinação do impacto destas doenças na qualidade de vida, função e capacidade laboral dos doentes. Apesar desta recente caracterização de determinantes e consequência psicossocial das doenças reumáticas, pouco se conhece sobre a gestão da dor em doentes portugueses com diferentes doenças reumáticas não inflamatórias, nas quais se incluem a osteoartrose do joelho. A prevalência da osteoartrose do joelho, patologia em estudo, em Portugal é de 12,4% (11,0% - 13,8%), sendo mais prevalente no sexo feminino, 15,8% (13,7% - 17,8%), do que no sexo masculino, 8,6% (6,9% - 10,3%). Objectivos: Os objectivos gerais deste estudo foram (a) caracterizar as terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas utilizadas pela população adulta (idade maior ou igual a 18 anos) portuguesa com o diagnóstico de osteoartrose do joelho, para alívio da dor associada a esta patologia, (b) identificar factores sócio-demográficos, socioeconómicos, clínicos e comportamentais destes doentes que poderão estar associados à utilização de fármacos para alívio da dor, e (c) avaliar a concordância entre as práticas terapêuticas farmacológicas e as recomendações da “Escada analgésica da OMS”. Material e métodos: Desenho observacional transversal, realizado através de análise secundária de dados recolhidos na primeira e segunda fases do projecto EpireumaPt. Os métodos de amostragem e recolha de dados foram os utilizados no EpireumaPt. Os participantes foram seleccionados através de um processo de amostragem probabilística multietápica, tendo-se obtido uma amostra representativa da população portuguesa, com 10 661 indivíduos. A amostra foi estratificada por região NUTS II e por dimensão da localidade. A caracterização das terapêuticas não farmacológicas e da utilização de fármacos para o alívio da dor foram efectuados por análise descritiva univariada. A análise dos possíveis factores que lhe poderiam estar associados foi efectuada por regressão logística. A “Escada analgésica da OMS” foi utilizada como gold standard para a abordagem terapêutica da dor nos doentes em estudo. Resultados: Foram incluídos 981 doentes com osteoartrose do joelho, nesta análise secundária. Em relação à toma dos medicamentos pertencentes aos grupos terapêuticos da escada analgésica da OMS, os três tipos de medicamentos mais utilizados pelos doentes foram os “ansiolíticos, sedativos e hipnóticos” (24,6%), os “AINE” (20,2%) e os “antidepressores” (14,7%). Apenas 6,9% da amostra utiliza analgésicos e antipiréticos e 4,2% analgésicos estupefacientes. Os medicamentos do degrau I são os mais utilizados pelos doentes da amostra (83,7%), seguido dos medicamentos do degrau II (14,7%) e por fim do degrau III (1,6%). No entanto, a maioria dos doentes apresenta dor intensa (47,8%), seguida de dor moderada (35,6%), dor máxima (6,7%) e dor ligeira (5,3%). As variáveis sexo, rendimento familiar, ansiedade e intensidade da dor no joelho foram identificadas como factores potencialmente associados à utilização de fármacos dos degraus I e II da escada analgésica da OMS para o alívio da dor. Nenhuma das variáveis utilizadas na regressão logística para a variável dependente “degrau III” revelou qualquer associação com esta indicador de farmacoterapia. Em relação às terapêuticas não farmacológicas, apenas 14,6% da amostra recorreu a elas. A sua maior utilização é efectuada por mulheres (15,9%), doentes entre os 18 e os 29 anos (20,0%), doentes com maior nível de instrução, reformados (69,0%) e doentes com dor intensa (48,6%). As intervenções não farmacológicas utilizadas pela amostra de doentes com OA do joelho foram: a reabilitação (30,7%), cinesioterapia (8,1%), infiltrações intra-articular (6,4%) e periarticular (6,0%), exercício (5,7%), hidroterapia (3,2%), acupunctura (2,7%), osteopatia (0,9%), “endireita” (0,5%), naturopatia (0,3%), homeopatia (0,3%) e fitoterapia (0,3%) e quiropraxia (0,1%). Outros 0,6% da amostra recorre a “outras” intervenções não farmacológicas. Considerando esta amostra de doentes, 15,1%, 32,4% e 75% dos doentes utilizam terapêuticas não farmacológicas aquando da utilização dos fármacos do degrau I, II e III da escada analgésica da OMS, respectivamente, para o alívio da dor. Conclusões: A percentagem de medicamentos utilizados para o alívio da dor na amostra de doentes com OA do joelho foi baixa, e não respeitou a escada analgésica da OMS. O uso de analgésicos opiáceos para a dor moderada e forte (degraus II e III) foi conservador. Foram identificados factores socio-demográficos (sexo e/ou idade), clínicos (intensidade da dor no joelho), e comportamentais (prática de exercício físico) potencialmente associados à utilização de fármacos dos degraus I e II da escada analgésica da OMS para o alívio da dor. Não foram encontradas variáveis explicativas (em termos estatísticos) de fármacos de “degrau III” da escada analgésica da OMS. Tal poderá indiciar que os factores determinantes à utilização deste tipo de fármacos, depende mais do prescritor do que do doente. A percentagem de utilização de terapêuticas não farmacológicas é pouco expressiva. Das variáveis analisadas, apenas se verificaram associações estatisticamente significativas entre a utilização de terapêuticas não farmacológicas e a utilização de medicamentos de degrau II e III da escada analgésica da OMS. No entanto, maioria dos doentes não utiliza terapêuticas não farmacológicas aquando da utilização dos fármacos da escada analgésica da OMS para o alívio da dor. Embora tenham sido identificados determinados factores potencialmente associados à utilização de fármacos dos degraus I e II, há necessidade da realização de estudos propectivos que possam aprofundar os resultados, criar novas hipóteses de investigação e colmatar as limitações deste estudo. |
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| Autores principais: | Oliveira, Tânia Figueiredo Gomes de |
| Assunto: | Osteoartrose do joelho Tratamento Dor Comorbilidades Teses de mestrado - 2019 |
| Ano: | 2019 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Introdução: O estudo epidemiológico de doenças reumáticas em Portugal (EpiReumaPt) teve como principal objectivo a determinação da prevalência das principais doenças reumáticas no país. Permitiu, também, a identificação de factores sociodemográficos, socioeconómicos e clínicos associados ao diagnóstico de doenças reumáticas, bem como a determinação do impacto destas doenças na qualidade de vida, função e capacidade laboral dos doentes. Apesar desta recente caracterização de determinantes e consequência psicossocial das doenças reumáticas, pouco se conhece sobre a gestão da dor em doentes portugueses com diferentes doenças reumáticas não inflamatórias, nas quais se incluem a osteoartrose do joelho. A prevalência da osteoartrose do joelho, patologia em estudo, em Portugal é de 12,4% (11,0% - 13,8%), sendo mais prevalente no sexo feminino, 15,8% (13,7% - 17,8%), do que no sexo masculino, 8,6% (6,9% - 10,3%). Objectivos: Os objectivos gerais deste estudo foram (a) caracterizar as terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas utilizadas pela população adulta (idade maior ou igual a 18 anos) portuguesa com o diagnóstico de osteoartrose do joelho, para alívio da dor associada a esta patologia, (b) identificar factores sócio-demográficos, socioeconómicos, clínicos e comportamentais destes doentes que poderão estar associados à utilização de fármacos para alívio da dor, e (c) avaliar a concordância entre as práticas terapêuticas farmacológicas e as recomendações da “Escada analgésica da OMS”. Material e métodos: Desenho observacional transversal, realizado através de análise secundária de dados recolhidos na primeira e segunda fases do projecto EpireumaPt. Os métodos de amostragem e recolha de dados foram os utilizados no EpireumaPt. Os participantes foram seleccionados através de um processo de amostragem probabilística multietápica, tendo-se obtido uma amostra representativa da população portuguesa, com 10 661 indivíduos. A amostra foi estratificada por região NUTS II e por dimensão da localidade. A caracterização das terapêuticas não farmacológicas e da utilização de fármacos para o alívio da dor foram efectuados por análise descritiva univariada. A análise dos possíveis factores que lhe poderiam estar associados foi efectuada por regressão logística. A “Escada analgésica da OMS” foi utilizada como gold standard para a abordagem terapêutica da dor nos doentes em estudo. Resultados: Foram incluídos 981 doentes com osteoartrose do joelho, nesta análise secundária. Em relação à toma dos medicamentos pertencentes aos grupos terapêuticos da escada analgésica da OMS, os três tipos de medicamentos mais utilizados pelos doentes foram os “ansiolíticos, sedativos e hipnóticos” (24,6%), os “AINE” (20,2%) e os “antidepressores” (14,7%). Apenas 6,9% da amostra utiliza analgésicos e antipiréticos e 4,2% analgésicos estupefacientes. Os medicamentos do degrau I são os mais utilizados pelos doentes da amostra (83,7%), seguido dos medicamentos do degrau II (14,7%) e por fim do degrau III (1,6%). No entanto, a maioria dos doentes apresenta dor intensa (47,8%), seguida de dor moderada (35,6%), dor máxima (6,7%) e dor ligeira (5,3%). As variáveis sexo, rendimento familiar, ansiedade e intensidade da dor no joelho foram identificadas como factores potencialmente associados à utilização de fármacos dos degraus I e II da escada analgésica da OMS para o alívio da dor. Nenhuma das variáveis utilizadas na regressão logística para a variável dependente “degrau III” revelou qualquer associação com esta indicador de farmacoterapia. Em relação às terapêuticas não farmacológicas, apenas 14,6% da amostra recorreu a elas. A sua maior utilização é efectuada por mulheres (15,9%), doentes entre os 18 e os 29 anos (20,0%), doentes com maior nível de instrução, reformados (69,0%) e doentes com dor intensa (48,6%). As intervenções não farmacológicas utilizadas pela amostra de doentes com OA do joelho foram: a reabilitação (30,7%), cinesioterapia (8,1%), infiltrações intra-articular (6,4%) e periarticular (6,0%), exercício (5,7%), hidroterapia (3,2%), acupunctura (2,7%), osteopatia (0,9%), “endireita” (0,5%), naturopatia (0,3%), homeopatia (0,3%) e fitoterapia (0,3%) e quiropraxia (0,1%). Outros 0,6% da amostra recorre a “outras” intervenções não farmacológicas. Considerando esta amostra de doentes, 15,1%, 32,4% e 75% dos doentes utilizam terapêuticas não farmacológicas aquando da utilização dos fármacos do degrau I, II e III da escada analgésica da OMS, respectivamente, para o alívio da dor. Conclusões: A percentagem de medicamentos utilizados para o alívio da dor na amostra de doentes com OA do joelho foi baixa, e não respeitou a escada analgésica da OMS. O uso de analgésicos opiáceos para a dor moderada e forte (degraus II e III) foi conservador. Foram identificados factores socio-demográficos (sexo e/ou idade), clínicos (intensidade da dor no joelho), e comportamentais (prática de exercício físico) potencialmente associados à utilização de fármacos dos degraus I e II da escada analgésica da OMS para o alívio da dor. Não foram encontradas variáveis explicativas (em termos estatísticos) de fármacos de “degrau III” da escada analgésica da OMS. Tal poderá indiciar que os factores determinantes à utilização deste tipo de fármacos, depende mais do prescritor do que do doente. A percentagem de utilização de terapêuticas não farmacológicas é pouco expressiva. Das variáveis analisadas, apenas se verificaram associações estatisticamente significativas entre a utilização de terapêuticas não farmacológicas e a utilização de medicamentos de degrau II e III da escada analgésica da OMS. No entanto, maioria dos doentes não utiliza terapêuticas não farmacológicas aquando da utilização dos fármacos da escada analgésica da OMS para o alívio da dor. Embora tenham sido identificados determinados factores potencialmente associados à utilização de fármacos dos degraus I e II, há necessidade da realização de estudos propectivos que possam aprofundar os resultados, criar novas hipóteses de investigação e colmatar as limitações deste estudo. |
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