Publicação

Efeitos do fogo controlado na composição e estrutura de comunidades de pequenos mamíferos não-voadores (Ordens Didelphimorphia e Rodentia) no cerrado brasileiro

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:Um dos principais focos da ecologia é a determinação dos padrões de distribuição e abundância das espécies nos ecossistemas e dos mecanismos que os determinam. O conhecimento destes padrões e determinantes permite entender, de uma forma mais abrangente, quais os efeitos das alterações ambientais, como a perda de habitat, na taxa de extinção das espécies. A perda de biodiversidade global tem atingido taxas exponenciais, devido às extinções em massa que se têm registado nas últimas décadas, muitas vezes associadas a alterações climáticas e a perturbações antropogénicas, que determinam, por exemplo, a degradação e transformação de habitat. Em contrapartida, as perturbações naturais são fenómenos recorrentes nos ecossistemas que ainda não compreendemos completamente e, por isso, têm sido realizados muitos estudos para entender estes processos ecológicos e prever quais as respostas que a fauna e flora adotam face a essas perturbações, como por exemplo, o fogo natural. O fogo é um agente de perturbação direta dos ecossistemas terrestres, que provoca a destruição da vegetação e induz alterações na estrutura e composição das comunidades de flora e fauna residentes. Em certos ecossistemas, como o Cerrado (Brasil), o fogo é um fator determinante para a manutenção do equilíbrio do próprio ecossistema, uma vez que tem um papel nuclear na dinâmica populacional das comunidades de flora e fauna residentes. No entanto, os resultados de estudos previamente realizados, no que toca ao impacto dos incêndios do Cerrado nos pequenos mamíferos, mostram uma elevada variação no tipo e escala do efeito do fogo nas comunidades naturais. Enquanto alguns estudos comprovam que as comunidades de pequenos mamíferos são favorecidas por esta perturbação, outros indicam o contrário. Desta forma, os estudos já realizados são insuficientes para avaliar, de uma forma clara, os efeitos do fogo nas comunidades de pequenos mamíferos, no Cerrado. Assim, para colmatar esta lacuna de informação e contribuir para o debate atual sobre o efeito do fogo nas comunidades animais, este estudo tem como objetivo averiguar qual o efeito do fogo controlado na composição e estrutura dessas comunidades, em duas fisionomias diferentes de Cerrado – campo sujo e campo cerrado – incluídas na Estação Ecológica de Santa Bárbara, estado de São Paulo (Brasil). Em ambas as fisionomias, e antes e depois dos eventos de fogo controlado, estimámos a abundância relativa, riqueza específica e diversidade das espécies de roedores e marsupiais presentes, bem como aferimos quais os fatores ambientais e paisagísticos que determinam essas métricas, bem como a presença das espécies. As respostas demonstram que algumas espécies de roedores, como Oligoryzomys mattogrossae, Akodon montensis, Calomys tener e Cerradomys scotti são favorecidas pela ocorrência do fogo, por selecionarem habitats com uma cobertura vegetal menos densa, e porque há um atraso na resposta numérica dos predadores (i.e. em termos populacionais, os roedores respondem mais rapidamente que os predadores a eventos de fogo). Contrariamente, as espécies de marsupiais apresentaram seletividade por estádios mais avançados na sucessão, onde o estrato arbóreo está presente. Tanto a riqueza específica como a diversidade foram afetadas positivamente pelo fogo, possivelmente pelo facto de os taxa de pequenos mamíferos presentes serem mais resilientes a esta perturbação que os seus predadores. Por outro lado, as variações climáticas (i.e. temperatura e evapotranspiração), a paisagem (i.e. a cobertura de diferentes fisionomias) e a ocorrência do fogo foram os fatores mais determinantes dos padrões de riqueza específica, diversidade e abundância das espécies que compõem as comunidades de roedores e marsupiais do Cerrado. Desta forma, o uso de fogo prescrito em unidades de conservação no Cerrado, pode ser uma ferramenta para garantir a heterogeneidade de habitat, e consequentemente, manter a dinâmica das comunidades de pequenos mamíferos e, assim, assegurar a manutenção da biodiversidade.
Autores principais:Marques, Patrícia Andreia Rodrigues
Assunto:Campo sujo Campo cerrado Marcação e recaptura Pequenos mamíferos Fogo controlado Teses de mestrado - 2020
Ano:2020
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Um dos principais focos da ecologia é a determinação dos padrões de distribuição e abundância das espécies nos ecossistemas e dos mecanismos que os determinam. O conhecimento destes padrões e determinantes permite entender, de uma forma mais abrangente, quais os efeitos das alterações ambientais, como a perda de habitat, na taxa de extinção das espécies. A perda de biodiversidade global tem atingido taxas exponenciais, devido às extinções em massa que se têm registado nas últimas décadas, muitas vezes associadas a alterações climáticas e a perturbações antropogénicas, que determinam, por exemplo, a degradação e transformação de habitat. Em contrapartida, as perturbações naturais são fenómenos recorrentes nos ecossistemas que ainda não compreendemos completamente e, por isso, têm sido realizados muitos estudos para entender estes processos ecológicos e prever quais as respostas que a fauna e flora adotam face a essas perturbações, como por exemplo, o fogo natural. O fogo é um agente de perturbação direta dos ecossistemas terrestres, que provoca a destruição da vegetação e induz alterações na estrutura e composição das comunidades de flora e fauna residentes. Em certos ecossistemas, como o Cerrado (Brasil), o fogo é um fator determinante para a manutenção do equilíbrio do próprio ecossistema, uma vez que tem um papel nuclear na dinâmica populacional das comunidades de flora e fauna residentes. No entanto, os resultados de estudos previamente realizados, no que toca ao impacto dos incêndios do Cerrado nos pequenos mamíferos, mostram uma elevada variação no tipo e escala do efeito do fogo nas comunidades naturais. Enquanto alguns estudos comprovam que as comunidades de pequenos mamíferos são favorecidas por esta perturbação, outros indicam o contrário. Desta forma, os estudos já realizados são insuficientes para avaliar, de uma forma clara, os efeitos do fogo nas comunidades de pequenos mamíferos, no Cerrado. Assim, para colmatar esta lacuna de informação e contribuir para o debate atual sobre o efeito do fogo nas comunidades animais, este estudo tem como objetivo averiguar qual o efeito do fogo controlado na composição e estrutura dessas comunidades, em duas fisionomias diferentes de Cerrado – campo sujo e campo cerrado – incluídas na Estação Ecológica de Santa Bárbara, estado de São Paulo (Brasil). Em ambas as fisionomias, e antes e depois dos eventos de fogo controlado, estimámos a abundância relativa, riqueza específica e diversidade das espécies de roedores e marsupiais presentes, bem como aferimos quais os fatores ambientais e paisagísticos que determinam essas métricas, bem como a presença das espécies. As respostas demonstram que algumas espécies de roedores, como Oligoryzomys mattogrossae, Akodon montensis, Calomys tener e Cerradomys scotti são favorecidas pela ocorrência do fogo, por selecionarem habitats com uma cobertura vegetal menos densa, e porque há um atraso na resposta numérica dos predadores (i.e. em termos populacionais, os roedores respondem mais rapidamente que os predadores a eventos de fogo). Contrariamente, as espécies de marsupiais apresentaram seletividade por estádios mais avançados na sucessão, onde o estrato arbóreo está presente. Tanto a riqueza específica como a diversidade foram afetadas positivamente pelo fogo, possivelmente pelo facto de os taxa de pequenos mamíferos presentes serem mais resilientes a esta perturbação que os seus predadores. Por outro lado, as variações climáticas (i.e. temperatura e evapotranspiração), a paisagem (i.e. a cobertura de diferentes fisionomias) e a ocorrência do fogo foram os fatores mais determinantes dos padrões de riqueza específica, diversidade e abundância das espécies que compõem as comunidades de roedores e marsupiais do Cerrado. Desta forma, o uso de fogo prescrito em unidades de conservação no Cerrado, pode ser uma ferramenta para garantir a heterogeneidade de habitat, e consequentemente, manter a dinâmica das comunidades de pequenos mamíferos e, assim, assegurar a manutenção da biodiversidade.