Publicação
A experiência vivida dos profissionais de medicina com pedidos de eutanásia e de suicídio medicamente assistido
| Resumo: | Contexto: Existe evidência empírica de que alguns médicos oncologistas portugueses receberam pedidos explícitos, persistentes e bem-refletidos de eutanásia (EUT) e suicídio medicamente assistido (SMA), formulados por pessoas com doenças incuráveis, avançadas e progressivas. Todavia, pouco se sabe sobre o modo como os oncologistas e os médicos portugueses de outras especialidades experienciam os pedidos de morte medicamente assistida (MMA), interpretam esses pedidos, deliberam e respondem aos doentes que lhes solicitam ajuda médica para morrer. Objetivos: Compreender a natureza das experiências vividas por profissionais de Medicina com pedidos de EUT e SMA que lhes foram dirigidos por doentes adultos e mentalmente competentes durante a prática clínica. Apreender e interpretar os múltiplos significados que as experiências com pedidos de MMA tiveram para os médicos que as vivenciaram. Metodologia e Participantes: Investigação fenomenológico-hermenêutica, de cariz exploratório, descritivo e interpretativo, na qual participaram nove médicos portugueses, especialistas em Anestesiologia, Medicina Interna e Paliativa, Hematologia Clínica, Oncologia Médica, Nefrologia e Neurologia, que exercem e exerceram até à reforma a prática clínica em unidades hospitalares públicas e privadas. O material experiencial sobre os pedidos de EUT e de SMA foi recolhido entre Junho e Outubro de 2014, através de entrevistas semi-diretivas, áudio-gravadas e transcritas na íntegra; tendo sido, posteriormente, submetido a análises temáticas para descobrir os seus núcleos de sentido. Resultados: Quatro temas fenomenológicos emergentes das entrevistas. Tema I-Estar Aberto para Ouvir os Pedidos de MMA revelou que ficar para ouvi-los foi uma escolha difícil e que a recepção de pedidos explícitos foi a mais frequente, tendo sido raros os pedidos implícitos. Todos os médicos receberam pedidos de EUT, tendo os pedidos de SMA sido recebidos só por dois médicos. Tema II-Interpretar e Explorar os Significados dos Pedidos de MMA: a interpretação incluiu manifestações de sofrimento existencial/altruísta, racionalização da situação clínica e ausência de esperança, perda de autonomia, redução da qualidade de vida e degradação física; tendo a exploração de pedidosfracassos de EUT sido evitada por evasão, a exploração de pedidos-ordens de EUT sido bloqueada por inaptidão; e a exploração de pedidos de MMA sido consolidada por escalpelização. Tema III-Responder aos Pedidos de MMA traduziu-se na recusa explícita pela maioria dos entrevistados, que em alternativa implementou três decisões médicas em fim de vida: controlo sintomático e cuidados paliativos (três médicos), a par da sedação paliativa (três médicos). Atipicamente, a recusa explícita de um pedido de EUT, a par da permissão implícita da concretização do plano de um doente (colega de profissão) e um membro próximo da família (enfermeira), ocorreu uma vez. Os únicos dois médicos que aceitaram pedidos de MMA estiveram, respetivamente, envolvidos num ato de SMA (prescrevendo fármacos em doses letais e fornecendo instruções necessárias para a utilização dos mesmos por parte de um doente que faleceu sem os ter auto-administrado) e em quatro atos de EUT (administrando fármacos em doses letais a doentes e a amigos que morreram na sequência da hetero-administração desses fármacos). Estas sete respostas negativas aos pedidos de MMA foram justificadas com base em restrições deontológicas e constrangimentos legais, enquanto as respostas positivas aos pedidos de SMA e de EUT atenderam às circunstâncias específicas dos doentes e dos amigos com quem haviam pré-estabelecido duradouras relações terapêuticas e de amizade (a par de relações profissionais, num caso). Tema IV-Refletir sobre os Pedidos de MMA recebidos implicou: olhar para trás e reviver experiências perturbadoras, conflituantes e emocionalmente dolorosas com pedidos e com práticas ilícitas de MMA; olhar em frente e constatar que a maioria dos entrevistados é tendencialmente favorável à legalização da MMA em Portugal, mas teria sérias reservas a prestar auxílio no suicídio e, sobretudo, a estar envolvido em práticas de EUT; e observar a existência de um código de silêncio sobre as práticas subterrâneas de MMA no momento presente. Conclusão: Os entrevistados revelaram que a experiência da recepção de pedidos de MMA é um fenómeno raro no decurso das suas trajetórias profissionais, isto apesar de ter causado um forte impacto emocional e desafiado as suas fronteiras morais. Enquanto a maioria dos médicos os recusou liminarmente, uma minoria de entrevistados sentiu-se compelida a aceitar os pedidos de MMA formulados por doentes e por colegas de profissão com quem mantinham longas relações terapêuticas e de amizade. Estas práticas subterrâneas de EUT e SMA foram silenciadas e mantidas em segredo, num ambiente de cumplicidade e conluio. Os médicos envolvidos na prestação de cuidados em fim de vida precisam de encontrar um lugar seguro na profissão para partilhar as suas experiências com pedidos de MMA e beneficiariam da implementação de um modelo colaborativo e de consultoria para discuti-los, que incluísse o acesso regular a cuidados paliativos, aconselhamento psiquiátrico e o parecer célere das comissões de ética hospitalares. |
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| Autores principais: | Marques, Tatiana dos Santos, 1987- |
| Assunto: | Eutanásia Suicídio medicamente assistido Morte medicamente assistida Pedidos Experiência vivida Fenomenologia hermenêutica Teses de mestrado - 2017 |
| Ano: | 2017 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Contexto: Existe evidência empírica de que alguns médicos oncologistas portugueses receberam pedidos explícitos, persistentes e bem-refletidos de eutanásia (EUT) e suicídio medicamente assistido (SMA), formulados por pessoas com doenças incuráveis, avançadas e progressivas. Todavia, pouco se sabe sobre o modo como os oncologistas e os médicos portugueses de outras especialidades experienciam os pedidos de morte medicamente assistida (MMA), interpretam esses pedidos, deliberam e respondem aos doentes que lhes solicitam ajuda médica para morrer. Objetivos: Compreender a natureza das experiências vividas por profissionais de Medicina com pedidos de EUT e SMA que lhes foram dirigidos por doentes adultos e mentalmente competentes durante a prática clínica. Apreender e interpretar os múltiplos significados que as experiências com pedidos de MMA tiveram para os médicos que as vivenciaram. Metodologia e Participantes: Investigação fenomenológico-hermenêutica, de cariz exploratório, descritivo e interpretativo, na qual participaram nove médicos portugueses, especialistas em Anestesiologia, Medicina Interna e Paliativa, Hematologia Clínica, Oncologia Médica, Nefrologia e Neurologia, que exercem e exerceram até à reforma a prática clínica em unidades hospitalares públicas e privadas. O material experiencial sobre os pedidos de EUT e de SMA foi recolhido entre Junho e Outubro de 2014, através de entrevistas semi-diretivas, áudio-gravadas e transcritas na íntegra; tendo sido, posteriormente, submetido a análises temáticas para descobrir os seus núcleos de sentido. Resultados: Quatro temas fenomenológicos emergentes das entrevistas. Tema I-Estar Aberto para Ouvir os Pedidos de MMA revelou que ficar para ouvi-los foi uma escolha difícil e que a recepção de pedidos explícitos foi a mais frequente, tendo sido raros os pedidos implícitos. Todos os médicos receberam pedidos de EUT, tendo os pedidos de SMA sido recebidos só por dois médicos. Tema II-Interpretar e Explorar os Significados dos Pedidos de MMA: a interpretação incluiu manifestações de sofrimento existencial/altruísta, racionalização da situação clínica e ausência de esperança, perda de autonomia, redução da qualidade de vida e degradação física; tendo a exploração de pedidosfracassos de EUT sido evitada por evasão, a exploração de pedidos-ordens de EUT sido bloqueada por inaptidão; e a exploração de pedidos de MMA sido consolidada por escalpelização. Tema III-Responder aos Pedidos de MMA traduziu-se na recusa explícita pela maioria dos entrevistados, que em alternativa implementou três decisões médicas em fim de vida: controlo sintomático e cuidados paliativos (três médicos), a par da sedação paliativa (três médicos). Atipicamente, a recusa explícita de um pedido de EUT, a par da permissão implícita da concretização do plano de um doente (colega de profissão) e um membro próximo da família (enfermeira), ocorreu uma vez. Os únicos dois médicos que aceitaram pedidos de MMA estiveram, respetivamente, envolvidos num ato de SMA (prescrevendo fármacos em doses letais e fornecendo instruções necessárias para a utilização dos mesmos por parte de um doente que faleceu sem os ter auto-administrado) e em quatro atos de EUT (administrando fármacos em doses letais a doentes e a amigos que morreram na sequência da hetero-administração desses fármacos). Estas sete respostas negativas aos pedidos de MMA foram justificadas com base em restrições deontológicas e constrangimentos legais, enquanto as respostas positivas aos pedidos de SMA e de EUT atenderam às circunstâncias específicas dos doentes e dos amigos com quem haviam pré-estabelecido duradouras relações terapêuticas e de amizade (a par de relações profissionais, num caso). Tema IV-Refletir sobre os Pedidos de MMA recebidos implicou: olhar para trás e reviver experiências perturbadoras, conflituantes e emocionalmente dolorosas com pedidos e com práticas ilícitas de MMA; olhar em frente e constatar que a maioria dos entrevistados é tendencialmente favorável à legalização da MMA em Portugal, mas teria sérias reservas a prestar auxílio no suicídio e, sobretudo, a estar envolvido em práticas de EUT; e observar a existência de um código de silêncio sobre as práticas subterrâneas de MMA no momento presente. Conclusão: Os entrevistados revelaram que a experiência da recepção de pedidos de MMA é um fenómeno raro no decurso das suas trajetórias profissionais, isto apesar de ter causado um forte impacto emocional e desafiado as suas fronteiras morais. Enquanto a maioria dos médicos os recusou liminarmente, uma minoria de entrevistados sentiu-se compelida a aceitar os pedidos de MMA formulados por doentes e por colegas de profissão com quem mantinham longas relações terapêuticas e de amizade. Estas práticas subterrâneas de EUT e SMA foram silenciadas e mantidas em segredo, num ambiente de cumplicidade e conluio. Os médicos envolvidos na prestação de cuidados em fim de vida precisam de encontrar um lugar seguro na profissão para partilhar as suas experiências com pedidos de MMA e beneficiariam da implementação de um modelo colaborativo e de consultoria para discuti-los, que incluísse o acesso regular a cuidados paliativos, aconselhamento psiquiátrico e o parecer célere das comissões de ética hospitalares. |
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