Publicação
Práticas inclusivas em contextos multiculturais : contributos do trabalho colaborativo associado a tarefas interculturais numa turma do 7º ano de escolaridade
| Resumo: | O alargamento da escolaridade obrigatória levou Portugal a deparar-se com uma Escola cada vez mais diversificada, transformando-se num espaço multicultural onde coexistem diferentes culturas e etnias. Para acompanhar esta profunda transformação no sistema de ensino, as instituições escolares vêem-se obrigadas a responder aos novos desafios que lhes são colocados, passando os ideais expressos nos documentos de política educativa para a prática, mostrando como se implementa uma Escola para Todos (Ainscow, 1999; César, 2003; César & Ainscow, 2006). Cabe-lhes, agora, a responsabilidade de incluir, da melhor forma possível, todos os alunos que apresentam características muito diferentes no que respeita às motivações, projectos de vida, competências, meios-culturais de origem, desenvolvimento cognitivo e sócio-afectivo, evitando a sua marginalização e adoptando formas de actuação apropriadas às características, interesses, conhecimentos e competências destes novos alunos (César, 2000a; César & Santos, 2006, Favilli, 2000). Já há longa data que a Matemática surge como uma das disciplinas onde se registam das mais elevadas taxas de insucesso académico, sobretudo no ensino básico, tornando-se uma fonte de preocupação do sistema educativo português. Devido a um passado de insucessos repetidos a esta disciplina, muitos dos alunos convenceram-se de que não têm aptidão para estudar Matemática, conotando-a como uma disciplina que apenas se destina a alunos com elevadas capacidades académicas (César, 2000c; Rijo, Loureiro, & César, 2002). A sociedade, de uma maneira geral, reforça este sentimento manifestado pelos alunos, assim como pelos media, aceitando-se que o insucesso nesta disciplina é algo esperado, tornando-se até, na maioria dos casos, desculpabilizado pelos encarregados de educação e, até, socialmente (César, 1994; Vieira, 2001). Desta forma, são muitos os alunos que terminam o ensino básico sem terem apropriado os conhecimentos e desenvolvido as competências essenciais, ou seja, aquilo que actualmente se designa por literacia Matemática. Esta investigação baseou-se nestas duas grandes preocupações: a inclusão de alunos culturalmente distintos e a necessidade de modificar fortes sentimentos de rejeição relativamente à Matemática, ao nível do ensino básico. Neste sentido, a investigação centrou-se no estudo do alcance e das potencialidades de diferentes tipos de tarefas, tendo por base o trabalho colaborativo, na aula de Matemática, num contexto multicultural. O trabalho foi realizado com alunos do 7º ano de escolaridade, de uma escola secundária da zona de Sintra. No âmbito desta problemática foram identificadas quatro grandes questões, que foram investigadas a partir da evolução dos alunos da turma, em geral e, dentro desta, de quatro alunos, em particular: (1) Como adaptar o currículo à diversidade dos alunos da turma numa perspectiva de educação intercultural? (2) Como incluir os alunos, culturalmente distintos, na escola e, em particular, na sala de aula? (3) Como evoluiu a representação social da Matemática e da sua aprendizagem num contexto de práticas interculturais e colaborativas? (4) Qual o papel do trabalho colaborativo e do trabalho em díade na inclusão escolar de alunos culturalmente distintos? Esta investigação faz parte do projecto Interacção e Conhecimento, cujo principal objectivo é o estudo e a implementação do trabalho colaborativo em contexto de sala de aula. Dentro deste projecto inseriu-se no Nível 2, ou seja, num nível de investigação-acção. Tendo em conta os objectivos desta investigação, optou-se por uma abordagem interpretativa- /qualitativa, que se revelou mais adequada face ao problema em estudo e ao quadro de referência teórico em que se situa. Todos os alunos do estudo (n = 27) realizaram várias tarefas de índole intercultural, responderam por escrito a vários questionários e a uma tarefa de inspiração projectiva, bem como a uma tarefa de avaliação de competências. Foi também realizada uma recolha documental na escola. Após a análise dos dados recolhidos através destes instrumentos, seleccionaram-se 4 alunos como informadores privilegiados (2 do sexo feminino e 2 do sexo masculino), estando todos eles a viver de diferentes formas o processo de inclusão escolar. Os principais resultados desta investigação foram os seguintes: (1) o trabalho colaborativo desempenhou um papel fundamental na promoção do sucesso académico dos alunos, alterando a sua representação social da Matemática, passando estes alunos a revelar prazer em trabalhar nesta disciplina; (2) a implementação de tarefas não habituais (César, 1994) e de âmbito intercultural fomentou um aumento do interesse dos alunos pela disciplina, promovendo a sua socialização, sobretudo dos que inicialmente se encontravam mais excluídos; (3) a representação social que os alunos tinham da disciplina de Matemática, do seu papel como alunos e do papel do professor, evoluíram ao longo do ano, passando-se de uma visão tradicional para uma visão inovadora; (4) o papel do professor e das práticas de sala de aula foram extremamente importantes na construção da representação social que os alunos tinham da Matemática, assim como no processo de inclusão académica dos alunos, nomeadamente dos que eram culturalmente distintos. A promoção de atitudes mais positivas face à Matemática, preparando os alunos para o exercício de uma cidadania plena e participativa (Abrantes, Serrazina, & Oliveira, 1999) foram metas alcançadas nesta investigação e que deixaram um ponto de partida para a reflexão sobre as relações que se estabelecem entre os diversos agentes da cena educativa (César, 2003). |
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| Autores principais: | Lopes, Maria de Fátima Chaveiro Caçador, 1973- |
| Assunto: | Educação intercultural Inclusão Educação matemática Envolvimento dos alunos Teses de mestrado - 2006 |
| Ano: | 2006 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso restrito |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | O alargamento da escolaridade obrigatória levou Portugal a deparar-se com uma Escola cada vez mais diversificada, transformando-se num espaço multicultural onde coexistem diferentes culturas e etnias. Para acompanhar esta profunda transformação no sistema de ensino, as instituições escolares vêem-se obrigadas a responder aos novos desafios que lhes são colocados, passando os ideais expressos nos documentos de política educativa para a prática, mostrando como se implementa uma Escola para Todos (Ainscow, 1999; César, 2003; César & Ainscow, 2006). Cabe-lhes, agora, a responsabilidade de incluir, da melhor forma possível, todos os alunos que apresentam características muito diferentes no que respeita às motivações, projectos de vida, competências, meios-culturais de origem, desenvolvimento cognitivo e sócio-afectivo, evitando a sua marginalização e adoptando formas de actuação apropriadas às características, interesses, conhecimentos e competências destes novos alunos (César, 2000a; César & Santos, 2006, Favilli, 2000). Já há longa data que a Matemática surge como uma das disciplinas onde se registam das mais elevadas taxas de insucesso académico, sobretudo no ensino básico, tornando-se uma fonte de preocupação do sistema educativo português. Devido a um passado de insucessos repetidos a esta disciplina, muitos dos alunos convenceram-se de que não têm aptidão para estudar Matemática, conotando-a como uma disciplina que apenas se destina a alunos com elevadas capacidades académicas (César, 2000c; Rijo, Loureiro, & César, 2002). A sociedade, de uma maneira geral, reforça este sentimento manifestado pelos alunos, assim como pelos media, aceitando-se que o insucesso nesta disciplina é algo esperado, tornando-se até, na maioria dos casos, desculpabilizado pelos encarregados de educação e, até, socialmente (César, 1994; Vieira, 2001). Desta forma, são muitos os alunos que terminam o ensino básico sem terem apropriado os conhecimentos e desenvolvido as competências essenciais, ou seja, aquilo que actualmente se designa por literacia Matemática. Esta investigação baseou-se nestas duas grandes preocupações: a inclusão de alunos culturalmente distintos e a necessidade de modificar fortes sentimentos de rejeição relativamente à Matemática, ao nível do ensino básico. Neste sentido, a investigação centrou-se no estudo do alcance e das potencialidades de diferentes tipos de tarefas, tendo por base o trabalho colaborativo, na aula de Matemática, num contexto multicultural. O trabalho foi realizado com alunos do 7º ano de escolaridade, de uma escola secundária da zona de Sintra. No âmbito desta problemática foram identificadas quatro grandes questões, que foram investigadas a partir da evolução dos alunos da turma, em geral e, dentro desta, de quatro alunos, em particular: (1) Como adaptar o currículo à diversidade dos alunos da turma numa perspectiva de educação intercultural? (2) Como incluir os alunos, culturalmente distintos, na escola e, em particular, na sala de aula? (3) Como evoluiu a representação social da Matemática e da sua aprendizagem num contexto de práticas interculturais e colaborativas? (4) Qual o papel do trabalho colaborativo e do trabalho em díade na inclusão escolar de alunos culturalmente distintos? Esta investigação faz parte do projecto Interacção e Conhecimento, cujo principal objectivo é o estudo e a implementação do trabalho colaborativo em contexto de sala de aula. Dentro deste projecto inseriu-se no Nível 2, ou seja, num nível de investigação-acção. Tendo em conta os objectivos desta investigação, optou-se por uma abordagem interpretativa- /qualitativa, que se revelou mais adequada face ao problema em estudo e ao quadro de referência teórico em que se situa. Todos os alunos do estudo (n = 27) realizaram várias tarefas de índole intercultural, responderam por escrito a vários questionários e a uma tarefa de inspiração projectiva, bem como a uma tarefa de avaliação de competências. Foi também realizada uma recolha documental na escola. Após a análise dos dados recolhidos através destes instrumentos, seleccionaram-se 4 alunos como informadores privilegiados (2 do sexo feminino e 2 do sexo masculino), estando todos eles a viver de diferentes formas o processo de inclusão escolar. Os principais resultados desta investigação foram os seguintes: (1) o trabalho colaborativo desempenhou um papel fundamental na promoção do sucesso académico dos alunos, alterando a sua representação social da Matemática, passando estes alunos a revelar prazer em trabalhar nesta disciplina; (2) a implementação de tarefas não habituais (César, 1994) e de âmbito intercultural fomentou um aumento do interesse dos alunos pela disciplina, promovendo a sua socialização, sobretudo dos que inicialmente se encontravam mais excluídos; (3) a representação social que os alunos tinham da disciplina de Matemática, do seu papel como alunos e do papel do professor, evoluíram ao longo do ano, passando-se de uma visão tradicional para uma visão inovadora; (4) o papel do professor e das práticas de sala de aula foram extremamente importantes na construção da representação social que os alunos tinham da Matemática, assim como no processo de inclusão académica dos alunos, nomeadamente dos que eram culturalmente distintos. A promoção de atitudes mais positivas face à Matemática, preparando os alunos para o exercício de uma cidadania plena e participativa (Abrantes, Serrazina, & Oliveira, 1999) foram metas alcançadas nesta investigação e que deixaram um ponto de partida para a reflexão sobre as relações que se estabelecem entre os diversos agentes da cena educativa (César, 2003). |
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