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Garção num bairro moderno: que linguagem para a poesia?

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Resumo:Sendo a segunda metade do século XVIII, em Portugal, marcada pela convivência de tendências barrocas e classicizantes, Correia Garção destaca-se, entre aqueles que integraram a Arcádia Lusitana, pela complexidade que subjaz à sua relação com a tradição. No seguimento das reflexões literárias produzidas desde finais do século XVII, o poeta dirige a actividade pedagógica arcádica, dando especial relevo à imitação. Esta institui-se como delicado processo, através do qual se adquirem os instrumentos entendidos como necessários para se assumir a condição de «bom poeta»: são eles o estudo e assimilação dos modelos, gregos, latinos e portugueses de Quinhentos; o uso moderado de uma imaginação que se encontra ao serviço do entendimento; a recuperação da pureza do idioma. A Arcádia pretendeu, adoptando a crítica como método, restaurar a Eloquência e Poesia portuguesas, após um prolongamento excessivo da estética barroca. Correia Garção entendeu o processo imitativo como garantia da consecução dos objectivos arcádicos. Todavia, a sua obra poética não se resume à composição segundo os princípios e regras estipulados pela estética clássica. O poeta reavalia o significado e abrangência do conceito de imitação, conferindo-lhe uma dupla funcionalidade: ora o aplica ao interior da literatura, possibilitando a formação através dos modelos, ora lhe confere uma amplitude extraordinariamente nova, defendendo a superação dos mesmos. O exercício de superação, por si só, era já aclamado por Horácio. Porém, a leitura que Garção faz da Arte Poética do mesmo lança-o numa arrojada descoberta: paralelamente aos motivos clássicos, o poeta compõe sobre quadros retirados do quotidiano lisboeta, empregando uma linguagem nova em poesia, porque coloquial, desprovida de alegorias e construções complexas. Mantendo as formas clássicas, e procurando um espaço mais amplo para fazer poesia, Garção supera a sua própria tradição aproximando-se de um concreto que só se encontrará mais tarde em Cesário Verde. Esta inovação da poesia de Garção justifica então uma reflexão sobre a verdadeira abrangência do Neoclassicismo português.
Autores principais:Rosa, Susana,1977-
Assunto:Garção, Correia, 1724-1772 Arcádia lusitana Poesia portuguesa - séc.18 Imitação (Literatura) Teses de mestrado - 2005
Ano:2005
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Sendo a segunda metade do século XVIII, em Portugal, marcada pela convivência de tendências barrocas e classicizantes, Correia Garção destaca-se, entre aqueles que integraram a Arcádia Lusitana, pela complexidade que subjaz à sua relação com a tradição. No seguimento das reflexões literárias produzidas desde finais do século XVII, o poeta dirige a actividade pedagógica arcádica, dando especial relevo à imitação. Esta institui-se como delicado processo, através do qual se adquirem os instrumentos entendidos como necessários para se assumir a condição de «bom poeta»: são eles o estudo e assimilação dos modelos, gregos, latinos e portugueses de Quinhentos; o uso moderado de uma imaginação que se encontra ao serviço do entendimento; a recuperação da pureza do idioma. A Arcádia pretendeu, adoptando a crítica como método, restaurar a Eloquência e Poesia portuguesas, após um prolongamento excessivo da estética barroca. Correia Garção entendeu o processo imitativo como garantia da consecução dos objectivos arcádicos. Todavia, a sua obra poética não se resume à composição segundo os princípios e regras estipulados pela estética clássica. O poeta reavalia o significado e abrangência do conceito de imitação, conferindo-lhe uma dupla funcionalidade: ora o aplica ao interior da literatura, possibilitando a formação através dos modelos, ora lhe confere uma amplitude extraordinariamente nova, defendendo a superação dos mesmos. O exercício de superação, por si só, era já aclamado por Horácio. Porém, a leitura que Garção faz da Arte Poética do mesmo lança-o numa arrojada descoberta: paralelamente aos motivos clássicos, o poeta compõe sobre quadros retirados do quotidiano lisboeta, empregando uma linguagem nova em poesia, porque coloquial, desprovida de alegorias e construções complexas. Mantendo as formas clássicas, e procurando um espaço mais amplo para fazer poesia, Garção supera a sua própria tradição aproximando-se de um concreto que só se encontrará mais tarde em Cesário Verde. Esta inovação da poesia de Garção justifica então uma reflexão sobre a verdadeira abrangência do Neoclassicismo português.