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A fúria de Aquiles: a tradição e relevância na literatura latina da Antiguidade Tardia

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Resumo:A fúria de Aquiles é a característica mais proeminente da sua personalidade. Μῆνις (“fúria”), que é a primeira palavra do proémio da Ilíada de Homero, é apresentado como tema de toda a epopeia (cf. 1–7). A recepção de Aquiles na literatura grega e latina conheceu uma série de etapas desde Homero até à Antiguidade Tardia. Durante a Antiguidade Tardia, o texto de Homero assumiu um papel significativo como texto didáctico, e o leitor habituou-se a examiná-lo de diferentes perspectivas, o que implicou uma reavaliação das acções e da conduta de Aquiles, incluindo a sua fúria. O papel de Aquiles na cultura e na literatura latinas durante a Antiguidade Tardia ilustra que ele funcionou tanto como exemplum positivo como negativo. Esta ambivalência da sua representação literária é omnipresente na literatura latina da Antiguidade Tardia. Em alguns relatos das acções e palavras de Aquiles, o seu famoso temperamento está ausente; em outros textos, as suas irascibilidade e crueldade estão sublinhadas; e em outros ainda, o uso da violência é retratado tanto negativamente como positivamente por autores latinos, por vezes até pelo mesmo autor. Tanto os aspectos favoráveis como negativos de Aquiles e a sua fúria que aparecem nas obras da Antiguidade Tardia são ligados às aspirações da elite romana e aos valores enfatizados pelos autores cristãos. Aquiles é utilizado como modelo favorável e até mesmo como contraste negativo para o imperador ou para o seu representante quando ele enfrenta o inimigo. Apesar do irascível carácter e da conduta de Aquiles serem vistos negativamente em termos cristãos, a sua reputação como guerreiro feroz parece ter sintetizado, ainda que paradoxalmente, o tipo de carácter forte que apelou à elite romana na luta por manter a sua ascendência, face aos confrontos militares e políticos com os vizinhos bárbaros.
Autores principais:Dominik, William J.
Assunto:Fúria de Aquiles Literatura latina Antiguidade Tardia Recepção de Aquiles Fury of Achilles Reception of Achilles Latin literature Late Antiquity
Ano:2023
País:Portugal
Tipo de documento:artigo
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:A fúria de Aquiles é a característica mais proeminente da sua personalidade. Μῆνις (“fúria”), que é a primeira palavra do proémio da Ilíada de Homero, é apresentado como tema de toda a epopeia (cf. 1–7). A recepção de Aquiles na literatura grega e latina conheceu uma série de etapas desde Homero até à Antiguidade Tardia. Durante a Antiguidade Tardia, o texto de Homero assumiu um papel significativo como texto didáctico, e o leitor habituou-se a examiná-lo de diferentes perspectivas, o que implicou uma reavaliação das acções e da conduta de Aquiles, incluindo a sua fúria. O papel de Aquiles na cultura e na literatura latinas durante a Antiguidade Tardia ilustra que ele funcionou tanto como exemplum positivo como negativo. Esta ambivalência da sua representação literária é omnipresente na literatura latina da Antiguidade Tardia. Em alguns relatos das acções e palavras de Aquiles, o seu famoso temperamento está ausente; em outros textos, as suas irascibilidade e crueldade estão sublinhadas; e em outros ainda, o uso da violência é retratado tanto negativamente como positivamente por autores latinos, por vezes até pelo mesmo autor. Tanto os aspectos favoráveis como negativos de Aquiles e a sua fúria que aparecem nas obras da Antiguidade Tardia são ligados às aspirações da elite romana e aos valores enfatizados pelos autores cristãos. Aquiles é utilizado como modelo favorável e até mesmo como contraste negativo para o imperador ou para o seu representante quando ele enfrenta o inimigo. Apesar do irascível carácter e da conduta de Aquiles serem vistos negativamente em termos cristãos, a sua reputação como guerreiro feroz parece ter sintetizado, ainda que paradoxalmente, o tipo de carácter forte que apelou à elite romana na luta por manter a sua ascendência, face aos confrontos militares e políticos com os vizinhos bárbaros.