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Técnicas de criação de juvenis de M. margaritifera para repovoamentos: sobrevivência e crescimento nas primeiras semanas de vida

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Resumo:O mexilhão-de-rio-do-norte Margaritifera margaritifera (Bivalvia: Unionida) é um dos bivalves de água doce mais ameaçado em todo o mundo, principalmente devido à ausência de recrutamento nas populações naturais. O ciclo de vida desta espécie é marcado pela produção de larvas – gloquídios – que têm obrigatoriamente de parasitar um salmonídeo. Concluído o processo de metamorfose, os juvenis libertam-se do hospedeiro e estabelecem-se na zona hiporeica dos cursos de água. Esta fase pós-parasítica é crítica para a subsistência da espécie, uma vez que os juvenis são particularmente sensíveis a perturbações no meio intersticial. Em Portugal, M. margaritifera ocorre apenas em sete rios da região norte, encontrando-se as populações em risco elevado de extinção. Atualmente, está em curso um plano de recuperação desta espécie que, para além da reabilitação das populações do seu hospedeiro, a truta-de-rio Salmo trutta, e restauro de habitat ecologicamente funcional, inclui um programa de criação de juvenis em cativeiro, para introdução em meio natural e recuperação das populações envelhecidas. Este trabalho teve como principal objetivo contribuir para a otimização das condições de criação de juvenis de M. margaritifera em cativeiro, através da comparação das taxas de sobrevivência e crescimento de indivíduos criados sob diferentes técnicas, nomeadamente em sistema artificial e semi natural. Os juvenis de M. margaritifera foram obtidos através da infeção de trutas-de-rio em condições controladas. Parte dos juvenis foram mantidos em recipientes plásticos sem circulação de água, com alimentação artificial (sistema fechado), e parte em substrato natural em raceway interior, alimentada com água do rio e sem intervenção humana (sistema aberto). Depois de 3 meses em cativeiro, os juvenis foram reintroduzidos em três locais do rio Beça, em sistemas de retenção (tubos de rede) enterrados verticalmente na zona hiporeica. Alguns juvenis foram mantidos em raceway interior, dentro e fora de tubos, de forma a comparar o crescimento de juvenis confinados e a crescer em liberdade e, desta forma, despistar o efeito do sistema de retenção no crescimento dos juvenis. As taxas de sobrevivência e crescimento foram monitorizadas durante o período de cativeiro, ao longo de 3 meses, e no rio, ao longo de 6 semanas, e comparadas entre os vários sistemas. Por último, a sobrevivência e crescimento obtidos em sistema fechado foram comparados com os parâmetros alcançados em programas semelhantes utilizando diferentes dietas. A taxa de sobrevivência dos juvenis criados em sistema fechado decresceu gradualmente ao longo do período experimental, sendo que apenas 15% dos indivíduos sobreviveram ao fim de 3 meses. Estes juvenis atingiram, em média, um comprimento máximo de concha de 452,92 (±48,45) µm. Comparando com a mistura de algas utilizada neste trabalho, concluiu-se que uma dieta à base de algas suplementada com detritos é mais benéfica ao desenvolvimento dos juvenis, provavelmente devido ao seu elevado conteúdo nutricional e ação nitrificante. Não foi possível avaliar a sobrevivência no sistema aberto. Neste sistema, os juvenis atingiram um comprimento médio de 561,49 (±69,99) µm, que corresponde a um incremento em tamanho três vezes superior ao dos juvenis de sistema fechado. A taxa de crescimento dos juvenis criados em raceway foi significativamente maior que a dos juvenis mantidos nos recipientes plásticos. Todos os juvenis introduzidos nos setores a montante e jusante do rio Beça morreram ao fim de duas semanas, quando se observaram condições deficientes de oxigenação do meio intersticial. A taxa de sobrevivência no setor médio para juvenis provenientes de sistema aberto e fechado foi de 30% e 7%, respetivamente. No final da experiência in-situ, não foi detetado crescimento em nenhum dos grupos. Após cerca de dois meses, os juvenis confinados em tubos dentro da raceway exibiram um comprimento de concha significativamente menor do que os juvenis a crescer livremente em substrato natural no mesmo tanque, o que sugere um possível efeito prejudicial do sistema de retenção usado no crescimento dos juvenis. Concluiu-se que, em termos de sistema de criação, o sistema aberto apresenta a melhor relação esforço-resultados, produzindo um elevado número de juvenis saudáveis com pouca necessidade de intervenção. De acordo com os resultados obtidos neste trabalho e outros semelhantes, considera-se que a introdução em meio natural de juvenis provenientes de programas de reprodução em cativeiro só deverá ocorrer depois destes atingirem, no mínimo, um comprimento de concha de 1 mm. Este “método misto” permite criar os mexilhões em condições controladas durante a fase mais crítica do seu desenvolvimento e, consequentemente, maximizar a sua taxa de sobrevivência em meio natural. Apesar de ainda ser necessário clarificar o impacto dos sistemas de retenção no desenvolvimento dos mexilhões, a sua utilização in-situ pode ser vantajosa, no sentido em que permite monitorizar a sobrevivência e crescimento dos juvenis e avaliar o sucesso das medidas de conservação aplicadas.
Autores principais:Pereira, Joana Vidal de Almeida
Assunto:Mexilhão-de-rio Conservação Reprodução em cativeiro Recrutamento Monitorização Teses de mestrado - 2021
Ano:2021
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:O mexilhão-de-rio-do-norte Margaritifera margaritifera (Bivalvia: Unionida) é um dos bivalves de água doce mais ameaçado em todo o mundo, principalmente devido à ausência de recrutamento nas populações naturais. O ciclo de vida desta espécie é marcado pela produção de larvas – gloquídios – que têm obrigatoriamente de parasitar um salmonídeo. Concluído o processo de metamorfose, os juvenis libertam-se do hospedeiro e estabelecem-se na zona hiporeica dos cursos de água. Esta fase pós-parasítica é crítica para a subsistência da espécie, uma vez que os juvenis são particularmente sensíveis a perturbações no meio intersticial. Em Portugal, M. margaritifera ocorre apenas em sete rios da região norte, encontrando-se as populações em risco elevado de extinção. Atualmente, está em curso um plano de recuperação desta espécie que, para além da reabilitação das populações do seu hospedeiro, a truta-de-rio Salmo trutta, e restauro de habitat ecologicamente funcional, inclui um programa de criação de juvenis em cativeiro, para introdução em meio natural e recuperação das populações envelhecidas. Este trabalho teve como principal objetivo contribuir para a otimização das condições de criação de juvenis de M. margaritifera em cativeiro, através da comparação das taxas de sobrevivência e crescimento de indivíduos criados sob diferentes técnicas, nomeadamente em sistema artificial e semi natural. Os juvenis de M. margaritifera foram obtidos através da infeção de trutas-de-rio em condições controladas. Parte dos juvenis foram mantidos em recipientes plásticos sem circulação de água, com alimentação artificial (sistema fechado), e parte em substrato natural em raceway interior, alimentada com água do rio e sem intervenção humana (sistema aberto). Depois de 3 meses em cativeiro, os juvenis foram reintroduzidos em três locais do rio Beça, em sistemas de retenção (tubos de rede) enterrados verticalmente na zona hiporeica. Alguns juvenis foram mantidos em raceway interior, dentro e fora de tubos, de forma a comparar o crescimento de juvenis confinados e a crescer em liberdade e, desta forma, despistar o efeito do sistema de retenção no crescimento dos juvenis. As taxas de sobrevivência e crescimento foram monitorizadas durante o período de cativeiro, ao longo de 3 meses, e no rio, ao longo de 6 semanas, e comparadas entre os vários sistemas. Por último, a sobrevivência e crescimento obtidos em sistema fechado foram comparados com os parâmetros alcançados em programas semelhantes utilizando diferentes dietas. A taxa de sobrevivência dos juvenis criados em sistema fechado decresceu gradualmente ao longo do período experimental, sendo que apenas 15% dos indivíduos sobreviveram ao fim de 3 meses. Estes juvenis atingiram, em média, um comprimento máximo de concha de 452,92 (±48,45) µm. Comparando com a mistura de algas utilizada neste trabalho, concluiu-se que uma dieta à base de algas suplementada com detritos é mais benéfica ao desenvolvimento dos juvenis, provavelmente devido ao seu elevado conteúdo nutricional e ação nitrificante. Não foi possível avaliar a sobrevivência no sistema aberto. Neste sistema, os juvenis atingiram um comprimento médio de 561,49 (±69,99) µm, que corresponde a um incremento em tamanho três vezes superior ao dos juvenis de sistema fechado. A taxa de crescimento dos juvenis criados em raceway foi significativamente maior que a dos juvenis mantidos nos recipientes plásticos. Todos os juvenis introduzidos nos setores a montante e jusante do rio Beça morreram ao fim de duas semanas, quando se observaram condições deficientes de oxigenação do meio intersticial. A taxa de sobrevivência no setor médio para juvenis provenientes de sistema aberto e fechado foi de 30% e 7%, respetivamente. No final da experiência in-situ, não foi detetado crescimento em nenhum dos grupos. Após cerca de dois meses, os juvenis confinados em tubos dentro da raceway exibiram um comprimento de concha significativamente menor do que os juvenis a crescer livremente em substrato natural no mesmo tanque, o que sugere um possível efeito prejudicial do sistema de retenção usado no crescimento dos juvenis. Concluiu-se que, em termos de sistema de criação, o sistema aberto apresenta a melhor relação esforço-resultados, produzindo um elevado número de juvenis saudáveis com pouca necessidade de intervenção. De acordo com os resultados obtidos neste trabalho e outros semelhantes, considera-se que a introdução em meio natural de juvenis provenientes de programas de reprodução em cativeiro só deverá ocorrer depois destes atingirem, no mínimo, um comprimento de concha de 1 mm. Este “método misto” permite criar os mexilhões em condições controladas durante a fase mais crítica do seu desenvolvimento e, consequentemente, maximizar a sua taxa de sobrevivência em meio natural. Apesar de ainda ser necessário clarificar o impacto dos sistemas de retenção no desenvolvimento dos mexilhões, a sua utilização in-situ pode ser vantajosa, no sentido em que permite monitorizar a sobrevivência e crescimento dos juvenis e avaliar o sucesso das medidas de conservação aplicadas.