Publicação

Preditores das competências de escrita nos primeiros anos de escolaridade

Ver documento

Detalhes bibliográficos
Resumo:Partindo do modelo da dupla via para a escrita, procura-se caracterizar o contributo diferencial de diversas variáveis cognitivas para o desenvolvimento desta competência numa ortografia de média opacidade, o Português Europeu. Mais especificamente, pretende-se averiguar de que forma preditores como o conhecimento letra-som, a consciência fonológica, a memória fonológica, a nomeação automática e o vocabulário, com papel reconhecido no desenvolvimento da leitura, se envolvem também na aprendizagem e desenvolvimento de diferentes estratégias de escrita ao longo dos quatro primeiros anos de escolaridade. Participaram no estudo 770 crianças portuguesas de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 6 e os 11 anos, que realizaram uma tarefa computadorizada de escrita (possibilitando avaliar a escrita de palavras com correspondências fonema-grafemas fixas, com correspondências determinadas por regras contextuais e com correspondências irregulares) bem como uma bateria de provas para avaliação dos preditores cognitivos da escrita. Os resultados mostram que as competências de escrita se desenvolvem ao longo dos primeiros anos de escolaridade, atingindo já no segundo ano níveis de desempenho elevados (acima dos 75%) sempre que a escrita se possa basear numa estratégia fonológica. A escrita com base no conhecimento de regras contextuais, bem como a dependente de conhecimento lexical específico (palavras irregulares), revela um desenvolvimento mais tardio. A análise do contributo dos preditores remete para uma base cognitiva comum às três modalidades de escrita avaliadas ao longo do período estudado, envolvendo quer a capacidade para segmentar os sons das palavras a escrever, quer o conhecimento que permite converter esses sons nos símbolos da ortografia; o contributo destas capacidades mantém-se estável, mesmo quando a escrita depende exclusivamente do conhecimento de regras ortográficas contextuais ou de conhecimento ortográfico específico. O único fator diferencial é o contributo específico do Vocabulário para a escrita de palavras irregulares nos dois primeiros anos de escolaridade. A estabilidade dos preditores da escrita observada ao longo do tempo parece contradizer de algum modo os modelos que preconizam um desenvolvimento da escrita por fases qualitativamente distintas, aproximando-se mais de uma perspetiva que sustenta que a criança dispõe num dado momento de um reportório diversificado de estratégias que lhe permite resolver a tarefa de escrita, recorrendo a conhecimento fonológico, ortográfico e morfológico, mas adotando preferencialmente em certas tarefas ou momentos uma estratégia em detrimento de outra.
Autores principais:Faísca, Luís
Outros Autores:Araújo, Susana; Reis, Alexandra
Assunto:Escrita Preditores cognitivos Desenvolvimento Writting Reading Cognitive preditors
Ano:2015
País:Portugal
Tipo de documento:capítulo de livro
Tipo de acesso:acesso restrito
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Partindo do modelo da dupla via para a escrita, procura-se caracterizar o contributo diferencial de diversas variáveis cognitivas para o desenvolvimento desta competência numa ortografia de média opacidade, o Português Europeu. Mais especificamente, pretende-se averiguar de que forma preditores como o conhecimento letra-som, a consciência fonológica, a memória fonológica, a nomeação automática e o vocabulário, com papel reconhecido no desenvolvimento da leitura, se envolvem também na aprendizagem e desenvolvimento de diferentes estratégias de escrita ao longo dos quatro primeiros anos de escolaridade. Participaram no estudo 770 crianças portuguesas de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 6 e os 11 anos, que realizaram uma tarefa computadorizada de escrita (possibilitando avaliar a escrita de palavras com correspondências fonema-grafemas fixas, com correspondências determinadas por regras contextuais e com correspondências irregulares) bem como uma bateria de provas para avaliação dos preditores cognitivos da escrita. Os resultados mostram que as competências de escrita se desenvolvem ao longo dos primeiros anos de escolaridade, atingindo já no segundo ano níveis de desempenho elevados (acima dos 75%) sempre que a escrita se possa basear numa estratégia fonológica. A escrita com base no conhecimento de regras contextuais, bem como a dependente de conhecimento lexical específico (palavras irregulares), revela um desenvolvimento mais tardio. A análise do contributo dos preditores remete para uma base cognitiva comum às três modalidades de escrita avaliadas ao longo do período estudado, envolvendo quer a capacidade para segmentar os sons das palavras a escrever, quer o conhecimento que permite converter esses sons nos símbolos da ortografia; o contributo destas capacidades mantém-se estável, mesmo quando a escrita depende exclusivamente do conhecimento de regras ortográficas contextuais ou de conhecimento ortográfico específico. O único fator diferencial é o contributo específico do Vocabulário para a escrita de palavras irregulares nos dois primeiros anos de escolaridade. A estabilidade dos preditores da escrita observada ao longo do tempo parece contradizer de algum modo os modelos que preconizam um desenvolvimento da escrita por fases qualitativamente distintas, aproximando-se mais de uma perspetiva que sustenta que a criança dispõe num dado momento de um reportório diversificado de estratégias que lhe permite resolver a tarefa de escrita, recorrendo a conhecimento fonológico, ortográfico e morfológico, mas adotando preferencialmente em certas tarefas ou momentos uma estratégia em detrimento de outra.