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Transmissão do Vírus da Imunodeficiência Humana da mãe ao filho: avaliação de resultados de um protocolo laboratorial implementado a nível nacional para o diagnóstico precoce da infeção em crianças nascidas de mães infetadas

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Detalhes bibliográficos
Resumo:Em 2017, a estimativa da infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) foi de 1,8 milhões em crianças e adolescentes, sendo que a via de transmissão mãe-filho (TMF) foi o principal modo de aquisição da infeção nesta população. Entre outros fatores, as elevadas taxas de mutação e recombinação genética durante a replicação viral resultam numa grande variabilidade e diversidade de variantes do VIH, que interferem negativamente na eficácia do tratamento, no diagnóstico molecular e na produção de vacinas. Atendendo a que as medidas de prevenção têm reduzido significativamente a taxa da TMF do VIH para valores inferiores a 2%, tem sido objetivo preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a continuação da implementação de medidas que contribuam para a eliminação desta via de transmissão. O presente estudo teve duas fases de desenvolvimento: uma primeira fase experimental e técnica para diagnóstico precoce da TMF entre outubro de 2017 e março de 2018, e uma segunda fase de análise de dados recolhidos entre 2006 e 2016, através do protocolo laboratorial para estudo da TMF do VIH-1 e VIH-2. Os principais objetivos foram diagnosticar os casos de TMF e caracterizar molecularmente os vírus transmitidos da mãe ao recém-nascido durante a primeira fase do estudo, e na segunda fase, determinar a evolução das taxas anuais da TMF entre 2006-2016, caracterizar a população de acordo com dados epidemiológicos conhecidos e regimes de terapia antirretrovírica (TAR) de prevenção administrados, bem como analisar outros indicadores que podem influenciar a transmissão VIH da mãe ao filho. Entre outubro de 2017 e março de 2018 foi diagnosticado um caso de TMF do VIH-1 (CRF14_BG) e identificadas 4 mutações de resistência a inibidores da protease. Entre 2006 e 2016, a análise realizada a 2250 crianças estudadas mostrou uma variação de taxas de TMF do VIH entre um mínimo de 0,6% (em 2012) e um máximo de 3,8% (em 2015). A taxa global de TMF foi de 7,8% na população que não cumpriu medidas de TAR de prevenção e de 0,5% na que aderiu aos protocolos de prevenção (p=0,001). Apenas ocorreu um caso de TMF do VIH-2 (0,9%). A infeção materna por VIH-2 foi associada a mães de naturalidade africana (p=0,001), com média de idade (33,0 anos) e tempo médio de infeção (9,7 anos) superiores, comparativamente a mães infetadas por VIH-1. Em termos epidemiológicos verificou-se uma elevada proporção (38,4%) de crianças com ascendência africana, incluindo as crianças em risco de infecção por VIH-1. Observou-se que na maioria (86,9%) das crianças estudadas foi administrado zidovudina (AZT) como medida profilática, tendo-se verificado, a partir de 2011, uma redução na duração da profilaxia de 6 para 4 semanas. Durante todo o período de estudo, verificou-se que a maioria dos regimes TAR administrados na gravidez eram uma combinação de inibidores da transcriptase reversa com inibidores da protéase (69,8%), mas que nos últimos 4 anos se observou um aumento de casos com introdução de inibidores da integrase (4,5%). Porém, em 23,0% das crianças em risco de infeção VIH não foram cumpridas as medidas de prevenção na gravidez. Em 45,0% dos casos, não foi administrada TAR, em 43,6% iniciada tardiamente na gravidez e em 11,4% a toma foi irregular, verificando-se respectivamente nestes grupos que, 41,2%, 46,9% e 55,9% eram crianças de ascendência portuguesa. A transmissão do VIH-1 foi associada a ausência de TAR (p=0,001), a carga viral detetável na gravidez (p=0,001) e a uma contagem de células T CD4+ <350 células/mm3 (p=0,036). Estes resultados confirmam a importância da adesão às medidas de prevenção da TMF do VIH e enfatiza a importância do diagnóstico precoce em mulheres em idade fértil para permitir a intervenção preventiva atempada e evitar a transmissão do VIH. Rastreios pré-natais de VIH são componentes cruciais na prevenção da TMF, permitindo avaliar e monitorizar o estado clínico da mulher infetada e iniciar/ajustar os regimes antirretrovíricos para tratamento ou prevenção da TMF. Medidas concretas a implementar para a redução da elevada proporção de grávidas que não cumpre TAR de prevenção pode ser uma excelente estratégia a seguir e contribuir para a eliminação da via de TMF do VIH em Portugal.
Autores principais:Mendes, Gabriel Fernandes
Assunto:Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) Transmissão Mãe-Filho (TMF) Terapia Antirretrovírica Portugal Teses de mestrado - 2018
Ano:2018
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:Em 2017, a estimativa da infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) foi de 1,8 milhões em crianças e adolescentes, sendo que a via de transmissão mãe-filho (TMF) foi o principal modo de aquisição da infeção nesta população. Entre outros fatores, as elevadas taxas de mutação e recombinação genética durante a replicação viral resultam numa grande variabilidade e diversidade de variantes do VIH, que interferem negativamente na eficácia do tratamento, no diagnóstico molecular e na produção de vacinas. Atendendo a que as medidas de prevenção têm reduzido significativamente a taxa da TMF do VIH para valores inferiores a 2%, tem sido objetivo preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a continuação da implementação de medidas que contribuam para a eliminação desta via de transmissão. O presente estudo teve duas fases de desenvolvimento: uma primeira fase experimental e técnica para diagnóstico precoce da TMF entre outubro de 2017 e março de 2018, e uma segunda fase de análise de dados recolhidos entre 2006 e 2016, através do protocolo laboratorial para estudo da TMF do VIH-1 e VIH-2. Os principais objetivos foram diagnosticar os casos de TMF e caracterizar molecularmente os vírus transmitidos da mãe ao recém-nascido durante a primeira fase do estudo, e na segunda fase, determinar a evolução das taxas anuais da TMF entre 2006-2016, caracterizar a população de acordo com dados epidemiológicos conhecidos e regimes de terapia antirretrovírica (TAR) de prevenção administrados, bem como analisar outros indicadores que podem influenciar a transmissão VIH da mãe ao filho. Entre outubro de 2017 e março de 2018 foi diagnosticado um caso de TMF do VIH-1 (CRF14_BG) e identificadas 4 mutações de resistência a inibidores da protease. Entre 2006 e 2016, a análise realizada a 2250 crianças estudadas mostrou uma variação de taxas de TMF do VIH entre um mínimo de 0,6% (em 2012) e um máximo de 3,8% (em 2015). A taxa global de TMF foi de 7,8% na população que não cumpriu medidas de TAR de prevenção e de 0,5% na que aderiu aos protocolos de prevenção (p=0,001). Apenas ocorreu um caso de TMF do VIH-2 (0,9%). A infeção materna por VIH-2 foi associada a mães de naturalidade africana (p=0,001), com média de idade (33,0 anos) e tempo médio de infeção (9,7 anos) superiores, comparativamente a mães infetadas por VIH-1. Em termos epidemiológicos verificou-se uma elevada proporção (38,4%) de crianças com ascendência africana, incluindo as crianças em risco de infecção por VIH-1. Observou-se que na maioria (86,9%) das crianças estudadas foi administrado zidovudina (AZT) como medida profilática, tendo-se verificado, a partir de 2011, uma redução na duração da profilaxia de 6 para 4 semanas. Durante todo o período de estudo, verificou-se que a maioria dos regimes TAR administrados na gravidez eram uma combinação de inibidores da transcriptase reversa com inibidores da protéase (69,8%), mas que nos últimos 4 anos se observou um aumento de casos com introdução de inibidores da integrase (4,5%). Porém, em 23,0% das crianças em risco de infeção VIH não foram cumpridas as medidas de prevenção na gravidez. Em 45,0% dos casos, não foi administrada TAR, em 43,6% iniciada tardiamente na gravidez e em 11,4% a toma foi irregular, verificando-se respectivamente nestes grupos que, 41,2%, 46,9% e 55,9% eram crianças de ascendência portuguesa. A transmissão do VIH-1 foi associada a ausência de TAR (p=0,001), a carga viral detetável na gravidez (p=0,001) e a uma contagem de células T CD4+ <350 células/mm3 (p=0,036). Estes resultados confirmam a importância da adesão às medidas de prevenção da TMF do VIH e enfatiza a importância do diagnóstico precoce em mulheres em idade fértil para permitir a intervenção preventiva atempada e evitar a transmissão do VIH. Rastreios pré-natais de VIH são componentes cruciais na prevenção da TMF, permitindo avaliar e monitorizar o estado clínico da mulher infetada e iniciar/ajustar os regimes antirretrovíricos para tratamento ou prevenção da TMF. Medidas concretas a implementar para a redução da elevada proporção de grávidas que não cumpre TAR de prevenção pode ser uma excelente estratégia a seguir e contribuir para a eliminação da via de TMF do VIH em Portugal.