Publicação
Ecologia alimentar do rolieiro (Coracias garrulus) numa zona agrícola extensiva
| Resumo: | O habitat de estepe cerealífera é caraterizado por vastas extensões agrícolas de cultivo de cereal, terrenos recém-lavrados e de pousio em regime de rotatividade, ao qual está frequentemente associada a prática de pastoreio extensivo. Este tipo de habitat suporta uma grande variedade de espécies de aves com estatuto de conservação desfavorável. Ao longo das últimas décadas, têm-se registado alterações neste tipo de habitat devido à intensificação da agricultura nos terrenos mais produtivos e à alteração do uso do solo, o que acaba por afetar negativamente as populações de aves que dependem destes habitats. O rolieiro Coracias garrulus Linnaeus, 1758 é uma ave migradora de longa distância que inverna em África e se reproduz na Europa nos meses de primavera e verão, maioritariamente em habitats de estepe cerealífera. Esta espécie está classificada com um estatuto global de “Pouco preocupante” pela UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza), apesar das suas populações encontrarem-se fragmentadas e muitas delas em declínio. Em Portugal, esta espécie está classificada como “Criticamente em Perigo”. O estudo da ecologia alimentar das espécies é essencial para perceber qual o papel das mesmas nos ecossistemas onde ocorrem. Por outro lado, a disponibilidade de alimento é um dos fatores determinantes para explicar a distribuição das espécies, sendo crucial conhecer os requisitos alimentares de forma a prever as respostas das espécies a alterações do habitat e delinear estratégias de gestão e conservação apropriadas. A dieta de muitas espécies apresenta variações importantes entre grupos de uma mesma população (grupos etários e entre sexos), no entanto, a grande maioria dos estudos com aves omite esta questão, em grande parte devido a dificuldades logísticas e metodológicas. No entanto, avaliar esta variabilidade é crucial para identificar potenciais ameaças para segmentos particulares de uma população. Existe pouca informação sobre a ecologia alimentar do rolieiro, sendo o presente estudo o primeiro a investigar uma potencial segregação alimentar entre grupos diferentes da mesma população (adultos/crias e fêmeas/machos) e a quantificar taxas de visitação ao ninho em período de alimentação de crias. Foram utilizadas três abordagens metodológicas na caraterização da dieta da espécie: análise de regurgitações de adultos, análise de vídeos de entregas de presas às crias e análise de isótopos estáveis de sangue de adultos (machos e fêmeas) e crias. Esta última técnica permite detetar potenciais diferenças na dieta entre machos e fêmeas, ao contrário da análise de regurgitações. Para caraterizar os padrões e quantificar as taxas de visitação ao ninho durante o período de alimentação das crias foram efetuados vídeos de longa duração com o auxílio de câmaras timelapse. Os resultados deste estudo evidenciaram uma segregação na dieta entre adultos e crias de rolieiro, dominada por coleópteros (escaravelhos) e por ortópteros (gafanhotos), respetivamente. De um modo geral, estes resultados foram corroborados pelas diferentes abordagens metodológicas utilizadas. A segregação alimentar entre os grupos etários poderá dever-se ao facto dos gafanhotos serem mais abundantes durante o período de desenvolvimento das crias e/ou os adultos selecionarem preferencialmente as presas de maior tamanho e maior conteúdo energético para as suas crias, minimizando assim o número de visitas ao ninho. A semelhança nas assinaturas isotópicas de carbono e azoto de machos e fêmeas sugerem que não existe segregação sexual no regime alimentar do rolieiro, apesar dos machos alimentarem as fêmeas no período de pré-postura. No entanto, os resultados sugerem que as fêmeas poderão ter uma dieta mais diversa, uma vez que apresentam um nicho isotópico mais amplo do que os machos. A taxa de visitação aos ninhos por parte dos progenitores durante o período de alimentação das crias foi usada como proxy para a taxa de entregas de alimento. Não se verificou um padrão típico geral nas frequências de visita ao longo do dia, tendo-se registado grande variabilidade entre ninhos e no mesmo ninho entre dias de amostragem. Os rolieiros alimentam as suas crias ao longo de todo o período diurno, não existindo um período preferencial de maior atividade. Verificou-se que os progenitores aumentam a frequência de visitação com o tamanho da ninhada, no entanto, o número de entregas por cria tende a diminuir em ninhadas de maior dimensão. Por fim, não se observou uma influência da idade das crias nas taxas de visitação. Este estudo permitiu aprofundar o conhecimento sobre a ecologia alimentar desta espécie, revelando a existência de segregação na dieta entre adultos e crias. |
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| Autores principais: | Sampaio, Ana Sofia Xavier Pereira Diniz |
| Assunto: | Segregação Filmagens Regurgitações Isótopos estáveis Taxa de alimentação Teses de mestrado - 2018 |
| Ano: | 2018 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | O habitat de estepe cerealífera é caraterizado por vastas extensões agrícolas de cultivo de cereal, terrenos recém-lavrados e de pousio em regime de rotatividade, ao qual está frequentemente associada a prática de pastoreio extensivo. Este tipo de habitat suporta uma grande variedade de espécies de aves com estatuto de conservação desfavorável. Ao longo das últimas décadas, têm-se registado alterações neste tipo de habitat devido à intensificação da agricultura nos terrenos mais produtivos e à alteração do uso do solo, o que acaba por afetar negativamente as populações de aves que dependem destes habitats. O rolieiro Coracias garrulus Linnaeus, 1758 é uma ave migradora de longa distância que inverna em África e se reproduz na Europa nos meses de primavera e verão, maioritariamente em habitats de estepe cerealífera. Esta espécie está classificada com um estatuto global de “Pouco preocupante” pela UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza), apesar das suas populações encontrarem-se fragmentadas e muitas delas em declínio. Em Portugal, esta espécie está classificada como “Criticamente em Perigo”. O estudo da ecologia alimentar das espécies é essencial para perceber qual o papel das mesmas nos ecossistemas onde ocorrem. Por outro lado, a disponibilidade de alimento é um dos fatores determinantes para explicar a distribuição das espécies, sendo crucial conhecer os requisitos alimentares de forma a prever as respostas das espécies a alterações do habitat e delinear estratégias de gestão e conservação apropriadas. A dieta de muitas espécies apresenta variações importantes entre grupos de uma mesma população (grupos etários e entre sexos), no entanto, a grande maioria dos estudos com aves omite esta questão, em grande parte devido a dificuldades logísticas e metodológicas. No entanto, avaliar esta variabilidade é crucial para identificar potenciais ameaças para segmentos particulares de uma população. Existe pouca informação sobre a ecologia alimentar do rolieiro, sendo o presente estudo o primeiro a investigar uma potencial segregação alimentar entre grupos diferentes da mesma população (adultos/crias e fêmeas/machos) e a quantificar taxas de visitação ao ninho em período de alimentação de crias. Foram utilizadas três abordagens metodológicas na caraterização da dieta da espécie: análise de regurgitações de adultos, análise de vídeos de entregas de presas às crias e análise de isótopos estáveis de sangue de adultos (machos e fêmeas) e crias. Esta última técnica permite detetar potenciais diferenças na dieta entre machos e fêmeas, ao contrário da análise de regurgitações. Para caraterizar os padrões e quantificar as taxas de visitação ao ninho durante o período de alimentação das crias foram efetuados vídeos de longa duração com o auxílio de câmaras timelapse. Os resultados deste estudo evidenciaram uma segregação na dieta entre adultos e crias de rolieiro, dominada por coleópteros (escaravelhos) e por ortópteros (gafanhotos), respetivamente. De um modo geral, estes resultados foram corroborados pelas diferentes abordagens metodológicas utilizadas. A segregação alimentar entre os grupos etários poderá dever-se ao facto dos gafanhotos serem mais abundantes durante o período de desenvolvimento das crias e/ou os adultos selecionarem preferencialmente as presas de maior tamanho e maior conteúdo energético para as suas crias, minimizando assim o número de visitas ao ninho. A semelhança nas assinaturas isotópicas de carbono e azoto de machos e fêmeas sugerem que não existe segregação sexual no regime alimentar do rolieiro, apesar dos machos alimentarem as fêmeas no período de pré-postura. No entanto, os resultados sugerem que as fêmeas poderão ter uma dieta mais diversa, uma vez que apresentam um nicho isotópico mais amplo do que os machos. A taxa de visitação aos ninhos por parte dos progenitores durante o período de alimentação das crias foi usada como proxy para a taxa de entregas de alimento. Não se verificou um padrão típico geral nas frequências de visita ao longo do dia, tendo-se registado grande variabilidade entre ninhos e no mesmo ninho entre dias de amostragem. Os rolieiros alimentam as suas crias ao longo de todo o período diurno, não existindo um período preferencial de maior atividade. Verificou-se que os progenitores aumentam a frequência de visitação com o tamanho da ninhada, no entanto, o número de entregas por cria tende a diminuir em ninhadas de maior dimensão. Por fim, não se observou uma influência da idade das crias nas taxas de visitação. Este estudo permitiu aprofundar o conhecimento sobre a ecologia alimentar desta espécie, revelando a existência de segregação na dieta entre adultos e crias. |
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