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Avaliação hemorreológica e nutricional em atletas femininas de alta competição

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Resumo:As doenças cardiovasculares (DCV) são a principal causa de morbilidade e mortalidade em Portugal, responsáveis por um terço de todas as mortes e incapacidade. Os fatores de risco para as doenças cardiovasculares englobam fatores não modificáveis (hereditariedade, género e idade), e modificáveis (sedentarismo, a hipertensão arterial (HTA), tabagismo, stress, obesidade, diabetes mellitus tipo II e dislipidemias). Estudos recentes reportaram haver uma associação entre alterações no perfil hemorreológico e hemostático e o aumento do risco cardiovascular, assim como identificam o fibrinogénio γ’ como um novo fator de risco emergente para as DCV. O exercício físico exerce um efeito trifásico ao nível dos fatores hemorreológicos: A curto prazo promove hiperviscosidade e aumento da agregação, a médio prazo leva à reversão dos efeitos agudos através do aumento do volume plasmático, com diminuição da viscosidade plasmática e do hematócrito, e a longo prazo promove o aumento da fluidez sanguínea paralelamente às alterações metabólicas e hormonais decorrentes da prática regular de exercício. Existem outros fatores inerentes ao exercício físico que vão influenciar a suscetibilidade individual ao surgimento de problemas de saúde tais como a intensidade, duração, aumento da temperatura, frequência do exercício, as especificidades técnicas da modalidade, a qualidade dos períodos de descanso, o descanso entre sessões de treino, o período da época desportiva em que os atletas se encontram e fatores ambientais. Ao nível da alimentação existe forte evidência do efeito protetor conferido pela Dieta Mediterrânica (DM) ao nível cardiovascular. No entanto, os hábitos alimentares dos portugueses estão cada vez mais distantes da típica DM. Segundo os resultados do último Inquérito Alimentar Nacional, um em cada dois portugueses não consome a quantidade de hortofrutícolas recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), 17% da população consome pelo menos um refrigerante ou néctar por dia e mais de 95% da população consome açúcares simples acima do limite recomendado pela OMS (10% do aporte energético total). Em 2014, a prevalência de excesso de peso em Portugal rondava os 59,8%, e a prevalência de obesidade os 22,1%. Este estudo tem como objectivo avaliar se existem alterações ao nível hemorreológico e hemodinâmico em atletas de andebol de alta competição e praticantes de cardiofitness, assim como alterações ao nível do fibrinogénio γ’; determinar se a prática de exercício de forma intensa promove a ocorrência de alterações dos parâmetros hemorreológicos e do fibrinogénio γ’ e se, por conseguinte, se associa a maior risco de DCV; e, por último, determinar se a alimentação das atletas e praticantes de exercício físico se enquadra na Dieta Mediterrânica. O presente estudo consiste num estudo observacional analítico, transversal. A população em estudo englobou 14 atletas de alta competição da modalidade andebol e 15 praticantes de exercício físico de intensidade moderada (cardiofitness). O grupo controlo (pessoas não praticantes de exercício) foi constituído por 15 elementos. Este estudo decorreu na região de Águeda. Para a recolha de dados laboratoriais foi efetuada uma colheita de amostras de sangue para posterior pesquisa e análise dos parâmetros hemorreológicos e aplicado o “Questionário de Frequencia Alimentar” para recolha de dados relativos à alimentação das atletas e praticantes de exercício físico de intensidade moderada. Após a análise dos fatores hemorreológicos dos grupos de estudo verificou-se que os eritrócitos das atletas de alta competição apresentam menor tendência de deformação nos vasos de maior diâmetro e são mais deformáveis comparativamente aos das praticantes de cardiofitness e ao grupo controlo nos vasos de menor diâmetro (p < 0,05 a 0,3 Pa, 0,6 Pa e 1,2 Pa). Nas atletas de alta competição e praticantes de exercício físico de intensidade moderada verificou-se uma menor tendência de agregação dos eritrócitos comparativamente ao grupo controlo a 5 e 10 s (concentração de fibrinogénio de 0 a 80 mg/dL; p < 0,05). A agregação eritrocitária aumentou com o aumento da concentração de fibrinogénio nas amostras, nos 3 grupos. Após medição da viscosidade sanguínea, verificou-se que para menores taxas de cisalhamento (22,5 s-1), as atletas de alta competição apresentam valores de viscosidade sanguínea mais elevados que o grupo das praticantes de cardiofitness. Para taxas de cisalhamento superiores (225 s-1) os resultados não são estatisticamente significativos. Após medição das concentrações de fibrinogénio total e fibrinogénio γ’, verificou- se que as atletas de andebol apresentam menores concentrações de fibrinogénio no plasma comparativamente com o grupo de cardiofitness e o grupo controlo (231,6 ± 10,9 mg/dL vs. 235,7 ± 9,6 mg/dL vs. 278,3 ± 27,5 mg/dL, respetivamente) e concentrações de fibrinogénio γ’ no plasma menores comparativamente com o grupo de praticantes de cardiofitness (53,55 ± 3,72 mg/dL vs. 53,63 ± 3,60 mg/dL, respetivamente), mas mais elevados comparativamente com o grupo controlo (34,93 ± 2,04 mg/dL). Após o cálculo da razão entre as concentrações de fibrinogénio γ’ e fibrinogénio total para todas as amostras, verificou-se que as andebolistas apresentam menor percentagem de fibrinogénio γ’ no plasma do que o grupo de praticantes de cardiofitness (22,65 ± 1,10 % vs. 23,28 ± 1,45 %, respetivamente), mas maior que os controlos não praticantes de desporto (13,75 ± 1,23 %). Relativamente ao estudo da alimentação nas atletas e praticantes de cardiofitness, verificou-se um consumo energético superior no grupo das andebolistas (2223 kcal/dia) comparativamente com as praticantes de cardiofitness (2141 kcal/dia). Hidratos de carbono totais (complexos e simples), hidratos de carbono complexos, açúcar e álcool são consumidos em maior quantidade pelas atletas de andebol. Nas praticantes de cardiofitness verificam- se valores superiores para as proteínas e gordura. No entanto, o consumo de hidratos de carbono em ambos os grupos não atinge a recomendação (consumo de 275 g/dia pelas andebolistas e 22 0g/dia pelas praticantes de cardiofitness; recomendações: 519-865 g/dia). Por outro lado, o consumo de açúcar apresenta- se muito acima do desejável (122,2 g/dia vs. recomendação: 27,8- 55,6 g/dia nas atletas e 97 g/dia vs. recomendação: 26,8-53,5 g/dia nas praticantes de cardiofitness). Este estudo mostrou que as atletas de alta competição e as praticantes de exercício físico de intensidade moderada seguidas neste trabalho apresentam um aumento de parâmetros que podem ser associados ao risco cardiovascular, uma vez que, em condições normais, em indivíduos saudáveis, se espera que os valores de percentagem de fibrinogénio γ’ se encontrem próximos de 15%, e que a alimentação em ambos os grupos se afasta da Dieta Mediterrânica.
Autores principais:Pinheiro, Jéssica Inês Vidal
Assunto:Parâmetros hemorreológicos Fibrinogénio Fibrinogénio γ’ Atletas de alta competição Doenças cardiovasculares Teses de mestrado - 2020
Ano:2020
País:Portugal
Tipo de documento:dissertação de mestrado
Tipo de acesso:acesso aberto
Instituição associada:Universidade de Lisboa
Idioma:português
Origem:Repositório da Universidade de Lisboa
Descrição
Resumo:As doenças cardiovasculares (DCV) são a principal causa de morbilidade e mortalidade em Portugal, responsáveis por um terço de todas as mortes e incapacidade. Os fatores de risco para as doenças cardiovasculares englobam fatores não modificáveis (hereditariedade, género e idade), e modificáveis (sedentarismo, a hipertensão arterial (HTA), tabagismo, stress, obesidade, diabetes mellitus tipo II e dislipidemias). Estudos recentes reportaram haver uma associação entre alterações no perfil hemorreológico e hemostático e o aumento do risco cardiovascular, assim como identificam o fibrinogénio γ’ como um novo fator de risco emergente para as DCV. O exercício físico exerce um efeito trifásico ao nível dos fatores hemorreológicos: A curto prazo promove hiperviscosidade e aumento da agregação, a médio prazo leva à reversão dos efeitos agudos através do aumento do volume plasmático, com diminuição da viscosidade plasmática e do hematócrito, e a longo prazo promove o aumento da fluidez sanguínea paralelamente às alterações metabólicas e hormonais decorrentes da prática regular de exercício. Existem outros fatores inerentes ao exercício físico que vão influenciar a suscetibilidade individual ao surgimento de problemas de saúde tais como a intensidade, duração, aumento da temperatura, frequência do exercício, as especificidades técnicas da modalidade, a qualidade dos períodos de descanso, o descanso entre sessões de treino, o período da época desportiva em que os atletas se encontram e fatores ambientais. Ao nível da alimentação existe forte evidência do efeito protetor conferido pela Dieta Mediterrânica (DM) ao nível cardiovascular. No entanto, os hábitos alimentares dos portugueses estão cada vez mais distantes da típica DM. Segundo os resultados do último Inquérito Alimentar Nacional, um em cada dois portugueses não consome a quantidade de hortofrutícolas recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), 17% da população consome pelo menos um refrigerante ou néctar por dia e mais de 95% da população consome açúcares simples acima do limite recomendado pela OMS (10% do aporte energético total). Em 2014, a prevalência de excesso de peso em Portugal rondava os 59,8%, e a prevalência de obesidade os 22,1%. Este estudo tem como objectivo avaliar se existem alterações ao nível hemorreológico e hemodinâmico em atletas de andebol de alta competição e praticantes de cardiofitness, assim como alterações ao nível do fibrinogénio γ’; determinar se a prática de exercício de forma intensa promove a ocorrência de alterações dos parâmetros hemorreológicos e do fibrinogénio γ’ e se, por conseguinte, se associa a maior risco de DCV; e, por último, determinar se a alimentação das atletas e praticantes de exercício físico se enquadra na Dieta Mediterrânica. O presente estudo consiste num estudo observacional analítico, transversal. A população em estudo englobou 14 atletas de alta competição da modalidade andebol e 15 praticantes de exercício físico de intensidade moderada (cardiofitness). O grupo controlo (pessoas não praticantes de exercício) foi constituído por 15 elementos. Este estudo decorreu na região de Águeda. Para a recolha de dados laboratoriais foi efetuada uma colheita de amostras de sangue para posterior pesquisa e análise dos parâmetros hemorreológicos e aplicado o “Questionário de Frequencia Alimentar” para recolha de dados relativos à alimentação das atletas e praticantes de exercício físico de intensidade moderada. Após a análise dos fatores hemorreológicos dos grupos de estudo verificou-se que os eritrócitos das atletas de alta competição apresentam menor tendência de deformação nos vasos de maior diâmetro e são mais deformáveis comparativamente aos das praticantes de cardiofitness e ao grupo controlo nos vasos de menor diâmetro (p < 0,05 a 0,3 Pa, 0,6 Pa e 1,2 Pa). Nas atletas de alta competição e praticantes de exercício físico de intensidade moderada verificou-se uma menor tendência de agregação dos eritrócitos comparativamente ao grupo controlo a 5 e 10 s (concentração de fibrinogénio de 0 a 80 mg/dL; p < 0,05). A agregação eritrocitária aumentou com o aumento da concentração de fibrinogénio nas amostras, nos 3 grupos. Após medição da viscosidade sanguínea, verificou-se que para menores taxas de cisalhamento (22,5 s-1), as atletas de alta competição apresentam valores de viscosidade sanguínea mais elevados que o grupo das praticantes de cardiofitness. Para taxas de cisalhamento superiores (225 s-1) os resultados não são estatisticamente significativos. Após medição das concentrações de fibrinogénio total e fibrinogénio γ’, verificou- se que as atletas de andebol apresentam menores concentrações de fibrinogénio no plasma comparativamente com o grupo de cardiofitness e o grupo controlo (231,6 ± 10,9 mg/dL vs. 235,7 ± 9,6 mg/dL vs. 278,3 ± 27,5 mg/dL, respetivamente) e concentrações de fibrinogénio γ’ no plasma menores comparativamente com o grupo de praticantes de cardiofitness (53,55 ± 3,72 mg/dL vs. 53,63 ± 3,60 mg/dL, respetivamente), mas mais elevados comparativamente com o grupo controlo (34,93 ± 2,04 mg/dL). Após o cálculo da razão entre as concentrações de fibrinogénio γ’ e fibrinogénio total para todas as amostras, verificou-se que as andebolistas apresentam menor percentagem de fibrinogénio γ’ no plasma do que o grupo de praticantes de cardiofitness (22,65 ± 1,10 % vs. 23,28 ± 1,45 %, respetivamente), mas maior que os controlos não praticantes de desporto (13,75 ± 1,23 %). Relativamente ao estudo da alimentação nas atletas e praticantes de cardiofitness, verificou-se um consumo energético superior no grupo das andebolistas (2223 kcal/dia) comparativamente com as praticantes de cardiofitness (2141 kcal/dia). Hidratos de carbono totais (complexos e simples), hidratos de carbono complexos, açúcar e álcool são consumidos em maior quantidade pelas atletas de andebol. Nas praticantes de cardiofitness verificam- se valores superiores para as proteínas e gordura. No entanto, o consumo de hidratos de carbono em ambos os grupos não atinge a recomendação (consumo de 275 g/dia pelas andebolistas e 22 0g/dia pelas praticantes de cardiofitness; recomendações: 519-865 g/dia). Por outro lado, o consumo de açúcar apresenta- se muito acima do desejável (122,2 g/dia vs. recomendação: 27,8- 55,6 g/dia nas atletas e 97 g/dia vs. recomendação: 26,8-53,5 g/dia nas praticantes de cardiofitness). Este estudo mostrou que as atletas de alta competição e as praticantes de exercício físico de intensidade moderada seguidas neste trabalho apresentam um aumento de parâmetros que podem ser associados ao risco cardiovascular, uma vez que, em condições normais, em indivíduos saudáveis, se espera que os valores de percentagem de fibrinogénio γ’ se encontrem próximos de 15%, e que a alimentação em ambos os grupos se afasta da Dieta Mediterrânica.