Publicação
Discursos sobre a especificidade do ensino artístico : a sua representação histórica nos séculos XIX e XX
| Resumo: | Tendo como ponto de partida para a presente dissertação de mestrado o projecto de reforma do ensino artístico de 1971, é aqui minha intenção verificar qual a representação efectiva do discurso de «especificidade» na realidade histórica existente ao nível do ensino vocacional artístico ao longo dos séculos XIX e XX, e até que ponto as questões ideológicas enformam o discurso produzido pelos diversos actores neste envolvidos. Inserindo a abordagem efectuada numa perspectiva de construção social, irei procurar elucidar os mecanismos históricos que sustentam a emergência deste mesmo conceito, o qual determina, segundo algumas das perspectivas hoje defendidas, a impossibilidade de integração de uma formação que vise a preparação de músicos e de bailarinos profissionais nos esquemas gerais de ensino, contrariando desta forma um dos aspectos primordiais das propostas apresentadas com o projecto de reforma de 1971. Contudo, não se podendo menosprezar os mecanismos de resistência, à mudança como sendo um dos factores responsáveis por esta mesma rejeição, é ainda minha intenção tentar aqui compreender como é que este conceito de «especificidade» se encontra construído nas estruturas ideológicas existentes na actualidade e em que medida este corresponde a um efectivo corte conceptual relativamente às práticas até aí existentes. De facto, correspondendo este conceito de «especificidade» à re-emergência de diversos mitos em torno de supostas características excepcionais deste tipo de formações, estes vão ser mobilizados num discurso de resistência à mudança quando as propostas apresentadas com o projecto de reforma do ensino artístico de 1971 põem em causa os equilíbrios de poder até então estabelecidos. Assim, apesar de se ter verificado a este nível uma progressiva sublimação das ideias de «vocação» e de «talento», de não existir uma efectiva precocidade na generalidade das aprendizagens efectuadas, e de as práticas pedagógicas se terem modificado de uma forma bastante significativa ao longo dos séculos XIX e XX, vamos na actualidade encontrar o ressurgimento da ideia de que este tipo de formações se destina somente aos indivíduos que sejam detentores de uma «vocação» ou de um «talento» artístico raro, que tenham iniciado a sua formação numa idade precoce, e que estejam sujeitos a contextos especiais de aprendizagem, nomeadamente ao nível dos instrumentos musicais, onde se defende a existência de aulas individualizadas. E, o mais paradoxal no meio de isto tudo, é que mesmo na actualidade algumas destas «especificidades» são na realidade inexistentes - como seja, a inexistência generalizada de uma opção precoce por uma formação artística na área da música o que em parte poderá explicar o ressurgimento dos discursos que defendem que a formação de músicos «amadores» , é substancialmente diferenciada da formação de músicos «profissionais», procurando desta forma defender o carácter de excepcionalidade desta última. |
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| Autores principais: | Gomes, Carlos Alberto Faísca Fernandes |
| Assunto: | Teses de mestrado - 2002 Ensino artístico Especificidade Representação histórica - séc. 19-20 Projectos de reforma - 1971 Ideologias Talento Vocação artística |
| Ano: | 2002 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | Tendo como ponto de partida para a presente dissertação de mestrado o projecto de reforma do ensino artístico de 1971, é aqui minha intenção verificar qual a representação efectiva do discurso de «especificidade» na realidade histórica existente ao nível do ensino vocacional artístico ao longo dos séculos XIX e XX, e até que ponto as questões ideológicas enformam o discurso produzido pelos diversos actores neste envolvidos. Inserindo a abordagem efectuada numa perspectiva de construção social, irei procurar elucidar os mecanismos históricos que sustentam a emergência deste mesmo conceito, o qual determina, segundo algumas das perspectivas hoje defendidas, a impossibilidade de integração de uma formação que vise a preparação de músicos e de bailarinos profissionais nos esquemas gerais de ensino, contrariando desta forma um dos aspectos primordiais das propostas apresentadas com o projecto de reforma de 1971. Contudo, não se podendo menosprezar os mecanismos de resistência, à mudança como sendo um dos factores responsáveis por esta mesma rejeição, é ainda minha intenção tentar aqui compreender como é que este conceito de «especificidade» se encontra construído nas estruturas ideológicas existentes na actualidade e em que medida este corresponde a um efectivo corte conceptual relativamente às práticas até aí existentes. De facto, correspondendo este conceito de «especificidade» à re-emergência de diversos mitos em torno de supostas características excepcionais deste tipo de formações, estes vão ser mobilizados num discurso de resistência à mudança quando as propostas apresentadas com o projecto de reforma do ensino artístico de 1971 põem em causa os equilíbrios de poder até então estabelecidos. Assim, apesar de se ter verificado a este nível uma progressiva sublimação das ideias de «vocação» e de «talento», de não existir uma efectiva precocidade na generalidade das aprendizagens efectuadas, e de as práticas pedagógicas se terem modificado de uma forma bastante significativa ao longo dos séculos XIX e XX, vamos na actualidade encontrar o ressurgimento da ideia de que este tipo de formações se destina somente aos indivíduos que sejam detentores de uma «vocação» ou de um «talento» artístico raro, que tenham iniciado a sua formação numa idade precoce, e que estejam sujeitos a contextos especiais de aprendizagem, nomeadamente ao nível dos instrumentos musicais, onde se defende a existência de aulas individualizadas. E, o mais paradoxal no meio de isto tudo, é que mesmo na actualidade algumas destas «especificidades» são na realidade inexistentes - como seja, a inexistência generalizada de uma opção precoce por uma formação artística na área da música o que em parte poderá explicar o ressurgimento dos discursos que defendem que a formação de músicos «amadores» , é substancialmente diferenciada da formação de músicos «profissionais», procurando desta forma defender o carácter de excepcionalidade desta última. |
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