Publicação
Educação, ética e saúde: aprender a cuidar sob a ótica de doentes oncológicos
| Resumo: | A perspectiva desta tese teve início com a inquietação surgida ao longo de anos ao lidar com doente oncológico, mesmo não sendo profissional da área da saúde. Esta preocupação levou a questionamentos acerca da situação e das dimensões do sofrimento destes doentes, tendo em vista o que a patologia acarreta para eles e para todos os envolvidos. Partindo desta premissa, estabelecemos o objetivo geral de nossa pesquisa: identificar as condições que favoreceram o surgimento de aprendizagens significativas associadas à circunstância doença oncológica tendo como base o paradigma salutogénico construído por Aaron Antonovsky. Nosso tema, portanto, foi a educação no sofrimento de doentes oncológicos, partindo de uma revisão sobre a educação, entendida como Educação ao Longo da Vida. Nosso trabalho procurou ir ao encontro desta compreensão, promovendo a transdisciplinaridade, fazendo convergir para a educação no sofrimento dos doentes oncológicos e para a formação dos cuidadores formais e não formais, o conhecimento académico das áreas da educação em saúde e da ética, ao mesmo tempo que reconhece o valor e a relevância das narrativas dos próprios doentes. Em congruência com o tema, o âmbito e a finalidade, a pergunta de partida que utilizamos foi: Que condições, objetivas e subjetivas, favorecem a emergência de aprendizagens significativas na experiência do sofrimento de doentes oncológicos? Assim, lançámos mão de uma vasta revisão bibliográfica sobre temas relacionados à Educação ao Longo da Vida, Educação para a Saúde, paradigmas (patogénico e salutogénico) e modelos de Educação para a Saúde, sofrimento, dimensões do sofrimento, cuidar, valores do cuidar, ética do cuidar. Em termos metodológicos utilizamos de metodologia mista (quantitativas e qualitativas) tais como a estatística descritiva para os resultados obtidos através do questionário de sentido interno de coerência de Antonovsky e o método de natureza qualitativa, compreensivo-hermenêutico, mediante a recolha de relatos autobiográficos sobre os quais realizámos análise interpretativa hermenêutica. A amostra dirigida partiu da seleção de doze doentes oncológicos previamente indicados por médicos e instituições localizadas no Estado de Minas Gerais, Brasil, que atendiam aos critérios por nós definidos. Após a aprovação do Comitê de Ética da Universidade Fumec - Brasil e da Comissão de Ética da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) - Portugal, iniciamos os procedimentos do estudo empírico. Os resultados obtidos foram divididos em dois momentos – quantitativos (SOC) e qualitativos (narrativas) que, foram triangulados, de modo a referenciar os objetivos propostos e nos dar subsídios para encontrar respostas à pergunta de partida, nos permitindo uma visão mais ampla do universo pesquisado. A partir dos resultados das análises, pudemos tecer algumas conclusões: constatamos que nem sempre os doentes conhecem sua capacidade de gerenciar suas dificuldades acerca da doença e suas reais necessidades de cuidado, situação que resulta de um desconhecimento, por parte dos cuidadores formais, acerca da vivência que os doentes têm da sua enfermidade, com consequências de ordem técnica e ética. Os resultados obtidos mostraram que aqueles que dispunham de um SOC forte apresentavam recursos e capacidades capazes de levá-los a enfrentar a situação de estresse gerada pelo câncer, destacando-se: a compreensibilidade, construída por cada um; o movimento através da estratégia de busca de informações, apoio familiar; e significado, como chave para uma qualidade de vida. O sofrimento mostrou-se como um sentimento presente desde o início, independente do “Ser”, “Ter” ou “Adquirir”. As dimensões transcendentes, emocionais, interpessoais e intrapessoais identificadas nas narrativas, foram abordadas durante todo o processo da doença. Quanto às dimensões do cuidar, observámos relatos sobre o sofrimento tecnológico, a falta de compaixão e autonomia, advindos do próprio sistema saúde brasileiro ao manter dificuldades de acesso aos locais, exames, cirurgias, assim como profissionais capacitados. Os cuidados advindos de profissionais da saúde mostraram distanciamento do doente. Atitudes do cuidar tais como capacitar, respeitar, escutar, ter sentido de humor, tocar, não foram notadas nas narrativas, demonstrando um despreparo no cuidado com o outro, que identifica uma importante reflexão que deve ser incluída na formação dos cuidadores. Como contribuição, foram listados pontos que consideramos importantes para a formação dos cuidadores: trabalhar em prol de uma ruptura com o paradigma patogénico, de forma a priorizar a promoção da saúde, considerando o que os doentes oncológicos têm a nos ensinar; reforçar os valores éticos para o cuidar e a Educação para a Saúde, no meio acadêmico, pois o cuidar, ou como cuidar, está ligado ao ensino e à aprendizagem, que resulta em um processo intenso e complexo para educar e educar-se. |
|---|---|
| Autores principais: | Almeida, Eliane Silva Ferreira |
| Assunto: | Aprendizagem Saúde Sofrimento Cuidar Doentes oncológicos |
| Ano: | 2018 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da UTAD |
| Resumo: | A perspectiva desta tese teve início com a inquietação surgida ao longo de anos ao lidar com doente oncológico, mesmo não sendo profissional da área da saúde. Esta preocupação levou a questionamentos acerca da situação e das dimensões do sofrimento destes doentes, tendo em vista o que a patologia acarreta para eles e para todos os envolvidos. Partindo desta premissa, estabelecemos o objetivo geral de nossa pesquisa: identificar as condições que favoreceram o surgimento de aprendizagens significativas associadas à circunstância doença oncológica tendo como base o paradigma salutogénico construído por Aaron Antonovsky. Nosso tema, portanto, foi a educação no sofrimento de doentes oncológicos, partindo de uma revisão sobre a educação, entendida como Educação ao Longo da Vida. Nosso trabalho procurou ir ao encontro desta compreensão, promovendo a transdisciplinaridade, fazendo convergir para a educação no sofrimento dos doentes oncológicos e para a formação dos cuidadores formais e não formais, o conhecimento académico das áreas da educação em saúde e da ética, ao mesmo tempo que reconhece o valor e a relevância das narrativas dos próprios doentes. Em congruência com o tema, o âmbito e a finalidade, a pergunta de partida que utilizamos foi: Que condições, objetivas e subjetivas, favorecem a emergência de aprendizagens significativas na experiência do sofrimento de doentes oncológicos? Assim, lançámos mão de uma vasta revisão bibliográfica sobre temas relacionados à Educação ao Longo da Vida, Educação para a Saúde, paradigmas (patogénico e salutogénico) e modelos de Educação para a Saúde, sofrimento, dimensões do sofrimento, cuidar, valores do cuidar, ética do cuidar. Em termos metodológicos utilizamos de metodologia mista (quantitativas e qualitativas) tais como a estatística descritiva para os resultados obtidos através do questionário de sentido interno de coerência de Antonovsky e o método de natureza qualitativa, compreensivo-hermenêutico, mediante a recolha de relatos autobiográficos sobre os quais realizámos análise interpretativa hermenêutica. A amostra dirigida partiu da seleção de doze doentes oncológicos previamente indicados por médicos e instituições localizadas no Estado de Minas Gerais, Brasil, que atendiam aos critérios por nós definidos. Após a aprovação do Comitê de Ética da Universidade Fumec - Brasil e da Comissão de Ética da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) - Portugal, iniciamos os procedimentos do estudo empírico. Os resultados obtidos foram divididos em dois momentos – quantitativos (SOC) e qualitativos (narrativas) que, foram triangulados, de modo a referenciar os objetivos propostos e nos dar subsídios para encontrar respostas à pergunta de partida, nos permitindo uma visão mais ampla do universo pesquisado. A partir dos resultados das análises, pudemos tecer algumas conclusões: constatamos que nem sempre os doentes conhecem sua capacidade de gerenciar suas dificuldades acerca da doença e suas reais necessidades de cuidado, situação que resulta de um desconhecimento, por parte dos cuidadores formais, acerca da vivência que os doentes têm da sua enfermidade, com consequências de ordem técnica e ética. Os resultados obtidos mostraram que aqueles que dispunham de um SOC forte apresentavam recursos e capacidades capazes de levá-los a enfrentar a situação de estresse gerada pelo câncer, destacando-se: a compreensibilidade, construída por cada um; o movimento através da estratégia de busca de informações, apoio familiar; e significado, como chave para uma qualidade de vida. O sofrimento mostrou-se como um sentimento presente desde o início, independente do “Ser”, “Ter” ou “Adquirir”. As dimensões transcendentes, emocionais, interpessoais e intrapessoais identificadas nas narrativas, foram abordadas durante todo o processo da doença. Quanto às dimensões do cuidar, observámos relatos sobre o sofrimento tecnológico, a falta de compaixão e autonomia, advindos do próprio sistema saúde brasileiro ao manter dificuldades de acesso aos locais, exames, cirurgias, assim como profissionais capacitados. Os cuidados advindos de profissionais da saúde mostraram distanciamento do doente. Atitudes do cuidar tais como capacitar, respeitar, escutar, ter sentido de humor, tocar, não foram notadas nas narrativas, demonstrando um despreparo no cuidado com o outro, que identifica uma importante reflexão que deve ser incluída na formação dos cuidadores. Como contribuição, foram listados pontos que consideramos importantes para a formação dos cuidadores: trabalhar em prol de uma ruptura com o paradigma patogénico, de forma a priorizar a promoção da saúde, considerando o que os doentes oncológicos têm a nos ensinar; reforçar os valores éticos para o cuidar e a Educação para a Saúde, no meio acadêmico, pois o cuidar, ou como cuidar, está ligado ao ensino e à aprendizagem, que resulta em um processo intenso e complexo para educar e educar-se. |
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