Publicação
Desenvolvimento psicomotor de crianças pré-termo em idade pré-escolar: resultados do primeiro estudo epidemiológico de base hospitalar no interior norte de Portugal
| Resumo: | A prematuridade representa um fator de risco para o desenvolvimento psicomotor (DPM) de incidência crescente, estando ainda por caracterizar a sua epidemiologia no interior norte de Portugal. Este estudo teve como objetivo avaliar, em idade pré-escolar, a incidência de atraso do DPM de crianças pré-termo, particularmente pré-termos tardio, e aferir a perceção dos pais sobre o DPM dos seus filhos prematuros e o impacto da prematuridade neste contexto. MATERIAIS E MÉTODOS. Concebeu-se um estudo do tipo coorte, para o qual se recrutaram todas as crianças internadas numa unidade de referência em neonatologia no interior norte de Portugal (UCERN), em 2009. Incluíram-se os dados biológicos, as variáveis obstétricas e os indicadores do estado de saúde geral do recém-nascido. As crianças foram reavaliadas aos 36 meses, reavaliados os parâmetros antropométricos, averiguadas as aquisições e recolhidos os elementos sociodemográficos e familiares. Procedeu-se à avaliação do seu DPM pelas Escalas de Desenvolvimento Mental de Griffiths, Extensão Revista (2006), dos 2 aos 8 anos (EDMG), definindo-se atraso do DPM pela obtenção de uma pontuação geral padronizada (nota/estatística Z) inferior a 2 desvio-padrão da média (Z <-1.2), severo Z < -2 e limítrofe/borderline -1.9 ≤ Z ≤ -1.3. Solicitou-se aos pais que qualificassem o DPM dos seus filhos de “muito fraco a muito bom”. As respostas foram comparadas como as pontuações das EDMG. A eficiência preditiva da perceção parental do DPM foi aferida através do cálculo da área sob a curva (AUC), Inquiriram-se os pais sobre a influência da prematuridade no DPM dos seus filhos e na generalidade. RESULTADOS. Das 337 crianças nascidas pré-termo (18.8% do total dos 1788 nados vivos), incluíram-se as 102 que estiveram internadas na UCERN. Destas, 77 concluíram a avaliação, constituindo a coorte (23%). A maioria nasceu de parto pré-termo tardio (n=56, 72.7%), nenhuma de parto pré-termo extremo. O parto ocorreu por cesariana em 55.8%, 72, 92.5% nasceram com peso adequado à idade gestacional, 4 necessitaram de ventilação, 80% iniciou aleitamento materno (média 3º dia). A incidência de gemelaridade foi 27.3% (n=21). Não houve mortalidade. A idade média à avaliação foi 38.8 meses (33 - 47). Nenhuma criança fora referenciada como portadora de relevante morbilidade cognitiva ou motora. A maioria apresentava valores antropométricos e aquisições ocorridas em idade expectável. A incidência de atraso do DPM foi 22% (n=17), 14.3% (n=11) severo e 7.8% (n=6) limítrofe/borderline. No grupo pré-termo tardio foi 19.6% (n=11), 12.5% severo (n=7) e 7.1% limítrofe/borderline (n=4). Os domínios com maior frequência com pontuações deficitárias foram aaudição e linguagem (severo n=16, 20.8%; limítrofe/borderline n=12, 15.6%), locomoção (severo n=12, 15.6%; limítrofe/borderline n=14, 18.2%) e coordenação olho-mão (severo n=11, 14.3%; limítrofe/borderline n=12, 15.6%). Apenas 1 dos pais qualificou o DPM do filhos como “fraco”, nenhum com “muito fraco”, 11.7% (n=9) respondeu “satisfatório”, 63.3% (n=49) “bom” e 23.4% (n=18) “Muito bom”. A AUC calculada para aferir a perceção parental sobre o DPM foi 0.68 (IC95% 0.54 a 0.82). Menos de metade dos pais (46.8%) afirmou que a prematuridade influencia o DPM infantil e apenas 35% reconheceram tal nos seus filhos. Em 90.7% dos casos o agregado familiar incluía 3 a 5 conviventes. Um terço dos pais e dois terços das mães tinham a escolaridade obrigatória. A escolaridade dos progenitores provou influenciar o DPM (proporção de mães com escolaridade ≥ 12 anos foi 5.9% no grupo com atraso vs 35%, p=0.007; proporção de pais com escolaridade ≥ 12 anos foi 0.0% no grupo com atraso vs 15.0% , p=0.047) e a opinião relativamente ao risco da prematuridade, no plano geral e individual. Em 96.1% dos casos as refeições eram feitas em família, o que teve influência favorável no DPM (81.1% no grupo sem atraso vs 18.9, p=0.009). A proporção em que o aleitamento materno foi iniciado precocemente foi menor nas crianças com atraso (58.8 vs 85.0%, p=0.037). A proporção de crianças filhas de mães multíparas foi maior no grupo com atraso (76.5% vs 46.3% p=0.037). Não se identificaram outras diferenças significativas entre as crianças com e sem atraso. CONCLUSÕES. A incidência de atraso do DPM em idade pré-escolar de crianças pré-termo é significativa e pouco percetível para os pais. Confirma-se o efeito positivo da escolaridade dos pais, do aleitamento materno precoce, da dinâmica familiar e multiparidade no DPM de crianças pré-termo. Os pais tenderam a negligenciar a influência adversa da prematuridade, o que se verificou estar relacionado com o seu nível de escolaridade. Há necessidade de implementar localmente programas de vigilância precoce do DPM no contexto da prematuridade e de sensibilizar a comunidade quanto ao seu risco no DPM infantil. |
|---|---|
| Autores principais: | Bodas, Ana Rita |
| Assunto: | Desenvolvimento psicomotor Neurodesenvolvimento Pré-termo Prematuridade |
| Ano: | 2016 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da UTAD |
| Resumo: | A prematuridade representa um fator de risco para o desenvolvimento psicomotor (DPM) de incidência crescente, estando ainda por caracterizar a sua epidemiologia no interior norte de Portugal. Este estudo teve como objetivo avaliar, em idade pré-escolar, a incidência de atraso do DPM de crianças pré-termo, particularmente pré-termos tardio, e aferir a perceção dos pais sobre o DPM dos seus filhos prematuros e o impacto da prematuridade neste contexto. MATERIAIS E MÉTODOS. Concebeu-se um estudo do tipo coorte, para o qual se recrutaram todas as crianças internadas numa unidade de referência em neonatologia no interior norte de Portugal (UCERN), em 2009. Incluíram-se os dados biológicos, as variáveis obstétricas e os indicadores do estado de saúde geral do recém-nascido. As crianças foram reavaliadas aos 36 meses, reavaliados os parâmetros antropométricos, averiguadas as aquisições e recolhidos os elementos sociodemográficos e familiares. Procedeu-se à avaliação do seu DPM pelas Escalas de Desenvolvimento Mental de Griffiths, Extensão Revista (2006), dos 2 aos 8 anos (EDMG), definindo-se atraso do DPM pela obtenção de uma pontuação geral padronizada (nota/estatística Z) inferior a 2 desvio-padrão da média (Z <-1.2), severo Z < -2 e limítrofe/borderline -1.9 ≤ Z ≤ -1.3. Solicitou-se aos pais que qualificassem o DPM dos seus filhos de “muito fraco a muito bom”. As respostas foram comparadas como as pontuações das EDMG. A eficiência preditiva da perceção parental do DPM foi aferida através do cálculo da área sob a curva (AUC), Inquiriram-se os pais sobre a influência da prematuridade no DPM dos seus filhos e na generalidade. RESULTADOS. Das 337 crianças nascidas pré-termo (18.8% do total dos 1788 nados vivos), incluíram-se as 102 que estiveram internadas na UCERN. Destas, 77 concluíram a avaliação, constituindo a coorte (23%). A maioria nasceu de parto pré-termo tardio (n=56, 72.7%), nenhuma de parto pré-termo extremo. O parto ocorreu por cesariana em 55.8%, 72, 92.5% nasceram com peso adequado à idade gestacional, 4 necessitaram de ventilação, 80% iniciou aleitamento materno (média 3º dia). A incidência de gemelaridade foi 27.3% (n=21). Não houve mortalidade. A idade média à avaliação foi 38.8 meses (33 - 47). Nenhuma criança fora referenciada como portadora de relevante morbilidade cognitiva ou motora. A maioria apresentava valores antropométricos e aquisições ocorridas em idade expectável. A incidência de atraso do DPM foi 22% (n=17), 14.3% (n=11) severo e 7.8% (n=6) limítrofe/borderline. No grupo pré-termo tardio foi 19.6% (n=11), 12.5% severo (n=7) e 7.1% limítrofe/borderline (n=4). Os domínios com maior frequência com pontuações deficitárias foram aaudição e linguagem (severo n=16, 20.8%; limítrofe/borderline n=12, 15.6%), locomoção (severo n=12, 15.6%; limítrofe/borderline n=14, 18.2%) e coordenação olho-mão (severo n=11, 14.3%; limítrofe/borderline n=12, 15.6%). Apenas 1 dos pais qualificou o DPM do filhos como “fraco”, nenhum com “muito fraco”, 11.7% (n=9) respondeu “satisfatório”, 63.3% (n=49) “bom” e 23.4% (n=18) “Muito bom”. A AUC calculada para aferir a perceção parental sobre o DPM foi 0.68 (IC95% 0.54 a 0.82). Menos de metade dos pais (46.8%) afirmou que a prematuridade influencia o DPM infantil e apenas 35% reconheceram tal nos seus filhos. Em 90.7% dos casos o agregado familiar incluía 3 a 5 conviventes. Um terço dos pais e dois terços das mães tinham a escolaridade obrigatória. A escolaridade dos progenitores provou influenciar o DPM (proporção de mães com escolaridade ≥ 12 anos foi 5.9% no grupo com atraso vs 35%, p=0.007; proporção de pais com escolaridade ≥ 12 anos foi 0.0% no grupo com atraso vs 15.0% , p=0.047) e a opinião relativamente ao risco da prematuridade, no plano geral e individual. Em 96.1% dos casos as refeições eram feitas em família, o que teve influência favorável no DPM (81.1% no grupo sem atraso vs 18.9, p=0.009). A proporção em que o aleitamento materno foi iniciado precocemente foi menor nas crianças com atraso (58.8 vs 85.0%, p=0.037). A proporção de crianças filhas de mães multíparas foi maior no grupo com atraso (76.5% vs 46.3% p=0.037). Não se identificaram outras diferenças significativas entre as crianças com e sem atraso. CONCLUSÕES. A incidência de atraso do DPM em idade pré-escolar de crianças pré-termo é significativa e pouco percetível para os pais. Confirma-se o efeito positivo da escolaridade dos pais, do aleitamento materno precoce, da dinâmica familiar e multiparidade no DPM de crianças pré-termo. Os pais tenderam a negligenciar a influência adversa da prematuridade, o que se verificou estar relacionado com o seu nível de escolaridade. Há necessidade de implementar localmente programas de vigilância precoce do DPM no contexto da prematuridade e de sensibilizar a comunidade quanto ao seu risco no DPM infantil. |
|---|