Publicação
O uso de antibiótico em doentes que faleceram no hospital
| Resumo: | Introdução: A prática de uso de antibiótico até a morte é uma prática hospitalar comum para doentes terminais em fase de fim de vida (FdV). No entanto, em muitos casos a eficácia e o benefício desta terapia é duvidosa, e o uso indiscriminado e indevidamente prolongado de antibiótico nesta população contribui para a emergência de bactérias multirresistentes (MDR). Objetivos: Determinar a prevalência de utilização de antibiótico nos últimos dias de vida de doentes com e sem doença terminal no hospital, em particular a sua classe, duração, benefícios observados e o envolvimento das equipas de Cuidados Paliativos (CP) no tratamento. Métodos: Incorporado num estudo multicêntrico, realizámos um estudo longitudinal, retrospetivo, analítico e observacional, focado na utilização de antibioterapia na amostra de 300 doentes que faleceram no hospital, nomeadamente no Serviço de Medicina (SdM) e nas unidades do Serviço de Medicina Intensiva (UCI). Resultados: No conjunto dos dois serviços, 62,6% dos doentes falecidos apresentavam condições terminais associadas a patologias crónicas avançadas. Entre os pacientes terminais que faleceram, 55,3% receberam antibióticos até à morte, frequentemente de largo espetro. No SdM, doentes terminais receberam menos antibiótico do que não-terminais (40,7 versus 56,8%), ao contrário da UCI onde essa relação era semelhante (69,2% versus 75%). A duração média de terapia antibiótica era semelhante entre os doentes terminais e não-terminais (5,2 e 5,6 dias). Uma resposta clínica positiva ao tratamento foi documentada em 12 doentes. Foi pedido consultoria à equipa dos CP a 16 doentes.(5,3%). Aproximadamente 70% dos doentes faleceram sob a decisão de Não-Resuscitação (DNR), dos quais 48,1% estavam sob antibioterapia nos últimos dias de vida. O tempo médio de tratamento foi semelhante entre os com e sem ordem de DNR. Um número considerável de doentes em FdV e sob ordem de DNR (26 doentes no SdM e 8 na UCI) recebeu antibiótico durante um período excessivamente prolongado. Discussão e Conclusão: Observámos uma elevada prevalência na prescrição de antibióticos de largo espetro nos doentes em FdV, tanto no SdM quanto na UCI. Além disso, identificámos um prolongamento excessivo na administração desses antibióticos, apesar do estado avançado da doença e da decisão prévia de DNR tomada nesta população Não pondo de parte a subdocumentação nos processos clínicos, o número escasso de doentes com melhoria clinica levanta dúvidas sobre a eficácia e os benefícios da terapia com antibióticos em muitos doentes em FdV. V Verificou-se uma participação das equipas de Cuidados Paliativos muito restrita. Uma solução para mitigar o uso indiscriminado de antibióticos em doentes em FdV, com contextos clínicos e éticos tão singulares, reside numa abordagem especializada e centrada no paciente, a qual não pode ser alcançada sem a contribuição ativa dos CP. |
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| Autores principais: | Lohmann, Corinna |
| Assunto: | Cuidados paliativos Cuidados em fim-de-vida Tratamento com antibiótico Bactérias multirresistentes Palliative care End-of-life care Antibiotic therapy Multidrug-resistant bacteria |
| Ano: | 2023 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade Católica Portuguesa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Veritati - Repositório Institucional da Universidade Católica Portuguesa |
| Resumo: | Introdução: A prática de uso de antibiótico até a morte é uma prática hospitalar comum para doentes terminais em fase de fim de vida (FdV). No entanto, em muitos casos a eficácia e o benefício desta terapia é duvidosa, e o uso indiscriminado e indevidamente prolongado de antibiótico nesta população contribui para a emergência de bactérias multirresistentes (MDR). Objetivos: Determinar a prevalência de utilização de antibiótico nos últimos dias de vida de doentes com e sem doença terminal no hospital, em particular a sua classe, duração, benefícios observados e o envolvimento das equipas de Cuidados Paliativos (CP) no tratamento. Métodos: Incorporado num estudo multicêntrico, realizámos um estudo longitudinal, retrospetivo, analítico e observacional, focado na utilização de antibioterapia na amostra de 300 doentes que faleceram no hospital, nomeadamente no Serviço de Medicina (SdM) e nas unidades do Serviço de Medicina Intensiva (UCI). Resultados: No conjunto dos dois serviços, 62,6% dos doentes falecidos apresentavam condições terminais associadas a patologias crónicas avançadas. Entre os pacientes terminais que faleceram, 55,3% receberam antibióticos até à morte, frequentemente de largo espetro. No SdM, doentes terminais receberam menos antibiótico do que não-terminais (40,7 versus 56,8%), ao contrário da UCI onde essa relação era semelhante (69,2% versus 75%). A duração média de terapia antibiótica era semelhante entre os doentes terminais e não-terminais (5,2 e 5,6 dias). Uma resposta clínica positiva ao tratamento foi documentada em 12 doentes. Foi pedido consultoria à equipa dos CP a 16 doentes.(5,3%). Aproximadamente 70% dos doentes faleceram sob a decisão de Não-Resuscitação (DNR), dos quais 48,1% estavam sob antibioterapia nos últimos dias de vida. O tempo médio de tratamento foi semelhante entre os com e sem ordem de DNR. Um número considerável de doentes em FdV e sob ordem de DNR (26 doentes no SdM e 8 na UCI) recebeu antibiótico durante um período excessivamente prolongado. Discussão e Conclusão: Observámos uma elevada prevalência na prescrição de antibióticos de largo espetro nos doentes em FdV, tanto no SdM quanto na UCI. Além disso, identificámos um prolongamento excessivo na administração desses antibióticos, apesar do estado avançado da doença e da decisão prévia de DNR tomada nesta população Não pondo de parte a subdocumentação nos processos clínicos, o número escasso de doentes com melhoria clinica levanta dúvidas sobre a eficácia e os benefícios da terapia com antibióticos em muitos doentes em FdV. V Verificou-se uma participação das equipas de Cuidados Paliativos muito restrita. Uma solução para mitigar o uso indiscriminado de antibióticos em doentes em FdV, com contextos clínicos e éticos tão singulares, reside numa abordagem especializada e centrada no paciente, a qual não pode ser alcançada sem a contribuição ativa dos CP. |
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